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Como ataque ao Irã pode afetar mercado global de petróleo – 28/02/2026 – Economia

O Irã ainda tem uma capacidade desproporcional de abalar os mercados globais de energia.

Uma alta de US$ 10 (R$ 51) no preço do barril de petróleo desde o início do ano é uma mostra de como os operadores desse mercado levam a sério qualquer ameaça envolvendo o país —ainda que anos de sanções americanas tenham reduzido significativamente a participação das exportações iranianas na oferta mundial.

A principal fonte de preocupação dos mercados é a influência do Irã sobre o tráfego marítimo no estreito de Hormuz, por onde passam o petróleo e o gás de seus vizinhos do Golfo, e o seu apoio a milícias em toda a região, que poderiam atacar infraestruturas de energia.

No ano passado, cada alta no preço do petróleo durante a breve guerra entre Irã, Israel e os EUA foi seguida de uma queda, já que os operadores apostavam que havia poucas chances de uma mudança de regime em Teerã ou de uma instabilidade mais ampla.

Mas esse cálculo mudou. Cresce o temor de que, com os ataques deste sábado (28), os EUA busquem a derrubada do regime iraniano —um cenário que aumenta o risco de o conflito se alastrar pelo Oriente Médio e causar perturbações significativas nesse mercado.

QUAL É A IMPORTÂNCIA DO IRÃ PARA O ABASTECIMENTO GLOBAL DE ENERGIA?

O Irã possui as quartas maiores reservas provadas de petróleo bruto do mundo, mas anos de sanções e falta de investimentos limitaram suas exportações.

O país produziu 3,45 milhões de barris por dia (bpd) em janeiro, segundo a Agência Internacional de Energia —menos de 3% da oferta global no período.

Quase toda a sua produção vai para a China, principalmente para refinarias independentes na província de Shandong, dispostas a comprar petróleo sancionado com grandes descontos. O petróleo iraniano respondeu por cerca de 13% das importações marítimas de petróleo da China no ano passado, segundo a Kpler, empresa de dados do setor energético.

Durante o conflito do ano passado, Israel atacou depósitos de combustível do Irã, mas evitou outras infraestruturas energéticas. Por causa de seu litoral raso, Teerã tem uma vulnerabilidade crítica: quase todo o seu petróleo é exportado por um único terminal, a Ilha Kharg, a cerca de 25 quilômetros da costa, em águas mais profundas. Nos últimos dias, o terminal acelerou suas exportações e esvaziou seus estoques de petróleo bruto.

Porém, a perda dos barris iranianos, por si só, não abalaria o mercado. Como a oferta global está prevista para superar a demanda no primeiro semestre deste ano, o impacto deve ser limitado.

“No contexto atual, os mercados conseguiriam absorver o choque se o petróleo desaparecesse amanhã”, afirmou Richard Nephew, ex-vice-enviado especial dos EUA para o Irã, hoje no Centro de Política Global de Energia da Universidade Columbia.

Teerã não teria interesse em interromper o fluxo de petróleo bruto, exceto nas circunstâncias mais extremas, disse Dan Marks, pesquisador de segurança energética no Royal United Services Institute.

“O regime está por um fio, e se você adicionasse uma cessação das exportações de petróleo, seria um golpe enorme.”

O Irã também exporta gás natural para países vizinhos, como Turquia e Iraque, mas esses fluxos são frequentemente interrompidos. O fornecimento ao Iraque foi suspenso recentemente por problemas que Teerã descreveu como técnicos, enquanto o comércio de gás com o Turcomenistão tem sido irregular por disputas sobre contas não pagas.

COMO O IRÃ PODERIA PERTURBAR OS FLUXOS GLOBAIS DE ENERGIA?

Cerca de 21 milhões de barris de petróleo do Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos passam diariamente pelo estreito de Hormuz. O Irã ameaçou repetidamente fechar o estreito.

