Com seu amplo ataque ao Irã no início deste sábado (28) e seu apelo ao povo iraniano para derrubar o regime do país, o presidente Donald Trump embarcou na guerra de escolha definitiva.
Ele não foi movido por uma ameaça imediata. Não havia uma corrida pela bomba. O Irã está mais longe da capacidade de construir uma arma nuclear hoje do que esteve nos últimos anos, graças em grande parte ao sucesso do ataque anterior do presidente às instalações de enriquecimento nuclear iranianas, em junho.
Embora Trump tenha afirmado que Teerã tinha como objetivo final alcançar os Estados Unidos com seu arsenal de mísseis, até mesmo sua própria Agência de Inteligência de Defesa concluiu no ano passado que levaria uma década para o Irã superar os obstáculos tecnológicos e de produção para produzir um arsenal significativo.
E não havia indicações de um ataque iraniano iminente aos Estados Unidos, seus aliados ou suas bases na região. Em vez disso, Trump atacou a República Islâmica em grande parte porque aparentemente percebeu um momento notável de fraqueza do regime —e uma oportunidade para os EUA derrubarem o aiatolá Ali Khamenei e a Guarda Revolucionária após 47 anos de confrontos episódicos, que ele descreveu detalhadamente em um vídeo de oito minutos.
Mas, diferentemente de presidentes anteriores que colocaram as forças americanas em risco —e, em uma era de terrorismo e ataques cibernéticos, talvez civis também—, Trump não passou meses construindo um argumento para a guerra. Ele nunca apresentou evidências de uma ameaça iminente nem respondeu à pergunta de por que um programa nuclear que ele afirmou ter “obliterado” oito meses atrás estava agora à beira de ser revivido.
Seu vídeo pré-gravado, divulgado no meio da noite enquanto os mísseis começavam a explodir em Teerã, recitou uma lista de queixas de longa data contra o Irã, incluindo seu uso brutal do terror. Mas ele nunca explicou por que, no panteão de ameaças enfrentadas pelos EUA, incluindo uma Coreia do Norte já armada nuclearmente e os arsenais nucleares em expansão e as ambições territoriais da Rússia e da China, um Irã enfraquecido ocupa o primeiro lugar.
Então, ao escolher este momento e este vetor de ataque, um homem que chegou ao poder prometendo acabar com intervenções militares imprudentes —e guerras destinadas a promover mudanças de regime— está assumindo um risco enorme. Há poucos, se é que há algum, exemplos na história de derrubar o governo de uma grande nação —neste caso, cerca de 90 milhões de pessoas— apenas com poder aéreo.
Mas se Trump e o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, de Israel, que o incentivou a partir de dezembro a iniciar esta guerra e que se juntou a ela desde o início, têm um plano para alcançar esse objetivo, ainda não o revelaram, nem mesmo aos seus aliados mais próximos.
Funcionários de alto escalão de três desses aliados, que vão da Europa ao Golfo Pérsico e foram entrevistados nos últimos dias, disseram que, em suas interações com os principais assessores de Trump, ouviram pouco entusiasmo por esses ataques e nenhuma justificativa legal plausível para atacar o Irã agora.
Esses funcionários falaram sob condição de anonimato para descrever discussões privadas. Mas a experiência deles explica em parte por que o Reino Unido, o aliado mais próximo dos Estados Unidos, proibiu os americanos de usar bases de bombardeiros no território britânico para lançar caças e bombardeiros dos EUA.
“Não é como se o Irã representasse uma ameaça aos nossos interesses que não tivesse representado nos últimos 47 anos”, disse Richard N. Haass, ex-presidente do Conselho de Relações Exteriores e autor do livro de 2009 “War of Necessity, War of Choice” (Guerra de necessidade, guerra de escolha), um estudo sobre os dois conflitos com o Iraque, em 1991 e 2003. O primeiro, ele concluiu, foi definido por objetivos limitados e alcançáveis: libertar o Kuwait depois que Saddam Hussein o invadiu. Uma vez que o Iraque foi expulso do território kuwaitiano, George Bush decidiu não derrubar Saddam.
Mas a decisão de Trump no sábado foi mais parecida com a decisão de George W. Bush, o filho, de livrar o mundo de Saddam e seu governo, por causa da ameaça latente que representava para a paz internacional.
“Assim como na segunda guerra do Iraque, não havia necessidade de atacar o Irã; havia uma oportunidade”, disse Haass. “Este é um ataque preventivo clássico, para impedir que o Irã adquira uma capacidade no futuro. O que está faltando é ‘Por que agora?’, porque havia outras opções: acordos diplomáticos sob pressão militar, embargos econômicos, interceptação de navios iranianos.”
No direito internacional, a diferença entre uma guerra de necessidade e uma guerra de escolha é enorme. Um ataque preemptivo —no qual uma nação vê um ataque se formando do outro lado do rio ou do oceano e ataca primeiro— é considerado legítimo.
Um ataque preventivo, no qual o mais poderoso ataca o Estado mais fraco, é considerado ilegal. Um exemplo seria a decisão da Rússia de invadir a Ucrânia, que os Estados Unidos e grande parte do mundo denunciaram como uma violação grave da ordem internacional.
A resposta de Trump é que ele não precisava de um evento precipitador. Ele enumerou mais de quatro décadas de ações mortais iranianas —desde a crise dos reféns de 1979, que durou 444 dias, até ataques a bases e navios americanos. “Não vamos mais tolerar isso”, disse Trump em um vídeo gravado que postou em sua conta de rede social. E até o nome da missão dado pelo Pentágono, Operação Fúria Épica, parecia refletir o acúmulo de queixas.
As ramificações legais internacionais provavelmente não influenciarão a visão de Trump sobre o ataque. “Não preciso do direito internacional”, disse ele a quatro repórteres do The New York Times durante uma entrevista em janeiro. “Não estou querendo prejudicar pessoas.” E acrescentou que, embora achasse que seu governo deveria respeitar os princípios legais internacionais, deixou claro que ele seria o árbitro de quando esses princípios se aplicariam aos EUA.
“Depende de qual é a sua definição de direito internacional”, disse ele.
Também pode depender de qual é a definição de “guerra”. Em sua declaração, Trump chamou esta ação de guerra, alertando o país de que pode ter que enfrentar baixas. Mas não fez nenhum esforço para buscar uma autorização para uso de força militar, muito menos uma declaração de guerra, do Congresso.
Ele certamente não seria o primeiro presidente a iniciar uma grande ação militar sem aprovação formal do Congresso. Mas, no caso de Trump, ele descartou a ideia de que sequer precisa disso.
Quando os historiadores olharem para este momento no futuro, provavelmente farão duas perguntas: Por que Trump agiu agora e por que o Irã foi seu alvo?




