Em 2024, 133 pessoas morreram no Chile devido a incêndios florestais. À época, a mudança climática não era responsável pelo evento extremo, mas um estudo de atribuição alertava para a construção de um ambiente propício a novas queimadas. Dois anos depois, elas vieram, com um saldo de 23 mortos, centenas de feridos e 52 mil desabrigados.
Desta vez, porém, a conta vai para o aquecimento global, de acordo com nova análise do World Weather Attribution (WWA), consórcio de cientistas liderados pelo Imperial College de Londres que verifica a responsabilidade da mudança climática em eventos extremos.
Segundo o estudo, publicado nesta quarta-feira (11), as condições de clima propícias a incêndios no Chile neste ano se tornaram três vezes mais prováveis com o atual aquecimento do planeta, de 1,3°C em relação ao período pré-industrial.
Na Patagônia argentina, que ainda enfrenta o fogo na província de Chubut, as condições climáticas extremas foram agora 2,5 vezes mais prováveis. Isso é medido por meio de uma ferramenta meteorológica, Hot Dry Windy Index (HDWI), que reúne dados de temperatura, umidade e velocidade do vento.
“É uma variável que tem se mostrado excelente indicadora de condições extremas de seca propícias a incêndios no curto prazo”, afirma Clair Barnes, pesquisadora do Centro de Política Ambiental do Imperial College. Na prática, reflete os dados observacionais coletados na região em janeiro: calor de 38°C, meses de seca e ventos de até 50 km/h.
“Também consideramos as tendências das chuvas no início do verão, de novembro a janeiro.” A baixa pluviosidade nos meses que antecederam os incêndios deixou a vegetaçã o muito seca. O volume de chuvas da atual temporada está 24% menor no Chile, em comparação ao período sem aquecimento global, e 35% inferior na Patagônia, que experimenta sua maior queimada em duas décadas.
Segundo Juan Antonio Rivera, do Conicet, órgão que fomenta a pesquisa científica na Argentina, 45 mil hectares já foram consumidos em seu país, contra 64 mil no Chile. “A seca na verdade começou no inverno, que é a estação chuvosa na região, com valores de precipitação muito abaixo do normal.”
A situação persistiu durante a primavera e no início do verão. “Combinada com temperaturas muito acima do normal, tudo isso resultou em estresse hídrico na vegetação. Uma vez que os incêndios começaram, iniciados por causas humanas, encontraram combustível abundante para persistir ao longo do tempo.”
O fogo ainda ameaça o Parque Nacional Los Alerces, no noroeste da Patagônia, que reúne árvores milenares. “Infelizmente, o orçamento para o combate a incêndios foi drasticamente reduzido pelo atual governo”, diz Rivera, em referência aos cortes nos serviços públicos argentinos promovidos pela gestão Javier Milei.
“No Chile, por exemplo, a situação de emergência durou um período muito curto, durante o qual foram tomadas medidas rápidas para apagar os incêndios e mitigar os impactos. Na Argentina ainda vemos a situação fora de controle. Um bombeiro ou voluntário ganha aproximadamente € 450 (R$ 2.746) por mês, situação insustentável”, afirma o pesquisador.
Para Rivera, “é injusto que essa pessoa esteja arriscando a vida para proteger a biodiversidade e florestas tão antigas”. Milei é um negacionista do aquecimento climático e foi bastante criticado por ter ido a um concerto de rock no ápice das queimadas.
No Chile, que aumentou em 110% o orçamento para o combate a incêndios florestais, outros fatores não climáticos intensificaram o problema. “Árvores exóticas nas regiões afetadas aumentaram a magnitude dos incêndios, uma vez que a estrutura de vegetação nativa, adaptada ao fogo, vem sendo substituída por grandes plantações”, afirma Mauricio Santos-Vega, do Centro de Clima da Cruz Vermelha Crescente Vermelho.
Florestas de pinheiros, mais densos e combustíveis, carregam o problema adicional de estarem próximas a comunidades, o que explica o saldo de vítimas. “É um problema parecido com o de Valparaíso, em 2024, que ressalta a importância de se considerar o risco de incêndios no planejamento urbano e na legislação de uso do solo.”
Ainda que muitos fatores não climáticos tenham concorrido para os incêndios, Barnes ressalta o fato de que o risco dos eventos extremos está sendo agravado pelo aquecimento global, provocado sobretudo pela queima de combustíveis fósseis.
“Se insistirmos nesse caminho, a tendência é de continuidade do problema no futuro.” Há dois anos, o alerta do WWA não era muito diferente.




