Quando Lauren Vaughn, assistente de jardim de infância na Carolina do Sul, viu reportagens de que o influenciador de direita Charlie Kirk havia sido baleado em um evento em Utah, ela abriu o Facebook e digitou uma citação do próprio Kirk.
Mortes por armas de fogo, disse Kirk em 2023, eram lamentáveis, mas “valiam a pena” se preservassem “a Segunda Emenda para proteger nossos outros Direitos concedidos por Deus.” Após a citação, Vaughn acrescentou: “Thoughts and prayers” (“pensamentos e orações”).
Vaughn, uma cristã de 37 anos que já fez viagens missionárias à Guatemala, disse que seu pedido de oração era sincero. Ela afirmou esperar que ler as palavras de Kirk no contexto do tiroteio pudesse levar seus amigos a repensar sua oposição ao controle de armas.
“Talvez agora eles escutem”, ela recorda ter pensado.
Alguns dias depois, Vaughn perdeu o emprego. Ela foi uma das mais de 600 pessoas nos Estados Unidos demitidas, suspensas, colocadas sob investigação ou advertidas por empregadores por comentários sobre o assassinato de Kirk, em 10 de setembro, de acordo com um levantamento da Reuters a partir de registros judiciais, declarações públicas, reportagens da mídia local e entrevistas com dezenas de pessoas que foram demitidas ou de outra forma punidas.
Algumas foram dispensadas após comemorar ou zombar da morte de Kirk. Pelo menos 15 foram punidas por supostamente invocar “karma” ou “justiça divina”, e pelo menos outras nove foram advertidas por variações de “Bem feito.” Outras postagens ofensivas pareciam exultar o assassinato ou expressar esperança de que outras figuras republicanas fossem as próximas. “Um a menos, muitos por vir”, dizia uma delas.
Outros, como Vaughn, dizem que simplesmente criticaram a política de Kirk.
No campo pró-Kirk, pelo menos um acadêmico foi colocado em licença administrativa após ameaçar “caçar” aqueles que celebraram o assassinato.
Este relato é o mais abrangente já feito sobre o revide contra os críticos de Kirk, rastreando como altos funcionários do governo do presidente Donald Trump, legisladores republicanos locais e influenciadores aliados se mobilizaram para impor as visões do movimento.
A reportagem mapeou a máquina pró-Trump de retaliação que remodelou a vida política dos Estados Unidos, detalhando sua escala e táticas, que variam de constrangimento nas redes sociais a pressão pública sobre empregadores e ameaças de cortar verbas de instituições. Relatos anteriores da Reuters documentaram como Trump expurgou o governo federal de funcionários considerados opositores de sua agenda e reprimiu escritórios de advocacia que defendiam pessoas visadas pelo governo.
Americanos às vezes perdem seus empregos após se manifestarem em momentos políticos acalorados. Em 2020, 22 acadêmicos foram demitidos por causa do caso de George Floyd, cidadão negro assassinado por um policial de Minneapolis. A maioria sofreu punição por comentários considerados insensíveis, segundo a Foundation for Individual Rights and Expression, um grupo de defesa da liberdade de expressão.
Em 2024, o primeiro ano completo após a eclosão da última guerra Israel-Hamas, mais de 160 pessoas foram demitidas em conexão com sua defesa pró-Palestina, segundo a Palestine Legal, uma organização que protege os direitos civis de apoiadores americanos da causa palestina.
O revide por comentários sobre o tiroteio de Kirk se destaca por seu alcance e por seu apoio público de Trump, do vice-presidente J. D. Vance e de outros altos funcionários do governo. Representa uma guinada notável para os republicanos, que por anos criticaram a esquerda pelo que chamavam de “cultura do cancelamento” —a ostracização ou punição daqueles cujas opiniões eram consideradas inaceitáveis.
Apoiadores das demissões dizem que liberdade de expressão não é algo incondicional. Os padrões de comportamento devem ser altos para pessoas como médicos, advogados, professores ou profissionais de emergência que ocupam posições de confiança pública, afirmaram.
Em comunicado, a porta-voz da Casa Branca, Abigail Jackson, disse: “O presidente Trump e todo o governo não hesitarão em dizer a verdade —por anos, esquerdistas radicais caluniaram seus oponentes políticos como nazistas e fascistas, inspirando violência de esquerda. Isso precisa acabar.” Ela declarou que “ninguém entende os perigos da violência política melhor que o presidente Trump”, após ele sobreviver a duas tentativas de assassinato.
