O mundo sob a nova encarnação de Donald Trump como presidente da mais poderosa nação costuma ser visto por analistas como uma volta da realpolitik às relações internacionais. O brasileiro Vinicius Mariano de Carvalho discorda.
O professor e pesquisador no Departamento de Estudos da Guerra do King’s College (Londres), prefere dizer que o republicano é a epítome de algo novo, a “surrealpolitik”. “É preciso uma nova gramática”, diz, em conversa telefônica com a Folha.
Realpolitik é um termo criado em 1853 pelo político alemão Ludwig von Rochau. “A lei da força é similar à da gravidade”, escreveu, “o que leva à conclusão falsa do direito do mais forte”. A solução veio no regramento dos contatos entre atores políticos, algo típico do Iluminismo que florescera na Europa.
Para Carvalho, a diluição desse sentido retoma a ideia de que só a força resolve, como Trump acredita quando captura Nicolás Maduro ou cerca o Irã de ativos militares enquanto promove seu Conselho da Paz no lugar da ONU.
Mas isso, na sua visão, é insuficiente: o americano e outros líderes rasgaram o tecido da ordem global e introduziram um mundo onírico, no qual suas visões pessoais são impostas por meio de exércitos de robôs virtuais e fake news.
Para tentar ler o que está acontecendo, ele recorreu ao “Manifesto Surrealista” do francês André Breton, texto de 1924 que propunha uma arte “ditada pelo pensamento, na ausência de qualquer controle exercido pela razão, isento de qualquer preocupação estética ou moral”.
Novamente, a simplificação natural da linguagem levou ao “surreal” que se usa para tudo, mas a ponte proposta por Carvalho em um artigo publicado neste mês no site do King’s College oferece instrumentos para justificar uma visão mais estruturada do que seria a tal “surrealpolitik”.
O termo em si já surgiu em memes e até deu título a um livro de 2022, mas ali o foco era a ideia de controle dos serviços de segurança dos EUA sobre a sociedade.
Nesta entrevista, o acadêmico é pessimista. “Parece que só falta um Francisco Ferdinando, e aquilo que era tensão vira conflito”, diz, numa referência nada cômica ao arquiduque austro-húngaro cujo assassinato em 1914 serviu de desculpa para a Primeira Guerra Mundial.
Carvalho fala ainda do rearmamento europeu, da desinformação e do papel de países médios como o Brasil no futuro que talvez esteja por vir.
Como o sr. chegou à “surrealpolitik”?
Após a posse de Trump, eu comecei a me deparar muito com essa história de que estamos voltando à realpolitik, a política pela força, o que me parecia um equívoco. Estudando as origens do termo em si, na verdade a realpolitik é a tradução do Iluminismo para a política.
É um tipo de relação política entre nações muito regrado por racionalidade, e o que nós vivemos hoje não tem nenhuma lógica iluminista. Então o que poderia ser? Lembrei-me, então, do “Manifesto Surrealista” de André Breton.
Nele, ele fala em termos de estética na crença de uma superioridade, uma onipotência onírica no mundo, o que é uma característica da política contemporânea. Me veio, então, chamar a ideia disso de “surrealpolitik”, termo que usei pela primeira vez num evento em novembro.
O contexto que nós vivemos é tão novo que requer uma terminologia nova. A gente poderia usar o termo como brincadeira. Mas eu acho que mais do que um jogo de palavras, é procurar uma gramática para compreender a estrutura retórica da prática política.
E por que o surrealismo?
[O escritor alemão] Walter Benjamin disse que o surrealismo era o último instantâneo da intelligentsia europeia, ele o celebrou como novidade. E que os surrealistas tinham um conceito radical de liberdade. Isso está presente agora nesses movimentos que são conservadores, falam de família, nacionalismo, mas buscam a liquidação do ideal de liberdade que tínhamos no século 20 todo, de soberania de povos.
Agora o foco deste grupo, do trumpismo, mesmo de Javier Milei, é se arrogar o papel de defensores de uma liberdade absoluta, individual. Ao mesmo tempo, eles não parecem oferecer um arcabouço teórico além dos bons negócios, não?
Exato. Eles matam o senso de liberdade e só dizem que vale o benefício onírico do novo, porque tudo vale a pena neste jogo, não há lógica formal a seguir.
O sr. vê um ponto de inflexão nesse processo? A primeira eleição do Trump? A invasão da Ucrânia?
Eu voltaria ainda mais, já que é um processo. Com o fim da Guerra Fria, começam a surgir fissuras no tecido das relações internacionais que, sem serem devidamente tratadas, se tornaram fraturas. Quando a gente permite que o Iraque seja invadido, isso fica claro. A partir daí, avançamos até Trump 2, que é um ápice.
Isso não valida o argumento de Vladimir Putin de que a situação atual decorre do fato de os EUA não terem sido magnânimos ao fim da Guerra Fria, expandindo a Otan ao leste?
Eu acho que a questão russo-ucraniana é um corolário desse processo todo de colapso de normas. Nós tínhamos o Pacto Kellog-Briand, de 1928, que torna ilegais guerras de agressão e é referendado na Carta da ONU. Essa ordem durou, com problemas, claro, após a Segunda Guerra Mundial, e isso agora deixou de ser realidade.
Tribunais penais internacionais? Ninguém se importa com suas decisões, com acordos bilaterais, a ponto de Trump dizer que quer um território para si.
