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Zelenski pode rir por último em sua relação com Trump – 24/06/2026 – Mundo

Qual dos dois homens tem mais chances de liderar seu país em 2029, Donald Trump ou Volodimir Zelenski? A aposta mais prudente seria Zelenski, mesmo que Trump tente desafiar os limites que o impedem de ter um terceiro mandato.

Nenhum outro líder mundial pode dizer que sobreviveu e prosperou diante da inimizade tanto de Trump quanto de Vladimir Putin. Os infortúnios que atingem a “operação militar especial” da Rússia significam que ele também pode durar mais que Putin.

Mas a tenacidade de Zelenski vai além do campo de batalha. Ele, mais do que qualquer outro líder ocidental —com exceção de Trump (e por motivos diferentes)— tem capacidade de catalisar mudanças na Europa.

Trump gosta de estar cercado de vencedores. No Salão Oval, 15 meses atrás, ele apresentou Zelenski como um perdedor. Disse que o ucraniano não tinha cartas na mão. Após não conseguir que ele assinasse um acordo unilateral sobre direitos minerais, Scott Bessent, secretário do Tesouro de Trump, referiu-se ao líder ucraniano como “esse merdinha” e o “adulto com necessidades especiais dos europeus”, segundo Maggie Haberman e Jonathan Swan em seu novo livro “Regime Change”.

Crianças com necessidades especiais muitas vezes têm dificuldades de aprendizado. A capacidade da Ucrânia de inovar no campo de batalha sugere que Zelenski não enfrenta esse tipo de limitação.

A situação no terreno não tem necessariamente evoluído a favor da Rússia. Trump, portanto, adotou uma abordagem muito diferente em relação a Zelenski na semana passada, na cúpula do G7 em Évian, na França.

A mudança de postura do presidente americano ficou evidente no comunicado do G7, que elogiou a “resiliência” e o “novo impulso” da Ucrânia, ao mesmo tempo em que prometeu mais armas e ajuda ocidental para atravessar o próximo inverno.

É duvidoso que Trump algum dia consiga ver Zelenski como um vencedor. Seu instinto de retaliação faz com que ele não consiga perdoar o fato de o líder ucraniano ter se recusado a desenterrar podres de Joe Biden durante seu primeiro mandato. Trump sempre associará Zelenski ao seu primeiro processo de impeachment. Mas ele já não o apresenta como um perdedor.

A Câmara aprovou no início do mês um novo pacote de ajuda de US$ 8 bilhões para a Ucrânia. Por meio da mesma “petição de desobstrução” usada para contornar o bloqueio do presidente da Câmara republicano, Mike Johnson, quando da publicação dos arquivos de Jeffrey Epstein, a ajuda à Ucrânia foi aprovada com facilidade. O Senado será o teste. Trump vetaria? O fato de não haver uma resposta clara hoje é revelador.

Mais relevante é saber se Trump aprovará o pedido de Zelenski para fabricar sistemas de defesa antimísseis Patriot na Ucrânia. O presidente ucraniano afirma que sim —e a Lockheed Martin provavelmente veria com bons olhos o negócio. Dada a convicção de Trump de que Putin é o líder regional dominante, um sinal verde é improvável.

Mas Zelenski ganhou novo poder de barganha. Equipes de empreendedores de defesa ucranianos estão assessorando o Pentágono como parte do novo orçamento de US$ 54 bilhões para guerra com drones. Startups ucranianas e os que usam seus produtos no campo de batalha estão em alta demanda global. Está cada vez mais difícil para os trumpistas apresentarem a Ucrânia como beneficiária de assistência social.

Além disso, numa era em que a própria família do presidente americano usa abertamente o cargo para enriquecer-se, a acusação de corrupção na Ucrânia já não tem o mesmo peso em Washington. Zelenski teve seus escândalos de corrupção. Mas Trump, que suspendeu a aplicação da Lei de Práticas Corruptas no Exterior dos EUA, é favorável a certos incentivos de negociação. Zelenski pode oferecer alguns hoje em dia.

Putin, por outro lado, não se interessa pelas repetidas ofertas de Trump para mediar um acordo. Isso também explica a aceitação de Trump ao comunicado do G7. Com os incêndios provocados por recentes ataques de drones ucranianos visíveis em Moscou e São Petersburgo, Putin não está em posição de negociar.

A clareza de propósito de Zelenski lhe dá maior potencial de influência sobre o futuro do Ocidente do que qualquer outro líder, exceto Trump. Mark Carney, do Canadá, também tem uma agenda clara, impulsionada pela retórica predatória de Trump. Mas o debate sobre a adesão da Ucrânia à União Europeia pode ajudar a dar origem a uma verdadeira identidade europeia de defesa.

Dado o desprezo de Trump pela aliança, os debates sobre expansão da UE e o futuro da Otan tendem a se sobrepor cada vez mais. Com o maior e mais moderno Exército da Europa, a voz da Ucrânia será decisiva.

A retórica de Zelenski funciona como um contraponto à timidez da liderança ocidental. Enquanto um primeiro-ministro britânico é substituído por outro, e a França enfrenta a possibilidade de um presidente de ultradireita no próximo ano, Zelenski oferece convicção. Em meio a um mundo de líderes autoritários de direita, ele defende a democracia liberal sem hesitação.

Devido às circunstâncias da Ucrânia, ele fala a um público maior do que outros líderes —exceto um. Trump não é amigo do “Ocidente”. Zelenski, por sua vez, está lembrando o Ocidente de si mesmo.

Fonte: Folha de São Paulo

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