Depois de um ano atrás das grades como prisioneiro político sob o regime de Nicolás Maduro na Venezuela, uma das primeiras coisas que Ángel Godoy fez foi pedir desculpas.
Libertado na última quarta-feira (14), o ativista político e colunista Godoy voltou para sua casa em Los Teques, a 40 minutos da capital, Caracas, onde o filho lhe mostrou uma foto de sua formatura no ensino médio.
“Desculpa por eu não ter estado lá”, sussurrou o Godoy. “Agora você está”, respondeu o filho, Miguelangel Godoy Briceño. “E eu preciso que você me ajude a estudar para a universidade.”
Godoy, 52, caminhou ao longo das paredes do apartamento e tocou nas fotos da família para confirmar que estava em casa. Na sala de estar, havia um pôster com o rosto dele que sua esposa havia usado como pano de fundo para todos os vídeos que gravou sobre a detenção do marido, em 8 de janeiro de 2025.
Ele pegou um marcador e escreveu sobre o pôster, em letras grandes: LIBERTADO.
Godoy e sua família esperavam por esse momento havia 371 dias, mas as esperanças cresceram no início deste mês, depois que o ditador Nicolás Maduro foi capturado por forças dos Estados Unidos em Caracas e o regime venezuelano anunciou que começaria a libertar “um número importante” de prisioneiros políticos.
Godoy é um dos sortudos. Até o momento, apenas 143 dos quase 900 prisioneiros políticos estimados existirem na Venezuela foram libertados, segundo um importante grupo de direitos humanos, o Foro Penal. E grande parte da máquina de repressão do regime de Maduro permanece amplamente intacta.
Foi justamente esse aparato que capturou Godoy quando ele chegava em casa, há um ano, e o acusou de terrorismo e de incitação a ações armadas e ao ódio. Ele nega as acusações, que são comumente feitas contra prisioneiros políticos na Venezuela.
Godoy contou que homens mascarados saltaram de uma van sem identificação, com vidros escuros, e o levaram. Embora os homens não usassem insígnias oficiais, Godoy gritou aos vizinhos que se tratava da agência de inteligência do país —acusada de inúmeras violações de direitos humanos— e pediu que avisassem sua esposa.
Durante os 25 dias seguintes, a família não teve notícias dele. Eles não o viram por 96 dias.
Godoy foi mantido em várias prisões, incluindo El Helicoide, o infame e enorme edifício em Caracas que foi construído para ser o primeiro shopping do mundo em formato drive-through, mas que acabou se tornando um centro de tortura, segundo grupos de direitos humanos. Ele classificou seu processo judicial e sua audiência de acusação feita por telefone como “vergonhosos”.
“Ele está atrás das grades”, disse sua esposa, Adriana Briceño. “Mas nós, como família, também estamos.”
Enquanto esteve preso, Godoy e sua esposa, casados há 19 anos, mantiveram viva a esperança por meio do amor que sentiam um pelo outro. Durante meses, Adriana usou balas para enviar mensagens, escrevendo palavras de incentivo ou notícias dentro dos papéis de embrulho.
Godoy respondia em pequenos pedaços de papel dobrados, contrabandeados para fora na roupa suja que sua esposa recolhia nos dias de visita. “Eu te amo mais do que a própria vida”, escreveu ele em um deles.
Godoy guardou todos os papéis de bala. Mas, quando foi transferido para outra prisão, tudo ficou em sua antiga cela. Para surpresa de sua esposa, os guardas entregaram todas essas lembranças a ela quando foi buscar seus pertences.
No dia em que Godoy foi libertado, sua esposa recebeu a notícia exatamente quando entrava na prisão para uma visita. Quando o Godoy ouviu seu nome ser chamado para a libertação, “o caos se instalou”, disse ele.
Outros presos o abraçaram. “Eu disse: ‘Meu Deus’”, lembrou. “Eu não conseguia acreditar. Todos gritavam: ‘Liberdade, liberdade, liberdade!’”
Do lado de fora, Godoy viu um país marcado pelos ataques dos Estados Unidos. No caminho de volta para casa com a esposa e o cunhado, contou a eles sobre o tempo que passou na prisão. “Que não repitamos essa escuridão”, disse ele.
Os vizinhos de Godoy o receberam com abraços e lágrimas.
Dentro do apartamento havia lembranças de uma vida interrompida.
A mesa da sala de jantar continuava posta com decorações de Natal. No freezer, havia uma tradicional hallaca, o prato típico natalino da Venezuela, que sua esposa havia guardado para ele, só por precaução.
Alguns objetos vieram da prisão, entre eles um ursinho de pelúcia áspero, feito por outros presos com retalhos de tecido de um colchão da cela de Godoy, como presente de aniversário de casamento para sua esposa. Havia também uma bola de pano coberta de mensagens para o filho. Para conseguir tirar a bola da prisão por meio da esposa, Godoy negociou com o diretor e permitiu uma inspeção minuciosa de cada palavra.
Em um canto do apartamento da família estava uma mesa de plástico gasta. Godoy usava essa mesa em sua cela, e a família a recuperou após sua transferência para outra prisão. Em sua superfície, ele havia escrito um versículo da Bíblia: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum.”
Mesmo estando livre, as autoridades venezuelanas mantêm controle sobre Godoy. Ele está proibido de deixar o país e deve comparecer ao tribunal a cada 30 dias.
Mas, naquela primeira tarde fora da prisão, sentou-se à mesma mesa que sua esposa havia mantido decorada. E comeu exatamente os alimentos que ela havia guardado para ele.
Ele estava, de fato, em casa.




