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Editorial Economist:Plano de Trump na Venezuela tem riscos – 05/01/2026 – Mundo

Durante meses, ele tentou dar a impressão de que não tinha nenhuma preocupação no mundo. Seu truque mais recente, na televisão estatal, foi cantar “Imagine” de John Lennon em seu inglês de nível básico. Ele queria “paz, não guerra”, prometeu. Afirmou que sua única conversa telefônica com o presidente Donald Trump, em novembro, foi “cordial”. Costumava dizer ao seu círculo íntimo que dormia “como um bebê”. Foi tudo um erro de cálculo monumental. Agora, após ser capturado por forças especiais americanas em Caracas, capital da Venezuela, durante uma extraordinária operação noturna no início de 3 de janeiro, ele pode nunca mais dormir no país que governou mal por mais de uma década. Ao final do dia, o ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, estava sendo conduzido como um criminoso pelos escritórios da Administração de Repressão às Drogas dos EUA em Nova York. As acusações pelas quais foi indiciado preveem pena entre 20 anos e prisão perpétua.

A queda de Maduro trouxe alegria a milhões de venezuelanos, particularmente emigrantes. Festas espontâneas nas ruas eclodiram de Santiago, no Chile, a Miami. Dentro do país, a cautela prevalece. Não está claro que a saída de Maduro anuncie o fim do regime. Em uma entrevista coletiva realizada em sua mansão na Flórida em 3 de janeiro, Trump minimizou a ideia de que María Corina Machado, a figura mais proeminente da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, deveria liderar o país. Em vez disso, afirmou, de forma bizarra, que ela “não tem o apoio ou o respeito dentro do país”. O nome de Edmundo González, que com o apoio dela realmente venceu a última eleição presidencial em 2024 (Machado foi impedida de concorrer), nem sequer foi mencionado.

Trump, em vez disso, prometeu que os Estados Unidos iriam “administrar” a Venezuela. Ele disse que Delcy Rodríguez, vice-presidente de Maduro, estava “essencialmente disposta a fazer o que achamos necessário para tornar a Venezuela grande novamente” e afirmou, incorretamente, que ela já havia sido empossada como presidente. Embora tenha prometido uma “transição” em algum momento, o que poderia abrir espaço para Machado, Trump parecia mais interessado em lucrar com o petróleo do país.

O plano de Trump, que era curto em detalhes e longo em otimismo, parece ser liberar o capitalismo americano sobre as reservas de petróleo venezuelanas com a ajuda de um novo governo venezuelano complacente. Ele disse que as companhias petrolíferas investiriam “bilhões e bilhões” de dólares para rejuvenescer os campos petrolíferos da Venezuela, e que o país seria reconstruído com base nas receitas resultantes, eventualmente levando a eleições. Isso depende da colaboração de Rodríguez. Trump parecia pensar que isso estava garantido. “Acho que ela foi bastante gentil, mas ela realmente não tem escolha”, disse ele, ameaçando repetidamente mais ataques caso seus desejos fossem ignorados.

Mas não foi assim que Rodríguez, que se apresenta como uma ideóloga de esquerda, resumiu os eventos do dia. Aparecendo na televisão estatal logo após as declarações de Trump, ela disse que Maduro continuava sendo o único presidente do país, apesar de sua captura. “Nunca seremos a colônia de nenhum império”, disse ela. “O que está sendo feito à Venezuela é bárbaro.” A administração Trump pareceu ignorar esses comentários, tratando-os como sinalizações domésticas necessárias para manter o regime alinhado.

Rodríguez, que atua como vice-presidente e ministra do petróleo, é vista como economicamente alfabetizada em comparação com a maioria do regime. Parcialmente educada na França, ela ajudou a orientar reformas pró-mercado e uma dolarização informal da economia em 2019, o que trouxe alguma estabilidade. Seu irmão é o chefe da submissa assembleia nacional. O pai deles era um revolucionário de esquerda que foi torturado e provavelmente assassinado pelas forças de segurança do estado venezuelano em 1976. Nos círculos empresariais de Caracas, ela é vista como pragmática, embora tanto ela quanto seu irmão também sejam às vezes descritos como estando em uma “viagem de vingança” contra a antiga elite do país, incluindo Machado.

Mesmo que suas declarações televisionadas sejam encenação, e ela realmente esteja trabalhando com Trump em privado, ela enfrenta o desafio imediato de garantir que outras figuras poderosas a apoiem. No início de 3 de janeiro, o ministro do Interior e homem forte mercurial, Diosdado Cabello, pediu calma e declarou que “aprendemos a sobreviver a todas essas circunstâncias”. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino, prometeu que as forças da Venezuela iriam “resistir” ao ataque americano.

