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Brexit completa dez anos com crise política no Reino – 25/06/2026 – Mundo

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A conta política

Há datas que o calendário escolhe sozinho. Esta semana marcou dez anos desde que o Reino Unido votou para deixar a União Europeia (UE), em 23 de junho de 2016. Um dia antes do aniversário, na segunda-feira, Keir Starmer anunciou a renúncia —o sexto primeiro-ministro britânico a cair desde o referendo. Antes dele, o país havia tido cinco premiês entre 1979 e 2016. A proximidade das datas não é coincidência. É a confirmação de que o Brexit continua sendo a força que desorganiza a política britânica.

O sucessor mais cotado é Andy Burnham, prefeito da Grande Manchester e uma voz pró-europeia no Partido Trabalhista.

Bruxelas reagiu: adiou, de forma unilateral, a cúpula com Londres prevista para 22 de julho, para aguardar a chegada do novo ocupante de Downing Street. É um gesto pequeno com significado grande. Mostra que a relação entre as duas margens do Canal da Mancha continua hostilizada por uma decisão tomada há uma década.

A conta econômica

Os números não deixam margem para ambiguidade. O Office for Budget Responsibility, órgão de fiscalização das contas públicas britânicas, estima que o Brexit reduz a produtividade de longo prazo do país em 4% frente a um cenário de permanência na União Europeia —efeito atribuído sobretudo às novas barreiras não tarifárias ao comércio com o bloco.

Um estudo conduzido por economistas de Stanford, Nottingham e King’s College London, publicado em fevereiro deste ano, vai além: calcula que, até 2025, o Brexit havia encolhido o PIB britânico entre 6% e 8% em relação a países comparáveis, com o investimento empresarial 18% menor e a produtividade do trabalho cerca de 4% mais baixa.

Para Enrico Letta, ex-primeiro-ministro da Itália e autor, em 2024, de um relatório oficial encomendado pela própria União Europeia sobre o futuro do mercado único, a saída britânica paralisou a chamada união dos mercados de capitais, que previa integrar os mercados financeiros dos países-membros para que a Europa financie sua própria inovação sem depender de capital americano ou asiático. No relatório, Letta descreve essa unificação como o elemento central da competitividade europeia e argumenta que, sem o Reino Unido na mesa, o impulso político para fazer essa reforma avançar praticamente desapareceu.

Some-se a isso o diagnóstico já conhecido: segundo dados do Conference Board, a produção real por habitante do Reino Unido foi, em 2025, 27% menor do que seria se a trajetória de crescimento observada entre 1970 e 2007 tivesse se mantido. O país tem hoje as menores taxas de poupança e investimento do G7.

A conta social

A promessa central do Brexit de reduzir a imigração, não apenas não se cumpriu, como produziu o efeito contrário. A migração líquida para o Reino Unido saltou de 184 mil pessoas em 2019 para mais de 848 mil em 2023, o maior número já registrado, fenômeno que ficou conhecido como Boriswave (a onda de Boris), em referência ao ex-primeiro-ministro Boris Johnson.

Levantamento da consultoria Cambridge Econometrics, encomendado pela prefeitura de Londres, mostra que a capital britânica perdeu quase 300 mil empregos e o país como um todo, 2 milhões de postos de trabalho, como consequência direta da saída da UE.

A conta política

Talvez o sintoma mais revelador dos dez anos seja o espetáculo das recriminações internas. Os próprios arquitetos do Brexit começaram, nos últimos tempos, a se acusar mutuamente pelo fracasso em entregar a Grã-Bretanha desregulamentada e de baixa migração que prometeram.

Michael Gove, um dos rostos mais visíveis da campanha pelo Leave em 2016 e hoje editor da revista The Spectator, é acusado de não ter desmontado as regulações ambientais herdadas da União Europeia quando teve a chance, à frente do Ministério do Meio Ambiente britânico.

Boris Johnson é cobrado por deixar o país preso demais às regras europeias e por abrir as comportas migratórias que prometera fechar.

Nigel Farage é acusado de ter abandonado o campo de batalha assim que venceu o referendo, recolhendo-se justamente quando o trabalho difícil começava. Um ex-vice-líder do Reform UK resumiu o clima: “Johnson nos vendeu rio abaixo, e Farage nos vendeu rio adentro.” Isso não é debate político. É ajuste de contas entre vencedores que não sabem mais o que fazer com a vitória.

A conta para a Europa

Do outro lado do Canal, o balanço é menos trágico. A saída britânica funcionou como advertência: o apoio popular à UE cresceu de forma consistente no bloco desde 2016, e nenhum outro movimento separatista relevante ganhou força —nem mesmo a “Frexit” que Marine Le Pen chegou a defender, e que abandonou rapidamente diante dos custos visíveis da experiência britânica.

O próprio Michel Barnier, francês que foi negociador-chefe da União Europeia durante as tratativas do Brexit e depois breve primeiro-ministro da França, em 2024, resume: “Saímos dessa em melhor situação do que eles.”