Helima Croft, analista do RBC Capital Markets, disse que, se Teerã sentisse que os EUA estão de fato determinados a promover uma mudança de regime, a resposta poderia ser dramática. “Acreditamos que há um risco significativo de que a segunda rodada entre Teerã e Washington seja mais ampla e mais disruptiva do que a guerra de 12 dias ocorrida em junho passado”, afirmou.

Ela acrescentou que, em uma visita recente ao Oriente Médio, “vários observadores bem-informados alertaram que o Irã provavelmente tentaria atingir instalações energéticas e outros ativos econômicos estratégicos para forçar Washington a recuar”.

Nephew completou: “O raciocínio deles seria: ‘Se não nos permitem ter um sistema energético, vocês também não terão.'”

No entanto, Marks afirmou que Teerã tem poucas boas opções. “Se a economia estivesse saudável e o regime fosse forte, poderia interromper exportações ou fechar o estreito de Hormuz. Bastaria dizer que minou o canal, ou lançar alguns mísseis, e a navegação pararia. Ninguém quer ver sua tripulação morta”, disse ele.

“Mas qual seria o desfecho? O mundo poderia aguentar uma crise por algumas semanas, mas haveria mais ação militar, os vizinhos ficariam insatisfeitos, a moeda despencaria e o país arriscaria uma hiperinflação.”

Teerã também pode acionar uma rede de milícias em todo o Oriente Médio para perturbar a produção, exportação ou transporte de petróleo.

O QUE ACONTECERÁ COM OS PREÇOS DO PETRÓLEO?

Os operadores permanecem relativamente tranquilos quanto ao impacto de longo prazo do confronto, apontando para a abundância de fontes alternativas de fornecimento e a incerteza sobre a escala e duração de qualquer conflito.

A produção iraniana poderia ser compensada por um aumento da produção saudita ou pelo uso de estoques armazenados em caso de interrupção breve, disse Giovanni Staunovo, do banco UBS.

Os membros da Opep devem se reunir neste domingo (1º) para discutir sua produção de abril. Analistas esperam que a organização aumente a produção em 137 mil bpd, mas uma pessoa próxima à situação sugeriu que o grupo poderia ampliar esse volume em três ou quatro vezes para acalmar os mercados.

Enquanto isso, um operador sênior disse que o setor se acostumou a reorganizar os fluxos de energia e já havia se preparado para possíveis perturbações no Golfo.

O petróleo Brent subiu até 3% nesta sexta-feira (27), atingindo US$ 73 por barril, a máxima em sete meses, e acumula alta de quase 12% no último mês, à medida que cresceram as expectativas de conflito.

David Fyfe, economista-chefe da Argus, destacou os efeitos colaterais para as refinarias chinesas, que se beneficiaram do petróleo barato proveniente de Rússia, Venezuela e Irã. Qualquer escassez de oferta as empurraria para grades do Oriente Médio mais caras, comprimindo suas margens.

Essa pressão poderia se tornar uma moeda de troca política entre Washington e Pequim. “Trump mira diretamente em Pequim”, disse Fyfe. “A grande questão é se ele levará isso adiante.”

QUAL É A IMPORTÂNCIA DO PETRÓLEO PARA A ECONOMIA IRANIANA?

Os líderes iranianos há muito insistem que o país precisa se desvincular do petróleo. O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, criticou repetidamente o estado deteriorado do setor e alertou que a dependência do petróleo deixa o Irã vulnerável a pressões externas.

“Administrar nosso país com receitas do petróleo nos deixa à mercê dos grandes formuladores de políticas do mundo”, disse ele em 2014, pedindo diversificação para “ficar imunes à influência das potências”.

Mas o país permanece “esmagadoramente dependente” das receitas do petróleo, disse Nephew. “Eles têm algumas pequenas atividades aqui e ali, mas isso é tudo — a principal indústria exportadora depois de todos esses anos. A falta de investimento e as sanções tornaram impossível desenvolver qualquer outra coisa.”

Fonte: Folha de São Paulo

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