Entoando o mantra da segurança, os Estados Unidos iniciaram neste sábado (28) uma nova campanha militar contra o Irã. Israel se juntou à ofensiva americana usando a mesma justificativa: segurança —o termo, em hebraico, é “bitachon”. Para se prevenir, dizem, decidiram atacar Teerã.
Nos últimos anos, Washington e Tel Aviv têm utilizado essa retórica para bombardear seus inimigos. É a doutrina da paz pela força que Donald Trump adotou neste segundo mandato, sugerindo que a coerção e os ataques preventivos podem estabilizar o mundo.
Isso não vai acontecer. Segurança e paz, afinal, não são os nomes dos mísseis que cruzam os céus.
Nas primeiras horas da guerra, o Irã —que tem um robusto aparato militar— revidou contra Israel e bases americanas em diversos países do Golfo. Os aiatolás podem também mobilizar suas milícias na Faixa de Gaza (Hamas), no Líbano (Hezbollah) e no Iêmen (houthis). Temendo o fim do regime islâmico imposto em 1979, devem responder com toda a sua fúria.
Pode ser que a aposta de Trump funcione e o regime iraniano caia. Isso não significa, porém, que EUA e Israel vão conseguir reconstruir o país como bem entenderem. A ideologia e as instituições da revolução de 1979 permeiam a sociedade, e a oposição não tem um nome factível. É muito otimismo pensar que uma figura como Reza Pahlavi, herdeiro do xá, pode ser capaz de reunificar e pacificar um Irã pós-guerra.
Um dos pontos centrais da narrativa americana tem sido a questão nuclear. Há muitos anos se fala na possibilidade, que sempre é apresentada como imediata, de o Irã construir uma bomba atômica. A acusação tem base. O mundo vinha procurando resolver essa ameaça por meio da diplomacia. A ideia era convencer o Irã a abandonar seu programa nuclear em troca de remover as sanções econômicas que estrangulam sua economia.
O ataque americano, no entanto, pode convencer o regime —este ou o próximo— de que a única maneira de se proteger de seus rivais é, sim, ter uma bomba nuclear. O outro risco é remover o controle centralizado do programa nuclear, espalhando equipamentos e cientistas pela região. O mundo viveu esse mesmo cenário no início dos anos 1990, com o colapso da União Soviética e o temor quanto ao futuro de seu arsenal.
A retórica da segurança, ademais, não leva em conta a segurança de quem está sob bombardeio. É o caso claro das campanhas militares israelenses dos últimos anos. Para responder ao ataque terrorista do Hamas, que matou mais de 1.200 pessoas em 7 de outubro de 2023, Tel Aviv sustentou dois anos de guerra em Gaza, deixando mais de 70 mil mortos. Um relatório independente da ONU, assim como alguns governos, incluindo o brasileiro, acusam Israel de genocídio.
Essas doutrinas só fazem algum sentido para o público na Europa e nos EUA porque se sustentam naquilo que o pensador palestino Edward Said chamava de “orientalismo”. É uma maneira de produzir conhecimento sobre o dito Oriente de modo que os orientais são reduzidos a estereótipos, como o de radicais religiosos. Sob esse prisma, os moradores da região são considerados naturalmente violentos e, portanto, a violência contra eles não surpreende nem incomoda tanto.




