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No Peru, governar passou a ser exercício de sobrevivência – 17/02/2026 – Mundo

O Peru reviveu nesta terça-feira (17) um roteiro que se tornou familiar nas últimas décadas. Ou seja, mais um presidente destituído antes de concluir o mandato, e um Congresso que, outra vez, empurra o país para a beira do abismo institucional.

Pessoalmente, tendo acompanhado algumas dessas situações semelhantes (como nos casos de PPK e Vizcarra), as chamadas “moções de vacância“, a imagem que mais me impressionou foi a dos parlamentares, nos corredores que levam ao plenário, negociando com os chefões de seus partidos quais cargos receberiam caso votassem “sim” ou “não”.

Claro, a democracia é sempre o melhor caminho —desde que grupos políticos não tentem arrasar essa conquista histórica por interesses próprios. No Peru, porém, ela acabou sendo envolvida nesse jogo, e o roteiro de como distorcer o próprio sistema democrático ficou evidente.

O Congresso do Peru aprovou um pedido de censura para destituir José Jerí (impeachment não pode ser usado nesse caso, pois constitui outro tipo de processo) da Presidência, apenas quatro meses após suceder Dina Boluarte, também destituída pelo Legislativo sob a acusação de incapacidade para enfrentar a crise de segurança.

Uma das sete moções prosperou contra o advogado de 39 anos, investigado por reuniões clandestinas com empresários chineses de reputação controversa.

O chamado “Chifagate” —nome dado ao escândalo das reuniões em um restaurante chinês fechado ao público— corroeu rapidamente sua legitimidade. Vídeos mostraram Jerí entrando encapuzado para se reunir com empresários ligados a setores sensíveis, incluindo segurança e energia.

As versões contraditórias oferecidas pelo presidente ao longo das semanas selaram seu isolamento político. Mas sua queda não se explica apenas pelo escândalo.

No Peru, a Presidência tornou-se um cargo provisório. A pergunta que se impõe é mais profunda: por que manter um sistema político que sistematicamente expulsa seus próprios líderes antes que completem o mandato?

A resposta passa pela desmontagem do sistema partidário tradicional, processo acelerado nos anos 1990 sob o governo de Alberto Fujimori, presidente de 1990 a 2000, que dissolveu o Congresso em um autogolpe e governou com forte concentração de poder. Embora seu governo tenha estabilizado a economia e derrotado o grupo guerrilheiro Sendero Luminoso, e por isso é altamente popular, também deixou um legado de autoritarismo e corrosão institucional.

Antes disso, o Peru contava com partidos históricos que estruturavam a política nacional. O partido Aliança Popular Revolucionária Americana (Apra), fundado por Víctor Raúl Haya de la Torre, foi durante décadas uma das principais forças políticas do país e levou Alan García à Presidência em dois mandatos.

O Ação Popular, liderado por Fernando Belaúnde Terry —presidente eleito em 1963 e novamente em 1980 após o fim de uma ditadura militar— representava uma tradição democrática reformista. Com todas as suas falhas, esses partidos ofereciam identidade programática e canais institucionais estáveis.

O que emergiu após o fujimorismo foi uma proliferação de legendas frágeis, alianças eleitorais efêmeras e bancadas sem coesão ideológica. Essa fragmentação favorece líderes personalistas e figuras que operam mais como freelancers do poder do que como representantes de projetos coletivos.

O legado mais profundo do fujimorismo talvez não seja apenas o autoritarismo de seu período, mas a implosão do sistema que permitia alguma previsibilidade institucional.

Nesse ambiente, o Congresso transformou a vacância presidencial em instrumento político recorrente. A lógica deixa de ser governabilidade e passa a ser cálculo eleitoral imediato.

Com a saída de Jerí, caberá agora ao presidente do Congresso assumir interinamente até 28 de julho, quando tomará posse o eleito nas urnas. Até lá, o Peru continua preso a uma espiral de instabilidade que inviabiliza reformas e corrói a confiança pública.

Governar deixou de ser exercício de mandato e passou a ser exercício de sobrevivência —e, pela experiência recente, a sobrevivência costuma durar pouco.

Fonte: Folha de São Paulo

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