Na semana retrasada comentei aqui que a China estava prestes a realizar uma reunião que definiria o rumo do país (e, por consequência, do mundo) até o fim desta década. O encontro para avaliar propostas para o 15º Plano Quinquenal, que cobrirá o período de 2026 a 2030, aconteceu, e é chegado o momento de compartilhar um pouco dos principais novos conceitos introduzidos e como eles mudam a percepção sobre Pequim.
Divulgado pela Xinhua, o documento é um manual de poder, no qual a modernização tecnológica, a segurança nacional e a projeção internacional se combinam numa mesma arquitetura. Em vez de acelerar o crescimento, a China agora quer redesenhar as bases do seu desenvolvimento e da sua autoridade.
O eixo dessa virada é o conceito de “novas forças produtivas de alta qualidade”, que substitui a obsessão por metas de PIB pela ambição de dominar os elos estratégicos da economia global. Semicondutores, biotecnologia, robótica e inteligência artificial são definidos como pilares de soberania. A ideia é que inovação e poder caminhem juntos, reduzindo vulnerabilidades externas e consolidando o papel do Estado como catalisador do progresso.
Essa lógica se desdobra na Iniciativa China Digital, uma estratégia de integração entre dados, algoritmos e indústria que transforma informação em vantagem geopolítica. O plano prevê a criação de um mercado unificado de dados e a aplicação da inteligência artificial em todas as esferas da economia e da administração pública. Formuladores de políticas públicas chineses esperam que a digitalização funcione como um novo tipo de infraestrutura de comando, capaz de ampliar a capacidade de coordenação interna e de controle social.
A aposta tecnológica também vem acompanhada de revolução energética. Pequim pretende reduzir a dependência de combustíveis fósseis, expandir o uso de fontes limpas e dominar as cadeias produtivas verdes. Há numerosas menções no documento a projetos em energia de fusão, hidrogênio e 6G, buscando ocupar com antecedência o território das “indústrias do futuro” onde se definirá a hierarquia econômica e científica das próximas décadas.
Por trás dessa agenda está a própria redefinição do que significa segurança. O plano amplia o conceito para incluir ciberespaço, biologia, clima e inteligência artificial, apresentando o desenvolvimento e a proteção nacional como dimensões inseparáveis. A fusão entre política industrial, defesa e controle interno cria um modelo de segurança total que pode redefinir a forma de competição entre potências.
No plano externo, essa visão se projeta nas já conhecidas Iniciativas Globais de Xi Jinping (Desenvolvimento, Segurança, Civilização e Governança) que seguem tão vazias quanto antes, mas que, agora institucionalizadas, ambicionam levar o país para além de mero participante das instituições internacionais, moldando-as a partir de sua própria lógica de estabilidade e planejamento.
O conjunto dessas transformações aponta para um novo tipo de modernização, menos focada em ritmo de expansão e mais na capacidade de ditar padrões tecnológicos, ambientais e normativos.
O 15º Plano Quinquenal espera ser uma declaração de confiança de um regime que acredita ter alcançado maturidade para disputar não só mercados, mas o próprio sentido de progresso. Vislumbre de um futuro em que o poder global talvez não se decida em guerras nem em eleições, mas em protocolos, algoritmos e códigos.
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