Mas a ausência britânica tem custo geopolítico. Sem o Reino Unido como contrapeso, a relação entre França e Alemanha, tradicional motor da integração europeia perdeu equilíbrio. A União Europeia perdeu uma voz influente em favor do livre-comércio e do alargamento do bloco a novos membros. E ficou mais fácil para países pequenos, como a Hungria do ex-primeiro-ministro Viktor Orbán —derrotado nas urnas em abril deste ano—, usarem o poder de veto para travar decisões coletivas enquanto esteve no poder.

E agora?

A pergunta natural, dez anos depois, é se o Reino Unido vai tentar o caminho de volta. As pesquisas sugerem que sim. Ao menos no plano do desejo, não ainda no da ação política. Segundo o instituto YouGov, 23% dos eleitores que votaram para sair da UE em 2016 hoje diriam que a decisão foi um erro. No distrito de Makerfield, palco da eleição suplementar que recolocou Burnham no Parlamento, 45% dos eleitores apoiariam reingressar na UE, contra 38% que prefeririam manter o país fora.

O próprio governo britânico, pela voz do ministro para relações com a União Europeia, Nick Thomas-Symonds, chamou de “miragem irreal” a ideia de um retorno rápido, mas reconheceu que o Reino Unido precisa se aproximar do bloco para não ficar isolado entre as guerras comerciais que opõem Estados Unidos, China e Europa.

O que parece improvável é que esse movimento avance sem resistência. Justamente quando a vontade de reaproximação cresce entre parte do eleitorado, a força política que mais cresce no país é a extrema direita de Farage, beneficiária direta do descontentamento com os resultados do próprio Brexit que ela ajudou a vender. É a contradição que vai definir a próxima década britânica: o desejo de voltar e a força que torna esse retorno cada vez mais difícil crescem ao mesmo tempo, alimentados pela mesma frustração.


Frase da semana



Saímos dessa em melhor situação do que eles


O calor que a política não pode mais ignorar

A canicule (onda de calor extrema) que castiga a França desde a semana passada, com os termômetros atropelando os 40°C em algumas regiões, já não é só pauta de conversa de bar.

Na quarta-feira (24), o país teve o dia mais quente desde que os registros da Météo France começaram, em 1947, e nesta quinta 72 departamentos amanheceram em alerta vermelho. A cena que chega ao redor do mundo é sempre a mesma: gente pulando em fontes, nadando em rios e canais charmosos, caçando ventilador nas lojas. Mas atrás da imagem simpática há uma conta bem mais séria, e ela tem dois lados: o econômico e o político.

O lado econômico é mais sutil do que parece. Estudos do Banco Central Europeu mostram que o impacto de uma onda de calor sobre a atividade econômica de uma região aparece com força total só dois anos depois, em torno de 1,5% do produto, efeito explicado pelos ciclos de investimento interrompidos por empresas que precisam se adaptar ao calor em vez de investir em outras frentes.

A seguradora Allianz Trade vai além: num cenário extremo, em que os cinco anos mais quentes da última década se repetissem entre 2026 e 2030, a perda acumulada de PIB chegaria a 5% a 7% nas economias mais expostas. Para a França, isso significaria algo como US$ 240 bilhões.

Curiosamente, a literatura médica mostra que a capacidade de trabalho físico despenca 40% a partir dos 32°C, mas os dados usados pelos próprios economistas, por ora, não confirmam um efeito equivalente sobre a produtividade agregada do trabalho.

O lado político é mais visível e mais incômodo para quem governa. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu contabiliza ao menos 40 mortes relacionadas à canicule desde 18 de junho, além de uma sucessão de reuniões da célula de crise interministerial.

A cobrança é direta: Emmanuel Macron prometeu, em 2023, renovar 40 mil escolas em dez anos, promessa que não será cumprida, com 8.000 estabelecimentos de ensino afetados pelo calor nesta semana, 1.800 deles sem aula nenhuma.

O Fonds Vert (Fundo Verde, criado para financiar a adaptação climática de municípios e regiões), lançado pela então primeira-ministra Élisabeth Borne em 2023, teve seu orçamento cortado de 1,5 bilhão para 837 milhões de euros no orçamento de 2026 —corte que críticos atribuem à urgência fiscal, não à falta de necessidade.

O fim do tabu da climatização

O efeito mais revelador, porém, é o fim de um tabu: a climatização. Por anos, a política climática francesa tratou o ar-condicionado como vilão energético. Agora, do Rassemblement National (Reunião Nacional), de Marine Le Pen, aos Ecologistas de Marine Tondelier, quase todo o espectro político francês reconhece a necessidade de equipar escolas, hospitais e asilos, ainda que a infraestrutura nacional continue muito atrás de Espanha, Itália ou Estados Unidos.

