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HomeMundoDoutrina Donroe expõe seus problemas na Venezuela - 06/01/2026 - Mundo

Doutrina Donroe expõe seus problemas na Venezuela – 06/01/2026 – Mundo

“A Doutrina Monroe é um grande negócio, mas nós a superamos muito, realmente muito. Agora eles a chamam de ‘Doutrina Donroe’.” Assim disse Donald Trump, algumas horas depois que as forças americanas derrubaram Nicolás Maduro na Venezuela.

A operação venezuelana é uma demonstração dramática da determinação do governo Trump em estabelecer a hegemonia americana no hemisfério ocidental. Essa ideia foi central para a estratégia de segurança nacional dos EUA publicada no mês passado. O evidente deleite do presidente dos EUA com o sucesso inicial da operação venezuelana sugere que ele pode desenvolver um gosto por intervenções no “quintal” americano, definido de forma expansiva.

Mas as implicações da mudança de regime na Venezuela são verdadeiramente globais. A proclamação de uma Doutrina Donroe —combinada com os movimentos de Trump em direção à reaproximação com Rússia e China— sugere que ele esteja atraído por uma ordem mundial organizada em torno de esferas de influência das grandes potências.

Tanto a Rússia quanto a China condenaram a destituição de Maduro. Mas Xi Jinping sacrificaria alegremente a influência chinesa na Venezuela se isso significasse que Pequim teria mão livre sobre Taiwan. A Rússia faria o mesmo acordo em relação à Ucrânia. Em 2019, Fiona Hill, parte do primeiro governo Trump, disse ao Congresso que o governo russo estava “sinalizando muito fortemente que queria de alguma forma fazer um acordo de troca muito estranho entre Venezuela e Ucrânia”.

Por enquanto, no entanto, o foco estará em se e como os EUA podem “administrar” a Venezuela — como Trump prometeu. No interesse de estabelecer estabilidade — e obter acesso rápido às vastas reservas de petróleo do país—, o governo Trump está claramente indicando que pretende fazer um acordo com os remanescentes do regime Maduro em vez de apoiar a oposição democrática no exílio.

O sucesso ou fracasso dessa estratégia pode então ditar quão ambiciosos os EUA serão ao impor sua força no resto do hemisfério ocidental. Uma lista potencial de alvos já está emergindo. Em comentários feitos após a captura de Maduro, Trump emitiu advertências veladas à Colômbia e ao México. Ele disse que o presidente colombiano Gustavo Petro está “produzindo cocaína…e então ele precisa tomar cuidado”.

Ele elogiou Claudia Sheinbaum, a presidente do México, mas disse que os cartéis de drogas estão “controlando o México”. Há muito tempo existe debate nos círculos trumpistas sobre se os EUA deveriam usar força contra os cartéis mexicanos, dentro do próprio México. Até agora, a cautela prevaleceu. Mas a emoção de derrubar Maduro pode mudar o cálculo de Trump.

O regime comunista em Cuba —que foi alvo de várias tentativas americanas fracassadas de derrubá-lo nos anos 1960— também está de volta na mira de Washington. Marco Rubio, o secretário de Estado dos EUA, cujos pais deixaram Cuba pelos EUA, já colocou Havana em alerta, dizendo que o regime é um “enorme problema” e acrescentando de forma ominosa: “Acho que eles estão em grandes apuros… Não vou falar sobre quais serão nossos próximos passos.” A queda de Maduro certamente causará problemas para os cubanos, que passaram a depender do petróleo e dos subsídios venezuelanos.

E então há a Groenlândia. Trump acabou de reenfatizar seu desejo de assumir a ilha — que é uma parte autônoma da Dinamarca. Pouco depois da operação venezuelana, Katie Miller, esposa de Stephen Miller, chefe de gabinete adjunto de Trump, postou um mapa da Groenlândia coberto pela bandeira americana — e a palavra “SOON” (em breve) acima dele.

Anexar parte do território de um aliado da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) seria um passo muito mais radical do que derrubar um líder autoritário latino-americano. Mas o governo Trump tem preparado o terreno retórico para uma ação na Groenlândia há algum tempo —acusando os dinamarqueses de terem fracassado lá. Dado o desprezo aberto do governo por seus aliados europeus, um esforço americano de anexação não pode ser descartado.

Tudo isso será observado com fascínio em Pequim e Moscou. Um mundo em que Estados poderosos e governantes autoritários podem fazer mais ou menos o que quiserem em suas vizinhanças imediatas seria muito conveniente para a Rússia e a China. O próprio Trump pode acreditar que dividir o mundo em esferas de influência informais poderia ser um caminho para a “estabilidade estratégica” com a Rússia e a China que a recente estratégia de segurança nacional dos EUA estabeleceu como prioridade.

A ideia de que esferas de influência para grandes potências criam estabilidade pode parecer superficialmente plausível. Mas ignora as visões e interesses de países menores que são considerados insignificantes demais para decidir seus próprios destinos. E esses países têm autonomia —e às vezes podem lutar, como a Ucrânia demonstrou.

Mesmo quando apenas os interesses das chamadas grandes potências são levados em consideração, esferas de influência têm tanta probabilidade de criar atrito quanto estabilidade. Isso porque um país como os EUA continuará a ter interesses globais. A China, por exemplo, considera Taiwan como parte de seu território e um interesse nacional central. Mas os EUA acreditam que sua própria segurança nacional seria prejudicada se a indústria de semicondutores taiwanesa caísse nas mãos da China —ou se Pequim controlasse o transporte marítimo que passa pelo mar do Sul da China.

Trocar a dominação americana do hemisfério ocidental pela dominação chinesa do leste asiático seria o negócio do século. Para a China.

Fonte: Folha de São Paulo

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