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Cecot: Mãe vê vídeos de youtubers para achar filho preso – 20/01/2026 – Mundo

Do quintal de sua casa, na periferia de San Salvador, María Zelaya, 58, acaricia um porta-retrato que reúne fotos de seus filhos. Dos três, apenas a caçula ainda está com ela —o mais velho foi assassinado em 2015, e o do meio está preso desde 2022.

María não passou ilesa a nenhuma das tragédias recentes de El Salvador, que figurou entre os países mais violentos do mundo antes de um estado de exceção, em vigor desde 2022, levar milhares de inocentes à prisão, segundo organizações de direitos humanos.

Um deles é seu filho. María conta que Javier Arturo, 38, foi transferido para o Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), na metade de 2023, alguns meses após a inauguração desse presídio que se tornou um símbolo da política linha-dura de Nayib Bukele.

Desde então, María tornou-se uma improvável espectadora dos influenciadores digitais que fazem do Cecot cenário de vídeos gravados em tours do governo. O que a move não é a curiosidade sobre “a maior prisão do mundo”, em que “estão os mais perversos”, como a instalação é descrita nas redes sociais.

Ela tenta encontrar seu filho entre os milhares de homens atrás das grades com cabelos raspados e roupas brancas.

“Eles são maltratados?”, pergunta María à Folha ao saber que esta repórter havia entrado no Cecot horas antes, naquele 15 de dezembro. A reportagem descreve, sem entrar em detalhes, o que observou no presídio. Lá os detentos ficam em celas com dezenas de homens por 23 horas e 30 minutos do dia, sem direito a qualquer banho de sol e com as luzes acesas de forma permanente.

“Meu filho não é membro de gangue”, diz María. “É um homem bom. Os vizinhos podem confirmar”, insiste, quase sussurrando. Estar preso no complexo é um estigma até mesmo em San Ramón, em San Salvador. A região em que ela mora tem o perfil das áreas mais afetadas, em todos os aspectos, pelo regime de exceção.

Antes da medida autoritária, grande parte de El Salvador era controlada por grupos criminosos que lucravam com a extorsão de moradores —o governo, afeito a hipérboles, fala em mais de 80% do território nas mãos das gangues. Fato é que até mesmo o centro da capital ficava sob o jugo dos grupos, que tinham mais presença, porém, nas bordas das cidades.

A violência era parte do cotidiano. Em 2015, a taxa de homicídios chegou a um pico de mais de 105 mortes por 100 mil habitantes —mais que o triplo do índice no Brasil na mesma época. Foi naquele ano que o filho mais velho de María foi assassinado a tiros por criminosos, segundo ela.

“Eram 17h de um sábado”, lembra. Ela conta que o filho estava ameaçado, mas diz saber pouco da história. “Não me falavam nada, porque tinham medo de eu adoecer.”

Se antes era comum encontrar alguém que havia perdido um conhecido para a violência, atualmente é fácil se deparar com uma pessoa que tenta libertar um parente preso.

Arturo, seu filho do meio, foi levado pela polícia em 27 de março de 2022, dia em que a Assembleia, dominada pelo partido de Bukele, aprovou o estado de exceção para combater uma onda de violência que as evidências indicam ser fruto de um colapso no acordo entre o governo e as gangues salvadorenhas.

“Olha, mãe, tenha cuidado, porque eles estão matando muita gente”, teria dito Arturo à sua mãe pouco antes de ser preso, segundo ela mesma.

“Ele estava no quarto com a esposa e a filha de sete meses. Hoje ela tem 4 anos”, diz María. “Vê-la é como ver o meu filho, porque ela é a cara dele.”

A acusação teria mudado mais de uma vez. Primeiro, a suspeita era de que ele teria roubado uma moto. “Depois, disseram que era por causa de um celular, mas nós tínhamos comprado, era um celular simples. Aí falaram em associação criminosa”, afirma. “Falaram também que iam levá-lo, mas que ele voltaria.”

O regime de exceção, desenhado para “casos de guerra, invasão de território, rebelião, sedição e catástrofe”, segundo a Constituição de El Salvador, suspende diversos direitos fundamentais, incluindo o de ser informado “imediata e claramente” sobre os motivos de uma detenção.

Desde então, María nunca mais viu seu filho —visitas de familiares e advogados a centros de detenção sofrem restrições no país desde 2016. Naquele ano, estava no poder o esquerdista Salvador Sánchez Cerén, o que revela como a política linha-dura atravessa os espectros políticos no país. Nada se compara, no entanto, ao que fez Bukele, amparado por um controle quase absoluto do Estado.

