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EUA: Taxa de mortalidade em centros de detenção aumenta – 17/06/2026 – Mundo

Um homem vietnamita com problemas cardiovasculares desmaiou e morreu no “Speedway Slammer”, a antiga prisão de segurança máxima de Indiana, nos Estados Unidos, que foi reaproveitada e se tornou um símbolo da repressão à imigração do governo de Donald Trump.

Em um centro de detenção da Pensilvânia, um homem chinês que já havia tentado suicídio foi encontrado enforcado no chuveiro. Em uma unidade de Nova York, um homem hondurenho com frequência cardíaca alta e tremores causados pela abstinência alcoólica morreu em sua cela sem receber atendimento de emergência.

Esses homens estão entre as 50 pessoas que morreram em centros de detenção para imigrantes nos EUA desde que Trump lançou sua campanha de deportação em massa, em janeiro de 2025, segundo registros do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE).

De 2009 a 2024, as autoridades registraram uma morte por ano para cada 3.848 detidos, com base na população média diária dos centros, segundo uma análise da agência de notícias Reuters. Essa taxa mais do que dobrou desde que Trump voltou ao cargo, chegando a cerca de uma morte para cada 1.630 pessoas, com base em dados preliminares até o início de junho.

Os números analisados pela Reuters foram obtidos com um pedido de acesso a registros públicos e processados pelo “Vera Institute of Justice”, uma organização sem fins lucrativos que defende a redução das taxas de encarceramento.

As causas das mortes de detidos podem ser complexas e não resultam, necessariamente, de negligência ou abuso por parte dos responsáveis pelos centros de detenção.

No entanto, três especialistas em detenções que analisaram registros do ICE e autópsias para a Reuters afirmaram que o aumento da taxa e outros dados suscitam preocupações quanto à qualidade da supervisão e dos cuidados médicos nos centros, cuja população cresceu de forma exponencial durante o governo Trump.

O número de detidos aumentou no último ano da gestão do democrata Joe Biden, que intensificou a aplicação da lei em meio a críticas recebidas durante a corrida à Presidência. O ICE detinha cerca de 40 mil imigrantes quando Trump assumiu o cargo, um aumento em relação ao mínimo da era Biden, de cerca de 14 mil, registrado em fevereiro de 2021, durante a pandemia da Covid-19.

Sob o governo Trump, o número disparou para cerca de 70 mil no seu pico de janeiro, durante uma grande operação de repressão em Minneapolis, antes de recuar para 57 mil no início de junho.

Ainda segundo os registros do ICE, 21 das 50 mortes foram descobertas após o detido já ter falecido ou ficado inconsciente. Estes casos, que incluíram dez suicídios, são especialmente preocupantes, pois podem refletir uma falta de supervisão da saúde física e mental e de cuidados a tempo, afirmou Sanjay Basu, médico associado da Universidade da Califórnia, em São Francisco, que estudou as mortes nos centros do ICE e que foi um dos três especialistas que analisaram os dados e registros para a Reuters.

Ataques cardíacos e problemas cardiovasculares foram responsáveis por 16 mortes, o que, segundo os especialistas médicos, sugere possíveis falhas nos exames médicos iniciais e no tratamento de doenças crônicas.

Chanelle Diaz, professora assistente de medicina no Centro Médico Irving da Universidade Columbia (EUA), afirmou que os dados e registros mostram que a agência está optando por prender pessoas clinicamente vulneráveis, resultando em um “aumento repentino de mortes evitáveis”.

“O sistema não foi projetado para o gerenciamento de cuidados crônicos”, disse Diaz, observando que pelo menos dois detidos que morreram tinham demência e não representavam risco ao público.

O Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) não forneceu registros detalhados das mortes ocorridas na era Trump e analisadas pela Reuters. A agência afirmou estar comprometida em garantir um ambiente “seguro, protegido e humano” durante a detenção.

“É prestado atendimento médico abrangente desde o momento em que as pessoas chegam e durante toda a sua permanência”, escreveu Lauren Bis, porta-voz do DHS, em comunicado enviado à Reuters.

DÚVIDAS SOBRE O ATENDIMENTO MÉDICO

Parte da dificuldade em determinar os fatores que influenciam a taxa de mortalidade decorre da escassez de detalhes nos relatórios do governo Trump sobre mortes nos centros de detenção analisados pela Reuters e pelos três especialistas.

Os documentos contêm menos detalhes sobre as circunstâncias em torno de cada morte do que anteriormente. Muitos omitiram informações essenciais, como o histórico médico do detento, os medicamentos e os detalhes da resposta de emergência, afirmaram os especialistas.

Michele Heisler, diretora médica da organização sem fins lucrativos Physicians for Human Rights, destacou o relatório de óbito do ICE sobre Santos Reyes Banegas, um hondurenho que faleceu no Centro Correcional do Condado de Nassau, em Long Island, Nova York, em setembro passado.

O ICE escreveu no relatório que, durante a admissão às 11h22 do dia 17 de setembro de 2025, uma enfermeira observou sintomas de abstinência alcoólica. Duas horas depois, um médico que o examinou constatou que ele apresentava tremores e prescreveu medicamentos para a abstinência.

O relatório, no entanto, não especifica nenhum medicamento em particular nem confirma se os medicamentos foram fornecidos. Às 6h25 do dia seguinte, Reyes foi encontrado inconsciente em sua cela e declarado morto 20 minutos depois, ainda de acordo com o relatório do ICE.

Heisler afirmou que o atendimento oportuno em um ambiente hospitalar pode reduzir de forma significativa os riscos de vida decorrentes da abstinência. “Isso levanta a questão: por que ele não foi encaminhado imediatamente a um pronto-socorro?”, disse ela.

O DHS informou que a morte continua sob investigação, mas “a causa preliminar parece ser insuficiência hepática complicada por alcoolismo”. Uma investigação feita pela Procuradoria-Geral do Estado de Nova York concluiu que o agente de plantão não causou a morte de Reyes, informou um porta-voz do órgão.

Fonte: Folha de São Paulo

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