A maior questão é se o exército venezuelano apoiará Rodríguez e, portanto, o aparente plano de Trump. Ele cedeu diante do poderio militar americano e provavelmente teme desafiar Trump. Muitos generais lucraram enormemente com o tráfico de drogas e a corrupção sob o regime. Se Rodríguez oferecer uma chance de embolsar mais dinheiro, ou pelo menos manter o saque que já têm, eles podem se alinhar. Até agora, a cúpula do exército disse pouco publicamente.

No entanto, há o risco de que o exército se divida. Algumas facções podem apoiar Rodríguez; outras podem querer o poder para si mesmas ou para Padrino; algumas, talvez se unindo a soldados dissidentes que já fugiram para países vizinhos, poderiam pressionar pelo retorno de Machado. Um exército fragmentado aumentaria a perigosa mistura de homens armados na Venezuela e poderia desestabilizar o regime. Na manhã seguinte à incursão dos americanos, alguns coletivos, gangues armadas pró-regime, foram vistos patrulhando as ruas de Caracas. O Exército de Libertação Nacional, um grupo rebelde colombiano, e gangues de drogas como o Trem de Aragua também operam na Venezuela. Trump parece acreditar que a ameaça de mais ataques pode manter todos esses vários atores sob controle. Mas se um conflito eclodir, pode exigir soldados americanos em solo venezuelano para restaurar a ordem. Trump disse que “não tinha medo” de enviar tropas.

Machado se encontra marginalizada no exato momento em que seu sonho de uma Venezuela sem Maduro se realiza. Ela certamente pressionará a administração Trump para mudar de rumo, embora meses de bajulação a Trump não a tenham levado a lugar algum até agora. Na falta disso, talvez ela tente incentivar manifestações na Venezuela a favor de uma transição rápida.

Mas organizar um levante popular seria difícil. O país está cansado após décadas de opressão e queda de renda. Cerca de 8 milhões de pessoas emigraram desde 2015, deixando relativamente poucos em idade de protestar. A repressão após o roubo das eleições em 2024, quando Maduro se gabou de ter prendido milhares, deixou a maioria com muito medo de manifestar sua infelicidade. Após as incursões americanas, os venezuelanos estavam mais focados em sobreviver do que em protestar.

O regime também tem seus desafios existenciais. Os aliados da Venezuela ofereceram pouco apoio. Os oficiais de inteligência cubanos, que há muito trabalham para proteger Maduro e expurgar o exército de dissidentes, não conseguiram proteger seu cliente. Autoridades em Havana, que dependem do petróleo venezuelano, agora provavelmente apoiarão qualquer figura do regime que o substitua. Mas Cuba é um aliado dramaticamente enfraquecido, agora enfrentando sua própria luta pela sobrevivência. Trump está prometendo cortar seu suprimento de petróleo e está ameaçando ação direta contra a própria ilha. As relações com Rodríguez parecem tensas. “Ela está irritada com os cubanos”, diz um diplomata ocidental em Caracas, que sugeriu que as autoridades cubanas eram ingratas por todo o petróleo barato. A China, principal compradora do petróleo venezuelano, e a Rússia, que repetidamente forneceu armamentos, há muito ajudam Maduro. Ambos condenaram fortemente a incursão, mas não disseram nada que sugerisse qualquer apoio prático iminente.

Maduro nunca teve muitos amigos na região. Os líderes de esquerda do Brasil, Colômbia e México tendiam a ser os mais indulgentes com ele. Esses laços agora parecem fracos também. Os três governos reagiram com indignação ao ataque americano e condenaram a violação da soberania. Mas é improvável que algum deles apoie qualquer resistência contra os Estados Unidos. Em vez disso, seu interesse é mais restrito: eles se preocupam com o caos e os refugiados venezuelanos se espalhando pela região. México e Colômbia também temem ataques americanos em seu próprio território. Em sua entrevista coletiva, Trump ameaçou o México e disse ao presidente Gustavo Petro da Colômbia para “cuidar do seu traseiro”.

Com poucos apoiadores estrangeiros, apoio incerto do exército e enfrentando ameaças de Trump, Rodríguez pode muito bem ter escolhido, ou logo escolherá, fazer um acordo. O regime para o qual ela trabalha é curiosamente duradouro e adaptável. Ele sobreviveu à morte de Hugo Chávez, seu líder original. Agora, um pacto com seu suposto inimigo poderia dar-lhe outra chance de sobreviver.

Texto do The Economist, traduzido por Ana Paula Branco, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com

Fonte: Folha de São Paulo

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