Tomar a Groenlândia se encaixa bem nesse quesito surreal…
Sim, é uma maneira de jogar no lixo toda a estrutura da realpolitik verdadeira, com regras. Subitamente, estamos num território em que não há uma lógica de negociação.
E Trump, com o estilo bola de demolição, não oferece um modelo em troca.
Exatamente. Sendo a potência mais poderosa do mundo, os EUA não trazem mais estabilidade, eles desestabilizam. Outros atores entram nessa órbita e vibram na mesma frequência. E aí entra o paradoxo maior, que é a retórica onírica de Trump de dizer que “acabei com oito guerras”. Ele não tem nem sequer o entendimento do que é um acordo de paz, ele só decreta.
Um símbolo deste mundo de regras é a União Europeia, que agora está sob ataque por ter negligenciado a questão da defesa continental.
Discordo de que a Europa negligenciou a defesa. Tudo o que aconteceu na Otan no século 20 era decorrente de uma política externa americana. Eles cresceram sua indústria de defesa tanto quanto a indústria de defesa americana permitiu. Ou seja, a responsabilidade do que ocorre na Otan hoje é tanto dos europeus quanto dos americanos. E vamos lembrar que a única vez em que o artigo 5 [de assistência mútua] foi acionado foi pelos EUA no 11 de Setembro.
Voltando à “surrealpolitik”, ela se aplica ao rearmamento europeu? Há risco de o continente reviver velhas rivalidades impensáveis hoje?
Não há determinismo histórico, as realidades têm raiz no passado, mas as coisas se modificam muito. Não podemos esquecer que a UE realmente trouxe para os cidadãos a compreensão da vantagem de fraternidade sobre a competição.
Mas o sr. vê riscos?
O que estamos vendo é um grande investimento em capacidade bélica, tanto cinética como em novas tecnologias no campo cyber. Todo esse investimento requer uso, né? O capitalismo vive de consumo, então se essa capacidade começa a crescer muito agora, precisará se consumir. Isso vai ter que ser gasto em algum lugar, numa guerra.
A maneira como o mundo está sendo inflado de produtos bélicos o fará explodir por causa do consumo desses produtos, num conflito de proporção que permita o equilíbrio, senão as empresas vão quebrar. Então, o risco é grande. Já vemos várias guerras de procuração, como no Sudão.
E a China? Ela se expande militarmente, mas não parece interessada em exportar modelos por meio dessas guerras.
Eu não conheço documentos chineses colocando os EUA como ameaça da forma como os americanos fazem com a China. De novo, são gramáticas distintas de relações de poder. Não estou dizendo que não haja competição entre eles, claro, mas se na Guerra Fria a União Soviética tinha no capitalismo um inimigo, dá para dizer isso da China hoje? Não, pois é tão ou mais capitalista que os EUA.
Outra característica atual é o fato de que os EUA estão destruindo a ordem vigente que ajudaram a construir, e quem a defende são países autocráticos ou ditatoriais, como China e Rússia, que apoiam o multilateralismo. Surrealismo, não?
Pois é. Trump fala apenas de seus interesses. Curioso é que a China não é vista aqui na Europa como uma ameaça como a Rússia, e os EUA não tratam mais os russos como aquele perigo. O Trump fala que se preocupa com o Hemisfério Ocidental e depois quer tomar a Groenlândia porque tem medo da influência russa lá. Este é um aspecto da “surrealpolitik”, pretende uma lógica sem haver lógica.
Qual o papel da tecnologia nesse processo? O mundo está atomizado, logo mais exposto à influência difusa dessa representação onírica, da fake news.
A tecnologia facilita isso. Os grandes avanços tecnológicos implodiram o conceito de temporalidade que nós tínhamos nas relações internacionais. Diplomacia é resultante de diálogo, e diálogo requer tempo. E as tecnologias nos eliminam isso totalmente, né?
A grande maioria dos leitores lê manchetes, não textos. A gente matou o texto para que ele seja o mais curto possível, com a pretensão de ser mais efetivo na comunicação. Mas isso mata a narrativa. Aí a comunicação fica mais afetiva, no sentido de tocar emoções, e é por isso que Trump tem um discurso repleto de adjetivos e repetições, e não de análise.
O sr. vê algum desfecho para esse processo?
A existência humana é uma floresta escura, não temos a menor noção do que pode acontecer. Às vezes, parece que só falta um Francisco Ferdinando, e aquilo que era tensão vira conflito.
E o papel de outros atores, como o Brasil? O discurso do [premiê canadense] Mark Carney em Davos pontuava a necessidade de um alinhamento de forças médias, sem grandes delírios.
O mundo é mais polar. A gente não pode negligenciar o que está acontecendo hoje na Índia, e não podemos esquecer também do Brasil e do papel geopolítico que pode ocupar, caso tenha a vontade de fazê-lo, e de atores africanos. Há um fator com que eles não sofrem como a Europa, que é a demografia.
RAIO-X
Vinicius Mariano de Carvalho, 51
Professor e pesquisador do Departamento de Estudos de Guerra do King’s College, Londres. É formado em letras, tem mestrado em estudos religiosos (Universidade de Juiz de Fora) e doutorado em literatura (Universidade de Passau, Alemanha). Especializado em musicologia, assuntos militares e missões de paz.




