A inteligência dos EUA traçou um quadro sombrio da situação econômica e política de Cuba, mas suas avaliações não oferecem apoio claro à previsão do presidente Donald Trump de que a ação militar do último fim de semana na vizinha Venezuela deixa a ilha “pronta para cair”, disseram três pessoas familiarizadas com as informações confidenciais.
A visão da CIA é que setores-chave da economia cubana, como agricultura e turismo, estão severamente pressionados por frequentes apagões, sanções comerciais e outros problemas. A potencial perda de importações de petróleo e outro apoio da Venezuela, por décadas um aliado-chave, poderia tornar mais difícil governar para o regime que comanda Cuba desde que Fidel Castro liderou uma revolução em 1959.
Mas as avaliações mais recentes da CIA foram inconclusivas sobre se a economia em deterioração desestabilizaria o governo, disseram as pessoas familiarizadas com a inteligência, falando sob condição de anonimato para compartilhar informações sensíveis.
Essas avaliações chamam a atenção porque Trump e outros funcionários dos EUA sugeriram que cortar o petróleo venezuelano para a ilha após a operação em Caracas poderia derrubar o regime em Havana, um sonho antigo do secretário de Estado, Marco Rubio, e de alguns outros funcionários de alto escalão no governo Trump.
“Cuba parece estar pronta para cair“, disse Trump a repórteres no Air Force One no domingo passado (4). “Não sei se eles vão aguentar, mas Cuba agora não tem renda. Eles obtinham toda sua renda da Venezuela, do petróleo venezuelano.”
A Casa Branca, a CIA e o Ministério das Relações Exteriores de Cuba não responderam aos pedidos de comentário. A Reuters não pôde determinar se a CIA produziu uma avaliação atualizada desde que as forças dos EUA prenderam o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, no sábado passado.
A Venezuela é o principal fornecedor de petróleo de Cuba. Desde a captura de Maduro, os EUA pressionaram com sucesso a líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, para enviar essencialmente todo o petróleo da Venezuela para os EUA.
Dado o quadro precário da situação energética de Cuba mesmo quando o petróleo venezuelano fluía para a ilha, os impactos da mudança dos fluxos de petróleo de Caracas na economia cubana serão severos, dizem analistas independentes.
A economia comunista de Cuba tem apresentado desempenho fraco há décadas em meio ao rígido planejamento estatal e ao embargo dos EUA.
Mas uma confluência de fatores nos últimos anos — incluindo o declínio da economia venezuelana e uma queda no turismo após o surto de Covid-19— agravou a situação de Cuba.
As pessoas que falaram com a Reuters disseram que a CIA descreveu a economia de Cuba em termos muito ruins —embora suas descrições diferissem em grau. Um funcionário disse que a situação descrita nas avaliações não era tão ruim quanto o “Período Especial” dos anos 1990, um tempo de crise econômica prolongada após a retirada do apoio da União Soviética no final dos anos 1980 e início dos anos 1990.
Um dos funcionários, no entanto, disse que os apagões estavam durando em média 20 horas por dia fora de Havana, o que não havia ocorrido anteriormente.
Se o sofrimento econômico realmente levará à mudança de regime, trata-se de algo incerto —uma realidade reconhecida nas avaliações da CIA.
Dois funcionários disseram que o governo dos EUA avaliou que houve um colapso demográfico na ilha nos últimos anos, com grande número de pessoas com menos de 50 anos tendo emigrado de Cuba. Isso poderia enfraquecer o impulso por reforma política, que em outros países tende a ganhar energia dos jovens.
O censo de Cuba estimou a população em mais de 10 milhões em 2023, mas um dos funcionários disse que provavelmente agora está abaixo de 9 milhões.
Richard Feinberg, professor emérito da Universidade da Califórnia em San Diego que serviu em cargos de alta segurança nacional dos EUA por décadas, disse que as condições econômicas em Cuba estavam “certamente muito ruins”.
Ele observou que o dirigente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, que assumiu o cargo em 2021, não tem a legitimidade generalizada de que gozava o ditador Fidel Castro (1926-2016).
“Quando uma população está realmente faminta, o que acontece é que seu dia a dia é apenas de sobrevivência. Você não pensa em política, tudo em que pensa é em colocar pão na mesa para sua família”, disse Feinberg. “Por outro lado, as pessoas podem ficar tão desesperadas que perdem o medo e vão às ruas.”




