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Dez anos depois do brexit, Reino Unido deu adeus às ilusões e à sua grandeza – 25/06/2026 – Laura Greenhalgh

Fosse um balé, a coreografia teria sido impecável. No mesmo dia em que Keir Starmer anunciou sua renúncia como primeiro-ministro britânico, desembarcava em Londres o também trabalhista Andy Burnham, ex-prefeito da Grande Manchester, para assumir uma cadeira no Parlamento e iniciar campanha para suceder Starmer. Dançaram este pas-de-deux na véspera do aniversário de dez anos do brexit, numa coincidência cheia de significados.

Nem a sucessão de seis primeiros-ministros em uma década e a reviravolta nas expectativas de um novo ciclo trabalhista, como nem mesmo o crescimento da ultradireita de Nigel Farage, explicam o que se passa no Reino Unido hoje. Se, em 2016, 52% da população optou pela saída do país da União Europeia, contra 48% que votaram pela permanência, hoje as pesquisas invertem o cenário: se houvesse novo referendo, 52% seriam favoráveis à volta ao bloco e só 31% seriam contrários.

Burham se apresenta como um salvador da pátria, quando a boa memória nos diz que ele ajudou a isolar a esquerda do Partido Trabalhista —inclusive o líder Jeremy Corbyn—, e sua propalada flexibilidade política lhe rende o apelido de “camaleão”. Se vier a ser primeiro-ministro, talvez não traga algo tão diferente do apático Starmer.

Interessante notar como o aniversário do brexit emerge nesta troca de cadeiras em Downing Street. Exuma-se um processo político equivocado, aberto pelo conservador David Cameron, quando primeiro-ministro. Cameron chamou o referendo certo de que, com um resultado favorável à permanência na UE, conteria os eurocéticos do seu partido e obteria novos acordos com o bloco europeu. Deu errado.

Idem para a campanha de mil falhas em favor da permanência, liderada por Cameron. Em 2016, o governo fez chegar aos lares britânicos um panfleto mostrando o que as pessoas perderiam caso o país saísse do bloco. Foi mote perfeito para os adversários iniciarem a contracampanha, martelando a tese da “dominação pelo medo”.

Enquanto a frente pró-UE se perdia em explicações elitistas —do tipo “se sair do bloco, você não terá roaming gratuito para veranear na Espanha”—, a campanha adversária ouviu a insatisfação popular. Um ônibus vermelho viajou pelo país, muitas vezes levando a bordo o fanfarrão Boris Johnson, ainda prefeito de Londres, para gerar indignação. Dez anos depois, famílias inglesas de renda média se percebem mais pobres do que as alemãs (em 20%) e do que as francesas (em 9%), comparadas na mesma faixa.

O historiador britânico A. G. Hopkins, no livro “The Land Where Nothing Works” (“A Terra Onde Nada Funciona”), oferece pistas para entender o Reino Unido. Ele lembra que, em 1945, o país optou pelo Estado de bem-estar social. A virada neoliberal de Margaret Thatcher, em 1979, trouxe redução do Estado, privatizações, ajuste fiscal e forte valorização do setor financeiro, que derraparia na crise de 2008. As desigualdades e as frustrações cresceram.

Hopkins aconselha a recuperar a tradição social-democrata. Já o ensaísta irlandês Fintan O’Toole, em seu livro “Heroic Failure” (“Fracasso Heroico”), decifra uma ex-potência desiludida com a própria grandeza. O brexit acendeu fantasias de um império 2.0, que permitiria aos britânicos retomar um lugar de destaque no mundo, a Anglosfera. Como se vê, o retorno à realidade nem sempre é fácil.


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Fonte: Folha de São Paulo

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