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China busca mais investimento no financiamento climático – 07/11/2025 – Igor Patrick

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deu a largada nos trabalhos da COP nesta semana apostando em uma ideia inovadora para financiar a manutenção de florestas tropicais. Com a ambiciosa meta de angariar US$ 125 bilhões, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF na sigla em inglês) foi aplaudido por muitos, mas ainda financiado por poucos.

E entre as notáveis ausências, Pequim tem se destacado nas análises de quem não costuma acompanhar como o país se comporta em relação às negociações climáticas e que, portanto, não sabe como ler a postura dos negociadores chineses.

Líder global nas emissões de carbono em números gerais (mas não em emissão per capita), o país tem consistentemente evitado assumir compromissos formais em mecanismos multilaterais para financiamento da transição climática. Pequim insiste no princípio da responsabilidade comum, porém diferenciada, sustentando que por ser um país em desenvolvimento, não deve ser obrigada a contribuir para fundos da ONU.

Na COP do ano passado, por exemplo, os chineses se opuseram fortemente às pressões da União Europeia para se juntarem ao acordo do Novo Objetivo Coletivo Quantificado, que pretende levantar US$ 300 bilhões até 2035 para países em desenvolvimento. Pequim, ao contrário, sustentou que sua inclusão no mecanismo diluiria a responsabilidade histórica de nações desenvolvidas com as questões climáticas.

Isso, contudo, não significa que tenham cruzado os braços e ignorado a questão. Ao contrário, a posição em fóruns multilaterais é bastante coesa com sua estratégia de preservar o discurso de solidariedade ao Sul Global, ao passo em que desenha seus próprios termos e modelos de financiamento por meio de bancos, de política e da Iniciativa Cinturão e Rota.

Essa lógica é sustentada por uma máquina doméstica de crédito verde sem paralelo no mundo todo. O Banco Popular da China, por exemplo, injeta liquidez em projetos de baixo carbono e subsidia juros, o que permite às empresas chinesas oferecer energia solar, baterias e veículos elétricos a preços que poucos competidores podem igualar.

A política industrial interna e a diplomacia climática externa formam um único ecossistema. Na prática, Pequim prefere atuar com empréstimos que com doações —96% do financiamento bilateral chinês segue desta forma.

É importante, contudo, reconhecer o ineditismo da iniciativa brasileira. O fundo foge da lógica assistencialista e tenta transformar a floresta em pé em um ativo financeiro permanente, capaz de remunerar países tropicais pela conservação. Não se trata, portanto, de doação, mas sim de um investimento gerido com a expertise do Banco Mundial.

É por isso que, a despeito das sucessivas negativas de transferência direta, a China desta vez elogia o projeto e estuda formas de contribuir, sem fechar um número. Como corretamente apontou Fernando Haddad em entrevista coletiva com jornalistas na quinta-feira (6), para nações sem o histórico e a experiência de financiamento verde de uma Noruega —até agora o maior investimento confirmado no TFFF—, entender o mecanismo vai levar tempo.

Não espere, portanto, que Ding Xuexiang, o vice-primeiro-ministro da China, assine um cheque em Belém. Mas há moderadas razões para o otimismo de que o faça em um futuro próximo (o entorno de Lula cita esperança de que algo seja consolidado quando o presidente viajar à África do Sul para a cúpula do G20 no fim do mês).

Pequim ainda avalia o terreno. Quando o fizer, será movida menos por apelo ambiental e mais por cálculo de influência. É que, no caso chinês, o aplauso vem antes do dinheiro.


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Fonte: Folha de São Paulo

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