O fenômeno não é só francês. Espanha e Itália já haviam batido recordes nesta semana, enquanto Alemanha, Reino Unido, Bélgica e Holanda enfrentam o que o climatologista Davide Faranda, diretor de pesquisa no Laboratório de Ciências do Clima e do Ambiente de Paris, chama de onda de calor “de extensão geográfica excepcional”.

A pauta que durante anos foi tratada como tediosa, distante, de longo prazo, virou questão de curto prazo, de bolso e de sobrevivência —e os políticos europeus, de todos os espectros, estão sendo cobrados por isso ao mesmo tempo.

O ato de fé do Banco Central do Brasil

Gabriel Galípolo construiu, à frente do Banco Central, uma reputação de conservadorismo bem recebida pelo mercado. Analistas estrangeiros o descrevem como alguém que vem “ganhando confiança” com sua condução cautelosa da política monetária.

O quadro geral, porém, não é de euforia: em maio, o saldo de investidores estrangeiros na B3 ficou negativo em R$ 13,28 bilhões, a maior retirada em mais de cinco anos, num movimento de realocação de capital rumo aos EUA. É nesse pano de fundo que a decisão do Copom na semana passada chamou a atenção por um motivo diferente.

Como era previsto, o comitê cortou a Selic em 0,25 ponto, para 14,25% ao ano — o terceiro corte consecutivo —, mesmo reconhecendo que a inflação está pior do que o esperado, com a projeção para 2027 revisada de 3,5% para 3,7%. A novidade, conforme explicou a jornalista Idiana Tomazelli, está num detalhe que o próprio BC preferiu não detalhar. Pela defasagem típica da política monetária, o Copom deveria mirar a inflação esperada para o fim de 2027.

Em vez disso, optou por deslocar o horizonte de referência para o primeiro trimestre de 2028 — e foi com base nessas novas projeções, mais distantes, que justificou o corte.

A instituição prometeu que os preços convergirão à meta de 3% nesse novo horizonte — desaceleração que as projeções do mercado simplesmente não enxergam. Qual a lógica por trás dela? Mistério. A explicação completa, segundo o próprio Copom, só virá em agosto.

Em outras palavras: o Banco Central não apenas pediu um ato de fé, como mudou o ponto de chegada da corrida no meio do percurso, num ano em que a eleição presidencial de outubro já pesa sobre toda leitura de política econômica. Para uma instituição que vende credibilidade como seu principal ativo, pode ser uma aposta arriscada.

No radar

O que monitorar até a próxima quinta-feira

  • A sucessão de Starmer – O Partido Trabalhista deve definir nos próximos dias quem assume Downing Street. Andy Burnham é o mais cotado. Fique de olho na nova data da cúpula UE-Reino Unido, adiada de 22 de julho.
  • O Banco Central Europeu mudou de direção – Em 11 de junho, o BCE elevou os juros em 0,25 ponto, para 2,25%, a primeira alta desde 2023, motivada pela guerra no Irã e pela disparada do petróleo via Hormuz. Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, depõe esta semana no Parlamento Europeu sobre as implicações da decisão; qualquer sinal sobre novas altas (mercados precificam mais uma em setembro) merece atenção.
  • Europa dividida sobre a Rússia — Macron e Friedrich Merz, chanceler federal da Alemanha, resistem à ideia de abrir conversas diplomáticas com Moscou, defendendo que a iniciativa caiba a uma “eurotroika” formada por França, Alemanha e Reino Unido. Outros líderes europeus pressionam por um diálogo mais imediato. O racha pode se aprofundar nas próximas semanas.
  • A canicule não dá trégua — O calor extremo segue avançando sobre Alemanha, Bélgica e Holanda, com risco de novos recordes. Fique de olho em decisões emergenciais de governos locais.
  • Hungria pós-Orbán — Com a vitória de Péter Magyar, líder do partido Tisza e hoje primeiro-ministro da Hungria, em abril, Bruxelas negocia a liberação de fundos europeus represados sob o governo anterior — incluindo um possível repasse de até €17 bilhões. Qualquer avanço é termômetro de como a União vai lidar com o desmonte do “iliberalismo” húngaro.

Fora da pauta

“This Blessed Plot: Britain and Europe from Churchill to Blair” (“Esta Terra Bendita: a Grã-Bretanha e a Europa de Churchill a Blair”, em tradução livre, o livro não tem edição em português), de Hugo Young (Macmillan, 1998)

Hugo Young foi um dos colunistas políticos mais influentes do The Guardian. Neste livro, ele assina o que muitos consideram o relato mais completo da ambivalência britânica em relação à Europa —de Churchill, que defendia uma Europa unida, mas via a Grã-Bretanha como aliada de fora, não como parte dela, a Tony Blair, o primeiro-ministro genuinamente pró-europeu desde a adesão do país ao bloco, em 1973. Publicado quase duas décadas antes do referendo de 2016, o livro lê hoje como profecia do Brexit.

Fonte: Folha de São Paulo

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