Questionado sobre as denúncias de prisões indevidas, o ministro de Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, afirmou à Folha que o governo tem compromisso com a justiça.

“Existe um sistema penal perfeito em algum lugar do mundo? Não”, diz o político. “Imagine se eu só prendesse pessoas culpadas. Qual seria o sentido de ter promotores? Qual seria o sentido de ter juízes? Qual seria o sentido de ter advogados de defesa? Se a pessoa presa pela polícia é a única que fica presa, ponto final.”

A detenção de Arturo é representativa do que ocorreu no início do estado de exceção, quando a polícia chegou a prender cerca de mil pessoas por dia, segundo afirmam, orgulhosas, as autoridades locais.

Houve relatos de inocentes detidos por denúncias falsas de desafetos e capturas de ex-presos que já tinham cumprido suas penas. O filho de María foi detido em 2014, mas saiu pouco mais de um ano depois, segundo ela. “Eles investigaram tudo e descobriram que era inocente”, diz.

Como vários outros casos, segundo organizações de direitos humanos, o de Arturo caiu em um limbo. “Só fizeram uma audiência inicial com meu filho. Como não fizeram outra? Ele não está condenado”, afirma.

Segundo disseram a ela, Arturo ficou um ano no Centro Penal de Izalco, no noroeste de El Salvador, antes de ser transferido ao Cecot, em 2023. “Quando me falaram isso, fiquei desesperada. ‘Por quê?’, perguntei. Disseram que Izalco estava lotado. Mas por que meu filho, se dizem que só levam membros de gangue condenados para lá?”, questiona.

Atualmente, sua rotina é a de milhares de salvadorenhos que tentam libertar seus familiares: um périplo pelos órgãos do governo munida de uma pasta de documentos.

“Os empregadores dele me deram cartas declarando sua inocência, falando que ele era um bom funcionário. Eu tenho todos os documentos que levei à Defensoria”, afirma, mostrando os papéis. “É preciso esperar a revogação do regime de exceção. Antes disso, ele não vai sair.”

Diante da ausência de solução, María diz ter buscado um advogado particular recomendado por um vizinho. “Foi um ato de desespero após um ano da prisão. Eu lhe dava US$ 100 por mês”, diz ela, que fez uma dívida de US$ 500 (R$ 2.689) para pagar o profissional, sem sucesso.

Desde então, María trabalha para pagar o que deve, ajudar a filha e o neto, comprar remédios para diabetes e hipertensão e enviar ajuda para seu filho na prisão —ela compra alimentos e itens de higiene todo mês e um saco de roupas a cada três meses. Os gastos somam US$ 35 (R$ 188) para o primeiro pacote e US$ 50 (R$ 269) para o segundo.

Ela deixa os produtos na prisão de Zacatecoluca, a 60 km de San Salvador e a 10 km do Cecot. Dali, disseram a ela, os produtos são levados ao complexo. Durante a visita da reportagem ao presídio, porém, autoridades carcerárias afirmaram que os presos não carregam nada com eles, somente seus uniformes.

Questionada sobre o que faz para arcar com esses gastos, María aponta um corredor à sua frente. “Esse monte de sacos que estão aí”, diz. Todos os dias, acorda às 3h e começa a se preparar para vender seus pães, normalmente no centro da capital.

A mãe de Arturo representa a maioria das pessoas que tentam libertar seus parentes: mulheres idosas em busca de seus filhos. Um protesto contra o estado de exceção organizado pelo Movir, o Movimento de Vítimas do Regime, a 2 km do centro histórico de San Salvador, reuniu cerca de 40 pessoas dois dias após a entrevista com María. Apenas quatro manifestantes eram homens.

“O próprio presidente fala que El Salvador é o país mais seguro do mundo. Por que seguir com um regime de exceção que faz parecer que é um país em permanente guerra?”, afirma Samuel Ramírez, dirigente do movimento. A entidade, à qual María recorreu, diz defender apenas pessoas inocentes.

Alfredo Mejía, coordenador do Movir ao lado de Ramírez, chegou a se exilar por quase um ano na Costa Rica após denunciar assédio de autoridades. Dezenas de pessoas já fugiram do país pelos mesmos motivos, incluindo 43 jornalistas só no ano passado, segundo a associação da categoria.

María se divide entre denunciar a prisão de Arturo e manter a discrição para evitar problemas. “Não me envolvo muito, porque me dá medo. Tenho minha outra filha”, diz.

Fonte: Folha de São Paulo

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