A Turning Point USA, o movimento juvenil fundado por Kirk em 2012, disse em comunicado que apoiava o direito à liberdade de expressão, “incluindo o dos empregadores privados de determinar quando uma linha foi ultrapassada e um funcionário merece ser demitido.” A organização, no entanto, afirmou que, embora celebrar ou se vangloriar da morte de Kirk fosse “um comportamento maligno e desqualificante, discordar respeitosamente de suas ideias, declarações ou valores é um direito de todo americano”.
Lauren Vaughn está contestando sua demissão em um processo federal movido em 18 de setembro, buscando ser reintegrada. Como parte do caso, ela apresentou uma carta que recebeu do superintendente do Distrito Escolar do Condado de Spartanburg descrevendo seus comentários como “inflamatórios, não profissionais e inadequados.” Em resposta ao processo, o distrito disse que a postagem de Vaughn “parecia endossar o assassinato do Sr. Kirk ou indicar que foi válido ele perder a vida para proteger os direitos constitucionais dos americanos”.
Outro caso foi o de Julie Strebe, uma policial de Salem, no estado do Missouri, que perdeu o emprego após publicar comentários no Facebook sobre o tiroteio, incluindo “empatia não é algo que devemos aos opressores”. Mais tarde, ela disse que via Kirk como um opressor porque, em suas palavras, ele buscava marginalizar grupos vulneráveis e usava sua plataforma para reunir cristãos brancos conservadores em torno de “visões racistas, sexistas e odiosas”. Ela disse que seus chefes foram bombardeados com pedidos pela sua demissão e que, em certo momento, um cartaz feito à mão apareceu do outro lado da rua de sua casa dizendo: “Julie Strebe apoia o assassinato de Charles Kirk”.
Strebe disse que instalou cinco câmeras de vigilância em sua casa e agora abastece seu carro apenas à noite para evitar vizinhos. Mudar-se de Salem significaria deixar a família extensa, mas ela afirmou que a pequena cidade se tornou hostil demais para permanecer. “Simplesmente não sinto que poderia baixar a guarda em nenhum momento”, disse ela em entrevista. O antigo empregador de Strebe, o Escritório do Xerife do Condado de Dent, recusou-se a comentar.
Alguns acadêmicos compararam o revide ao “Medo Vermelho” (Red Scare), o expurgo que atingiu seu auge na década de 1950, quando autoridades, líderes sindicais e figuras de Hollywood foram acusados de vínculos comunistas. Milhares foram investigados em um clima de medo que moldou a política e a cultura norte-americanas por uma geração. Há “paralelos muito perturbadores”, disse Landon Storrs, professor de História da Universidade de Iowa.
Alguns republicanos proeminentes expressaram desconforto com a repressão, especialmente depois que a Comissão Federal de Comunicações (FCC) pressionou abertamente a emissora ABC a suspender o apresentador Jimmy Kimmel após um monólogo no qual ele sugeriu que o assassino de Kirk vinha da direita política.
A polícia ainda não detalhou completamente os resultados da investigação sobre o suspeito Tyler Robinson e seus motivos. Robinson ainda não apresentou uma declaração formal sobre a acusação de assassinato e outras imputações.
O senador republicano Ted Cruz alertou em seu podcast que permitir que o governo decida “quais discursos gostamos e quais não gostamos” estabelece um precedente perigoso. Silenciar vozes como a de Kimmel pode parecer gratificante, disse ele, mas “quando isso for usado para silenciar todos os conservadores da América, vamos nos arrepender.” Seu porta-voz recusou mais comentários.
Professores, acadêmicos e administradores universitários estavam entre os mais punidos por criticar Kirk. Mais de 350 trabalhadores do setor foram demitidos, suspensos ou investigados nos dias seguintes ao assassinato, incluindo 50 acadêmicos e administradores universitários, três diretores de ensino médio, dois treinadores de líderes de torcida e um instrutor de teologia.
A proeminência de educadores no revide pode ter várias explicações. Como líderes responsáveis por moldar jovens mentes, professores há muito são retratados por alguns conservadores como ideólogos que buscam levar seus alunos para a esquerda. Sua condição de funcionários pagos com dinheiro público tornava qualquer comentário considerado partidário especialmente inflamável.
Em entrevistas e declarações públicas, pelo menos seis professores apontaram outro motivo para se manifestar: preocupação com a frequência da violência armada em escolas em todo o país —e indignação com aqueles, como Kirk, que defendiam amplo acesso a armas de fogo.
Vaughn, a assistente de jardim de infância da Carolina do Sul, disse que isso estava em primeiro plano quando foi ao Facebook citar o comentário de 2023 de Kirk, que minimizava mortes por armas de fogo como um preço necessário para proteger direitos de armamento. Como outros professores nos EUA, ela disse que praticava regularmente exercícios de simulação de ataque a tiros em sua escola e via o medo nos rostos de seus alunos de cinco anos enquanto aprendiam a se esconder de um atirador.
