Durante a campanha presidencial americana de 2024, Charlie Kirk liderou um treinamento político para pastores em Dallas, no Texas. Diante da turma, ele se disse farto de alguns deles, que em sua opinião não faziam o bastante para levar Donald Trump de volta à Casa Branca.
Simulou uma voz reclamona para imitar líderes evangélicos hesitantes com o republicano que, no fim, derrotaria a rival Kamala Harris naquele pleito. “Mas, Charlie, não acho que Trump seja um bom modelo para nossa igreja.”
Kirk se disse então “sem paciência” para pastores que vinham com o que enxergava como ladainha. “Estou cansado disso.”
O ativista de direita foi morto nesta quarta-feira (10), baleado no pescoço num atentado enquanto discursava numa universidade. Além de Trump, sua morte mobilizou os chamados evangélicos brancos num país onde a divisão desse segmento também se compartimenta em gavetas raciais.
O millennial Kirk fundou em 2012, aos 18 anos, a Turning Point USA, organização conservadora forte nos campi universitários —é um motor de influência ideológica entre jovens que veem o ambiente estudantil como território a ser tomado da esquerda.
Não era um camarada propriamente religioso, ao menos em sua projeção pública. Em 2016, ano em que Trump foi eleito presidente pela primeira vez, disse ter uma “visão de mundo secular”. Chegou a definir Jesus como acolhedor, torcendo o nariz para “uma abordagem moralista hipócrita” para temas que polarizam o país, como a comunidade LGBTQIA+.
Defendia na época uma América com separação entre igreja e Estado. Então mudou de ideia. Em 2022, invertendo os sinais da própria fala, declarou: “Não há separação entre igreja e Estado. […] É uma ficção. Não está na Constituição. Foi inventado por seculares humanistas”.
Seu moonwalking de opiniões caminhou junto com as guerras culturais que tomaram o mundo na última década. Em sua terra natal, o nacionalismo cristão deu decibéis religiosos a vozes conservadoras que costumavam sintonizar em outra frequência.
Kirk, que antes priorizava em seus discursos tópicos como livre mercado e responsabilidade fiscal, virou referência na direita cristã nos últimos anos. Certa vez, descreveu Trump como “o presidente mais moral de que se tem registro”. Organizou eventos como o Pastors Summit e falou em “retomar o país” das mãos do “inimigo”.
Também marcou posição contra produtos que, para ele, empesteavam a cultura americana. Comentou que o trailer de “Barbie”, por exemplo, foi a “coisa mais nojenta que já viu” —a boneca que ama cor-de-rosa ganhou voltagem feminista na adaptação audiovisual.
Kirk se inspirou em teologias como a da guerra espiritual, que pressupõe forças do bem (conservadores) contra espíritos malignos (progressistas), e a dos sete montes. Esta preconiza sete zonas de influência para cristãos dominarem: família, religião, educação, mídia, artes/entretenimento, negócios e governo. Para tanto, pastores deveriam sair da retaguarda e assumir a linha de frente dessa batalha de contornos proféticos.
Tim Alberta, autor de “The Kingdom, the Power and the Glory” (o reino, o poder e a glória), livro sobre o movimento evangélico pró-Trump, reproduz uma fala de Kirk num púlpito: “O que o inimigo mais quer ver é a igreja americana permanecer em silêncio”.
Seu assassinato, agora, o transforma em algo maior do que apenas um ativista. Nos palanques e púlpitos do evangelicalismo trumpista, virou mártir —e a narrativa de perseguição, seu legado póstumo.




