Para alívio do Itamaraty, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seguiu o roteiro previsto na sua breve intervenção na crise decorrente do cerco militar americano à ditadura da Venezuela e das ações intempestivas de Donald Trump na região, que já deixaram ao menos 75 mortos.
O brasileiro deixou seu posto de anfitrião da COP30 para participar da reunião da Celac, o clube de nações latino-americanas e caribenhas, na Colômbia. Não precisava: sua fala foi tão protocolar quanto a declaração final do evento.
Ambas traduzem a realidade geopolítica de impotência regional ante o “bullying” de Trump, que montou uma operação militar inaudita no Caribe e em pontos do Pacífico em nome de uma nova guerra às drogas, reeditando políticas até aqui fracassadas de seus antecessores.
A estratégia em curso usa elementos de outra guerra, aquela contra o terror do pós-11 de Setembro, com a transformação por decreto de cartéis do tráfico em organizações terroristas aos olhos do Pentágono —gerando uma zona cinzenta de ação militar sem supervisão congressual, tema que ainda dará muita discussão.
Mas o que ocorreu durante o encontro da Celac foi a confirmação do óbvio: nem Brasil, nem a acossada Colômbia ou outros vizinhos de menor peso na crise têm muito o que fazer para impedir que Trump force sua vontade, “manu militari” ou não.
Ela não se resume ao formidável poderio reunido em forma de navios, caças e outros recursos numa região que não via algo parecido desde a invasão moralmente mais aceitável do Haiti para a restauração da tíbia democracia da ilha em 1994.
O debate parlamentar em torno da mudança de tipificação penal em caso de ação do crime organizado no Brasil, na esteira da mortífera operação da polícia do Rio há duas semanas, já emana os odores da agenda trumpista de atirar primeiro e perguntar depois.
A situação de Nicolás Maduro é agravada por dois fatores adicionais, além da fraqueza militar e política da turma ao sul do Texas. Primeiro, o medo que Lula e colegas têm de melindrar Trump num momento de diástole em sua rotina de pressionar países por meio de guerra comercial e sanções outras.
Para o brasileiro, em particular, enfrentar o americano agora significaria perder o crédito que ganhou na disputa com o bolsonarismo, quando encontrou-se com Trump na Malásia e anulou a tática do clã do ex-presidente rumo à cadeia de trabalhar contra a economia brasileira e tentar jogar a culpa no petista.
Pior para Lula é o temperamento mercurial do republicano, que a qualquer momento pode mudar de humor —e a iminente prisão de Jair Bolsonaro (PL) será um bom teste para isso. Mas, por ora, queixar-se indiretamente de ingerência na América Latina foi o possível.
Outros líderes têm posição ainda mais fragilizada, ficando o colombiano Gustavo Petro com o alvo na cabeça, dado que sua relação com Trump já desandou há tempos.
O segundo aspecto negativo para a ditadura de Caracas é o caráter do regime, que conseguiu ser ostracizado até pelo governo de Lula, cujo partido é um amante incorrigível do autoritarismo caudilhesco latino personificado em Maduro.
Lula não reconheceu como legítima a reeleição de Maduro em 2024 e vetou a subsequente tentativa de entrada da Venezuela no Brics, com o ditador passeando como convidado de honra de Vladimir Putin na reunião do grupo em Kazan.
Essa conjunção entre o temor a Trump e o desprezo a Maduro, temperada pela falta de capacidade prática de reagir à pressão militar, dá ao americano carta branca na prática.
A única força externa que poderia esboçar alguma reação, a Rússia que armou Hugo Chávez nos anos 2000 e 2010, está manietada pela Guerra da Ucrânia e só oferece apoio retórico. A China, outra aliada dos venezuelanos, nem se mexe além das notas oficiais.
Com isso, parece que restará à região assistir se Trump irá às vias de fato ou insistirá na pressão pontual, esperando Maduro costurar um acordo para deixar o poder ou ser derrubado em algum golpe palaciano. Em qualquer hipótese, o equilíbrio regional do pós-Guerra Fria estará estilhaçado.