Ao defender sua postagem no dia da morte de Kirk, ela disse a um amigo no Facebook que não sentia “nenhuma satisfação” com o assassinato. “Apenas tristeza por todos e qualquer um afetado pela violência armada e a esperança de que um dia seja o suficiente.” Ela disse depois à Reuters: “A única coisa que quero que as pessoas saibam é que minha mensagem era por preocupação com as crianças.”
Enquanto escolas que suspenderam ou demitiram educadores citaram “interrupções ao ambiente de aprendizado”, alguns empregadores privados apontaram violação de valores corporativos ou preocupações com segurança como motivo das demissões. Corporações envolvidas no revide deram explicações diversas. O CEO da Delta Air Lines, Ed Bastian, disse em comunicado que alguns comentários de funcionários estavam em “forte contraste” com os valores da empresa e violavam sua política de mídia social, enquanto a United Airlines afirmou ter “tolerância zero para violência motivada politicamente ou qualquer tentativa de justificá-la.”
A retaliação silenciou muitas vozes. Dezenas de pessoas que postaram comentários anti-Kirk desde então apagaram ou trancaram suas contas, constatou a Reuters. Outros disseram em entrevistas que estão reagindo.
Pelo menos 19 processos foram movidos contra empregadores que puniram críticos de Kirk, segundo registros de tribunais estaduais e federais. Pelo menos dois autores tiveram sucesso, incluindo um acadêmico em Dakota do Sul que recuperou seu cargo de professor.
Karen Leader, professora associada da Florida Atlantic University (FAU), recorreu às redes sociais após a morte de Kirk para protestar contra a narrativa de que ele “era uma inspiração brilhante para os jovens e uma figura não controversa que só queria ter um diálogo aberto e civil”, disse ela. “Qualquer pessoa que esteja no ensino superior sabe que não é tão simples.”
Ela observou que a Turning Point ganhou destaque através do seu Professor Watchlist, um site que incentivava estudantes a denunciar professores por supostamente manterem “visões radicais de esquerda” ou serem “apoiadores do terrorismo.”
Kirk havia descrito a Watchlist como uma ferramenta de conscientização, não uma lista negra. Aqueles que nela constavam disseram em entrevistas, postagens nas redes sociais e debates públicos que ela promoveu assédio e intimidação. Em 2023, um repórter da Turning Point foi acusado de agredir um professor do Arizona que estava na lista, depois de confrontá-lo diante das câmeras sobre sua sexualidade e empurrá-lo no chão. O repórter admitiu assédio, agressão e conduta desordeira e foi obrigado a concluir um programa de desvio penal. Um cinegrafista da Turning Point admitiu assédio no mesmo caso.
Em 10 de setembro, Leader começou a postar declarações passadas de Kirk no X. Ela disse ter cometido um erro ao acusar incorretamente Kirk de ter usado um insulto étnico, e então apagou a postagem. O restante, ela disse, eram declarações que defendia, incluindo uma destacando o argumento de Kirk de que os negros americanos eram “melhores” na época das leis Jim Crow (conjunto de leis que determinava a segregação racial e a discirminação, especialmente no sul dos EUA, até meados do século 20). “Nada daquilo era eu incentivando violência”, disse Leader. “Eu estava compartilhando evidências.”
Jordan Chamberlain, ex-assessor do governador da Flórida Ron DeSantis, compartilhou capturas de tela de várias postagens de Leader e marcou a universidade, perguntando se a instituição aprovava o conteúdo. O reitor da universidade anunciou que ela havia sido colocada em licença administrativa. Seu endereço e número de telefone apareceram online, e mensagens ameaçadoras vieram em seguida.
Em uma caixa postal de voz à qual a Reuters teve acesso, alguém dizia: “Estamos indo te buscar. Karen Leader, sabemos onde você trabalha. Vamos até sua casa assim que tivermos sua localização.” Leader disse que saiu poucas vezes de seu apartamento desde então.
Ela registrou as ameaças na polícia de Boca Raton, que encaminhou o caso aos policiais do campus, segundo um boletim de ocorrência. A polícia da FAU (Florida Atlantic University) disse que o boletim não poderia ser divulgado devido a uma investigação criminal em andamento.
A FAU confirmou que Leader estava entre três acadêmicos afastados enquanto aguardavam investigações. A universidade não comentou mais. Chamberlain também não respondeu aos pedidos.
“Se minha carreira acabou ou não, eu não sei”, disse Leader. “Mas minha vida mudou.”




