Com a internet bloqueada, ainda são limitadas as informações confiáveis sobre a mais recente onda de protestos no Irã. A maior parte do que se sabe vem de estimativas de organizações não governamentais sediadas fora do país, como a Hrana e a Iran Human Rights. São elas que fazem a contagem de mortos pela repressão do regime —no último balanço, a IHR contabilizou 3.428 mortes.
A Folha colheu de uma pessoa no Irã o testemunho de uma cena de extrema violência. Segundo o relato, bem mais de 4.000 pessoas teriam sido mortas em Teerã. Sua estimativa se baseia no número de corpos que ela conta ter visto no Centro Médico-Forense de Kahrizak, um dos locais da capital iraniana para onde famílias se deslocam quando tentam localizar os corpos de parentes.
“Os corpos são recolhidos em caminhões e descarregados em Kahrizak. Foi terrível. Vi corpos mutilados, despedaçados, com tiros na cabeça. Enquanto as famílias tentavam encontrar o cadáver de um parente, os caminhões continuavam chegando e despejando mais corpos, diante dos nossos olhos”, diz a pessoa ouvida pela reportagem.
“[Os corpos] estavam uns sobre os outros. Era exatamente como lixo, como se estivéssemos andando no meio do lixo para encontrar corpos. Eu não consegui seguir adiante, eu estava vomitando.”
Questionada se poderia detalhar a sua experiência, afirmou: “Acredito que tenha visto entre 4.000 e 5.000 corpos. Procuramos por pelo menos 3.000 [cadáveres] até encontrar aquele que estávamos buscando.”
Segundo o relato, os corpos estão guardados em armazéns. A testemunha diz considerar inverossímeis os números que chegam ao público pela cobertura da imprensa.
O bloqueio quase total da internet e o risco constante de retaliação tornam o trabalho da mídia no país extremamente limitado. A apuração depende de contatos protegidos, checagens indiretas e cruzamento cuidadoso de relatos, o que dificulta a confirmação independente das informações.
Os atos motivados pela alta do custo de vida e pela crise inflacionária começaram em 28 de dezembro e se disseminaram pelo país. “As piores noites foram as de 8, 9 e 10 de janeiro e, em menor escala, a de 11. Nos últimos dias, só encontramos poeira do medo e um silêncio de morte em Teerã.”
Como Kahrizak não é o único destino dos corpos recolhidos nas ruas em Teerã, o número de manifestantes mortos poderia ser ainda maior. Além disso, a contagem não inclui outras grandes cidades do país, como Mashhad, Isfahan e Shiraz.
De acordo com o testemunho, os manifestantes mortos pelo regime também estão sendo encaminhados ao cemitério Behesht-e Zahra, o maior da capital iraniana, especialmente quando as autoridades tentam impedir a identificação e a retirada pelas famílias ou quando não há parentes localizáveis. A mesma pessoa afirma que alguns enterros ocorrem sem cerimônia e, em alguns casos, em valas comuns.
A testemunha informou à reportagem a data exata em que visitou Kahrizak, mas a Folha decidiu não divulgá-la por razões de segurança. O relato é consistente com as informações disponíveis e com os elementos de verificação obtidos.
Há décadas, famílias em Teerã sabem que precisam ir a Kahrizak para tentar localizar os corpos de manifestantes mortos, como ocorreu nos protestos do movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, em 2022, nas manifestações de 2019 contra o aumento abrupto do combustível e no Movimento Verde, em 2009.
A comunicação no país segue sob rígido controle, o que ajuda a explicar a escassez de depoimentos e provas sobre a atual onda de protestos. Segundo o relato, casas estão sendo alvo de batidas para apreender antenas parabólicas em vários pontos do país, de Sa’adat Abad, no norte de Teerã, aos bairros do sul da capital. As buscas também incluem equipamentos da Starlink, a empresa de tecnologia de Elon Musk.
A pessoa entrevistada afirma ainda que snipers (atiradores furtivos) posicionados em prédios de Teerã estariam disparando contra quem tenta tirar fotografias. Além disso, pessoas estariam sendo abordadas nas ruas e, ao terem celulares vistoriados, sendo detidas se houver indício de acesso à internet.
Ainda de acordo com o depoimento, os presos vêm sendo acusados de “moharebeh” (termo do direito iraniano que pode ser traduzido como “inimizade contra Deus” ou “inimigo do regime”), uma imputação que pode levar à pena de morte.




