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Passado nazista na Ucrânia reabre crise com a Polônia – 22/06/2026 – Mundo

A decisão do presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, de batizar uma unidade militar com o nome da força responsável por estimadas 100 mil mortes de poloneses com apoio dos nazistas na Segunda Guerra Mundial reabriu uma crise com sua aliada Polônia.

Na sexta-feira (19), o presidente polonês, Karol Nawrocki, retirou a mais alta condecoração do país de Zelenski após o colega dar a uma unidade que luta contra a invasão russa o nome de Exército Insurgente Ucraniano (UPA, na sigla local).

Entre 1943 e 1944, o UPA promoveu o que Varsóvia chama de limpeza étnica de regiões no oeste da Ucrânia, então na linha de frente entre as ocupações nazista e do domínio da União Soviética. No processo, morreram milhares de pessoas, algo que Kiev reconhece, mas não aceita a denominação polonesa de genocídio.

A Ucrânia fala em “tragédia de Volínia e Galícia”, nome das regiões afetadas, e lembra que milhares de cidadãos do país morreram em represálias.

Adversário do presidente Nawrocki, um trumpista eleito neste ano, o premiê pró-europeu Donald Tusk pediu para os dois lados abandonarem o debate, que chamou de “erro estratégico”.

Já Zelenski negou a intenção de ofender os vizinhos e dizendo que seu decreto foi só uma homenagem à bravura dos soldados, mas disse que se a Ucrânia perder a guerra contra a Rússia a Polônia ficará sem uma proteção natural contra Vladimir Putin.

Não é a primeira vez em que o passado na Ucrânia assombra Zelenski, que até por ser judeu rejeita a acusação de Moscou de liderar um governo neonazista. A pecha é parte do discurso do Kremlin para justificar a agressão iniciada em 2022, e integra um movimento maior de Putin para buscar reescrever a história de modo mais favorável a Moscou.

Com a Guerra da Ucrânia, isso foi intensificado e correlações entre a libertação da Europa do nazifascismo pelo Exército Vermelho e o conflito atual são correntes no discurso público russo.

A questão se complica porque diversas unidades de Zelenski prestam homenagens a forças que lutaram contra os soviéticos e viram a invasão nazista de 1941 como uma oportunidade de se livrar do jugo de Moscou. A Ucrânia foi o segundo país mais importante dos 15 que integravam o império comunista (1922-1991).

O caso mais notório é o do Batalhão Azov, que adota simbologia e discurso neonazistas. Tanques ucranianos costumam ter uma cruz que lembra a das Forças Armadas de Adolf Hitler, e há um culto oficial à memória de Stepan Bandera (1909-1959), líder nacionalista fascista que lutou contra os soviéticos.

Em 2023, Zelenski foi duramente criticado por ter aplaudido de pé no Canadá um veterano ucraniano que serviu nas forças de combate voluntárias das SS, a organização que levou a cabo o Holocausto.

No caso do UPA original, o legado é mais matizado. Um de seus motes era “Não a Ioska [apelido de Josef Stálin] e não a Fritz [nome derrogatório para alemães]”, e de fato em vários momentos suas forças combateram tanto nazistas quanto soviéticos.

Mas as alianças pontuais com os nazistas visando o controle territorial para o pós-guerra viraram o mote da rivalidade, explorada também por Moscou desde então. Já ucranianos apontam para o fato de algumas unidades de voluntários russos hoje serem de ultradireita.

O tema é especialmente sensível na Polônia, hoje o país da Otan que mais gasta proporcionalmente com defesa, por ter tido o território dividido entre soviéticos e nazistas nos dois anos de vigor do pacto entre Hitler e Stálin, de 1939 a 1941.

Kiev, por sua vez, acusa Varsóvia de limpeza étnica devido à deportação de 140 mil ucranianos étnicos em 1947, sob a acusação de fomentarem separatismo. Ainda assim, Zelenski havia tentado fazer um gesto aos vizinhos na semana passada, dando permissão para a exumação de poloneses massacrados em um distrito de Volínia.

Fonte: Folha de São Paulo

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