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HomeMundoAnálise: Ataque reafirma doutrina Trump, mas compra riscos - 28/02/2026 - Mundo

Análise: Ataque reafirma doutrina Trump, mas compra riscos – 28/02/2026 – Mundo

O avassalador ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã neste sábado (28), que aparentemente dizimou a liderança da teocracia, é um testemunho do modus operandi de Donald Trump em sua segunda encarnação como presidente americano.

A ação reafirmou o descompromisso do republicano com suas bandeiras eleitorais, o que é na prática irrelevante, e a doutrina desenhada pela Casa Branca em dezembro passado, o que diz respeito ao mundo.

Em apuros estão adversários e também aliados, dado o descaso com os riscos geopolíticos do caráter mercurial do processo decisório de Trump.

Trump não tinha necessidade estratégica de atacar o Irã agora. A teocracia já estava enfraquecida pela sequência de embates com Israel que acabaram com sua primeira linha de defesa com prepostos, a guerra do ano passado, a crise econômica e os protestos de rua.

Portanto, como ameaça, Teerã apresentava baixo risco imediato. O que Trump fez foi comprar a visão de Binyamin Netanyahu para o Oriente Médio, acreditando ser possível dar um peteleco final da teocracia e promover uma mudança do regime.

Parece otimismo. Mesmo que seu comando esteja desmontado, a Guarda Revolucionária tende ocupar qualquer vácuo de poder no país, talvez o tornando uma ditadura militar. Não haverá as famosas botas no solo, como no Iraque em 2003, e não há grupos a apoiar, como havia a Aliança do Norte contra o Talibã no Afeganistão de 2001.

E mesmo aquelas duas guerras, como se sabe, acabaram mal para os EUA. Tanto foi assim que a negação de entrar em conflitos distantes era parte do discurso de Trump desde sua primeira eleição, em 2016 —agora, isso é passado.

Um cenário que se assemelhe ao da Venezuela, com a manutenção do regime sem a sua cabeça, parece mais difícil dado o caráter ideológico da Guarda. A ampla retaliação iniciada neste sábado, levando pânico aos shoppings de árabes abastados no golfo Pérsico além do previsível golpe em Israel, sinaliza isso. A Guarda pode, claro, ceder ante a pressão.

É visível que Trump buscava uma vitória rápida, sem considerar o pandemônio que o ataque poderia criar. A balbúrdia potencialmente inflacionária no mercado do petróleo e novos choques entre árabes e Teerã são alguns dos riscos que parecem ter sido deixados em segundo plano.

Nesse sentido, é uma aposta, dado que o ganho pode ser tão alto quanto os riscos. Trump aplicou aqui os princípios de sua Estratégia de Segurança Nacional, que se reserva o direito de atacar quem quiser se assim achar necessário.

Sem o verniz hipócrita das intervenções passadas, que falavam em promover valores democráticos e afins, a Estratégia diz que o que importa é o desejo do chefe. É um mundo de relações de força que não é estranho a Vladimir Putin e Xi Jinping, para ficar em líderes que Trump admira.

Como em 2025, Trump atacou o Irã no meio de uma negociação oficial sobre o programa nuclear. Desta vez, foi além, e a curiosa ausência de informações acerca do papel das forças americanas no ataque premiou Netanyahu não só com uma ampliação de sua própria doutrina, mas com a cabeça da hidra da teocracia.

Perde, claro, o mundo regrado do pós-guerra. Aliados e inimigos dos EUA sabem que Trump não é confiável, e mais cedo ou mais tarde algum tipo de reação mais forte que mísseis balísticos poderá emergir. Por ora, são todos apenas espectadores.

Fonte: Folha de São Paulo

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