A Colômbia talvez seja um dos poucos países da região que ainda mantém algo raro: um centro político real e intelectualmente estruturado. Nomes como Sergio Fajardo —ex-prefeito de Medellín que, com obras urbanísticas, tirou a cidade do ranking das mais violentas do mundo—, Claudia López —ex-prefeita de Bogotá, gay e feminista— e Juan Manuel Galán —filho de um ex-candidato que Pablo Escobar mandou assassinar— são apenas alguns exemplos.
Não há país grande na região que apresente um campo centrista tão sólido. A pergunta é se, até março, quando as candidaturas se definem, ele resistirá em um só nome ou se será fagocitado por um dos polos políticos. A eleição geral acontece em maio.
A eleição de Gustavo Petro quebrou a hegemonia bipartidista entre liberais e conservadores. Trata-se do primeiro presidente de esquerda num país que historicamente associou esse campo político às guerrilhas e ao medo.
O processo sucessório na quarta maior economia da América Latina agora pode ter uma esquerda democrática, um centro forte e uma direita dividida. Este é o cenário antes das consultas (uma espécie de primárias) em março.
É uma eleição inédita, sem o bipartidarismo e sem a preponderância da meia dúzia de famílias que historicamente concentram o poder no país.
De fora, Petro é visto como um governante fracassado, mas seus números não são tão ruins. É criticado pela direita próxima dos republicanos na Flórida e pelo conservadorismo local, mas esse quadro mudou. A reunião realizada com Donald Trump na última semana terminou com um “I love Colombia” por parte do líder republicano. O presidente colombiano, entretanto, não pode concorrer à reeleição, que é vetada no país.
Petro não atingiu a “paz total” com as guerrilhas nem aprovou todas as reformas que prometeu, mas tem resultados para mostrar. A área de cultivo de coca não caiu, mas tampouco cresceu 43% como na gestão do direitista Iván Duque. O governo bateu recordes de apreensões e extradições aos EUA. Na economia, houve estabilização: crescimento do PIB em 2025 de 3,5%, acima da meta, e desemprego abaixo de dois dígitos.
O salário mínimo subiu 23% e medidas econômicas populistas vêm rendendo apoio político a seu possível sucessor. Petro não fala à elite bogotana, mas sim à população da selva, dos portos, do campo. Aí, sua popularidade é grande. A elite cultiva o antipetrismo, indo contra o que realmente ocorre no país.
Os nomes governistas que podem sucedê-lo e encabeçam pesquisas de intenção de voto são o senador Iván Cepeda, que colocou Álvaro Uribe no banco dos réus, e o ex-senador Roy Barreras, mais centrista.
Do outro lado surge um novo fenômeno. Abelardo de la Espriella, mais do que um dirigente partidário tradicional, é um produto do ecossistema político-midiático contemporâneo. Combina retórica de ordem, estética de confronto e discurso anti-establishment, enquanto tenta unificar a direita fragmentada. Outsider de extrema direita, cresce nas pesquisas com discurso alinhado a Jair Bolsonaro, Javier Milei e Trump.
A eleição colombiana abre uma pergunta geral. O país confirmará seu status de exceção latino-americana, preservando um centro competitivo? Ou seguirá existindo o país descrito por Gabo, onde liberais e conservadores parecem condenados a conflitos intermináveis?
O Brasil tende a viver em sua bolha em um ano eleitoral tenso. Mas vale observar um país estratégico, nosso vizinho, acompanhado com lupa pelos Estados Unidos e próximo da maior crise regional, a Venezuela.
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