O conflito no Oriente Médio ganhou um novo e imprevisível componente nesta segunda-feira (13), quando forças apoiadas pela Arábia Saudita atacaram o aeroporto de Sanaa, a capital do Iêmen ocupada desde 2014 por rebeldes apoiados pelo Irã.
O bombardeio foi anunciado pelo governo iemenita expulso do oeste do país durante a guerra civil iniciada em 2014, que estava congelada após o fim de um cessar-fogo mediado pela ONU em 2022. Os houthis, rebeldes xiitas armados por Teerã, acusaram os sauditas pela ação.
Faz sentido militar, dado que diversos aviões de combate foram vistos voando sobre Sanaa e o governo deposto não tem Força Aérea operacional. Durante o auge da guerra civil, de 2015 a 2022, foram sauditas e emiratis os responsáveis pelas operações pelo ar contra os houthis.
Até aqui, o governo saudita não comentou o episódio. Segundo o porta-voz militar dos rebeldes, Yahya Saree, a ação colocou um fim à fase de-escalada da guerra civil e Riad sofrerá retaliações pelo bombardeio.
O governo deposto disse que quis evitar o pouso de um avião iraniano na capital com uma delegação iemenita que participou do funeral do líder supremo da teocracia, Ali Khamenei, morto em um ataque dos EUA e de Israel em fevereiro.
O motivo seria a recusa do grupo de embarcar em uma aeronave da empresa Yemenia, controlada pelo governo, o que parece frágil para justificar um bombardeio. Seja como for, o Airbus A340-300 da empresa aérea iraniana Mahan Air que pousaria teve de desviar para a cidade portuária de Hodeidah.
Logo após o incidente, a organização britânica de tráfego marítimo UKMTO emitiu um alerta de ataque contra um petroleiro a cerca de 90 km da costa da região controlada pelos houthis. Seis pequenos barcos ameaçaram a embarcação, que conseguiu afastá-los disparando tiros.
Embora o cenário do ocorrido esteja obscuro, os riscos são claros: a guerra entre Estados Unidos e Irã pode se ampliar para um conflito mais generalizado no Oriente Médio, chegando à costa oeste da península Arábica.
Diante da interdição do estreito de Hormuz, por onde passavam 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo antes de Donald Trump e Binyamin Netanyahu atacarem a teocracia em fevereiro, os sauditas buscaram aumentar a capacidade de escoamento de óleo pelo terminal de Yanbu, no mar Vermelho.
Ele é ligado aos centros de produção petrolífera do reino por um oleoduto construído em 1981 para driblar a instabilidade no golfo Pérsico decorrente da guerra Irã-Iraque.
O problema é que os petroleiros que chegam para se abastecer lá e levar o produto para os mercados asiáticos precisam passar pelo estreito de Bab al-Mandab, que liga o Índico ao mar Vermelho, e cuja costa leste é dominada pelos houthis.
Durante a guerra com o Irã, mesmo os Estados Unidos evitaram a região e o arsenal de drones e mísseis dos houthis, fazendo, por exemplo, o porta-aviões USS George H. W. Bush dar a volta na África para chegar ao teatro de operações.
Apesar de comandar um território empobrecido e disputado, os houthis têm grande capacidade de disrupção. Quando apoiaram o grupo terrorista Hamas na guerra contra Israel, em 2023 e 2025, eles passaram a atacar navios mercantes considerados ligados ao Estado judeu ou aos EUA.
Com isso, provocaram uma enorme confusão no comércio internacional —pelo mar Vermelho transitava 15% do tráfego marítimo do planeta. Buscando rotas alternativas e contando com apoio de missões militares, as transportadoras viram o frete quintuplicar de preço em alguns períodos.
O referencial índice FBX, que calcula o custo de transporte de contêineres de 40 pés (12 metros) nas 12 principais rotas mundiais, está hoje em quase US$ 4.000, quatro vezes mais do que o anterior à atual rodada de instabilidade no Oriente Médio, iniciada quando o Hamas atacou Israel em 7 de outubro de 2023.
A eventual entrada do Iêmen como cenário do conflito tende a piorar a situação, adicionando ainda mais tensão econômica à crise política na região. Em ocasiões anteriores, os houthis também haviam prometido ajudar o Irã se preciso.




