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Todos são perdedores na guerra no Oriente Médio – 12/06/2026 – Thomas L. Friedman

Os líderes de Israel, Irã, Hezbollah, Hamas e Estados Unidos têm uma coisa em comum: nenhum deles quer uma comissão de inquérito analisando o seu desempenho no mais recente conflito do Oriente Médio. Então, decidi fazer isso por eles, e posso resumir minhas conclusões em duas palavras que se aplicam a todos eles: “Vocês perderam”. Pronto —poupei a todos o tempo e o dinheiro de uma investigação interna. De nada.

Esta é, verdadeiramente, a guerra no Oriente Médio que todos perderam. Mesmo que ainda não tenha acabado, já consigo enxergar isso.

Na verdade, uma das razões pelas quais esta guerra pode se prolongar é porque a maioria dos líderes desses países e milícias sabe que a história está de olho neles e, no minuto em que as armas silenciarem, haverá um acerto de contas moral, político e econômico que será devastador para cada um desses tolos.

Vamos analisar cada um. O Hamas iniciou este último conflito no Oriente Médio em 7 de outubro de 2023, com uma invasão a Israel a partir da Faixa de Gaza, na qual, em um único dia, assassinou mais de 1.200 pessoas —homens, mulheres e crianças— e sequestrou mais de 250. Qual era o objetivo de guerra do Hamas?

Até onde podemos perceber, sua fantasia era que, ao invadir Israel, desencadearia uma revolta regional na qual as forças de “resistência” —incluindo o Hezbollah, o Irã e até mesmo algumas nações árabes— o ajudariam a aniquilar o Estado judeu.

O Hamas não lançou esta guerra com nenhuma intenção pacífica —isto é, com uma arma em uma mão e um mapa de paz na outra, mostrando como dois povos nativos, judeus e palestinos, poderiam coexistir entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo.

Não, os únicos mapas que os combatentes do Hamas carregavam mostravam a eles onde encontrar o maior número de judeus para matar nas comunidades fronteiriças que invadiram, incluindo escolas de ensino fundamental e um centro de juventude.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, e o seu governo de extrema direita formado por supremacistas judeus lançaram uma guerra de aniquilação em resposta. O único mapa que ele ofereceu foi um em que apenas os judeus controlariam a área do rio ao mar.

Como o Hamas se infiltrou na população civil de Gaza, e como se recusou a permitir que os residentes de Gaza se abrigassem nas centenas de quilômetros de túneis de guerra que havia cavado sob o território, a população civil foi devastada pela feroz retaliação de Israel.

De acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, Israel matou mais de 70 mil pessoas —a maioria civis, incluindo milhares de crianças— e feriu pelo menos 170 mil. Esse é um total vergonhoso —cerca de 10% dos aproximadamente 2,2 milhões de pessoas que viviam em Gaza antes da guerra.

O líder do Hamas, Yahya Sinwar, supostamente descreveu tais perdas como “sacrifícios necessários” para fazer avançar a causa palestina globalmente. Funcionou. O seu sacrifício humano de civis palestinos deslegitimou Israel em todo o mundo a um nível nunca antes visto.

O movimento do povo judeu pela autodeterminação na sua pátria bíblica —chamado sionismo— tornou-se um palavrão nos campi universitários e nos partidos políticos liberais, e cada vez mais em alguns conservadores.

Artistas e acadêmicos israelenses simplesmente não são mais bem-vindos em muitos cantos do mundo hoje. A guerra brutal de Israel também deu cobertura para os antissemitas saírem debaixo das pedras.

Nenhuma surpresa. Porque, embora Netanyahu tenha derrotado o Hamas militarmente, ele nunca cultivou ou acolheu uma alternativa palestina moderada. Assim, matar todos esses civis palestinos durante a guerra pareceu exatamente isso para o resto do mundo: matança, pura e simples, não para abrir caminho para uma melhor governança palestina, mas para abrir caminho para a ausência de palestinos em Gaza.

Vamos fazer as contas: Israel gastou bilhões de dólares, destruiu sua reputação internacional, perdeu grande parte de seu apoio nos partidos liberais dos Estados Unidos e da Europa —e o Hamas ainda está no comando de 40% de Gaza. Hoje a perspectiva de paz com os palestinos é zero.

Muitas dessas decisões foram tomadas para que Netanyahu pudesse manter o apoio dos extremistas de direita que o mantêm no poder e evitar uma possível pena de prisão por acusações de corrupção.

Agora você sabe por que Bibi está fazendo tudo o que pode para anular um inquérito israelense, liderado por tribunais, sobre a falha em prevenir os ataques de 7 de outubro que poderia minar suas chances de reeleição.

Quanto ao Hamas, ele também não terá comissão de inquérito. Qualquer que seja a vitória tática de relações públicas que tenha conquistado para a causa palestina, ele não pode traduzi-la em um ganho político duradouro para a criação de um Estado palestino, porque ele, assim como Netanyahu, recusa-se a abraçar a ideia de que a terra entre o rio e o mar pode ser compartilhada por dois povos.

Portanto, os cerca de 2 milhões de palestinos em Gaza estão agora vivendo na maior miséria de todos os tempos. Bela vitória.

Isso só é páreo para a “vitória” do Hezbollah no Líbano. O Hezbollah arrastou todo o Líbano para uma guerra com Israel na qual ninguém no Líbano votou e que, obviamente, foi feita a mando e para os interesses do Irã. Porque, antes de 7 de outubro de 2023, Israel não ocupava um centímetro sequer do território libanês.

Agora, Israel tem tropas por todo o sul do Líbano e respondeu aos ataques do Hezbollah ao norte de Israel esmagando vilas xiitas na região e bairros xiitas em Beirute. Cerca de 1 milhão de libaneses foram transformados em refugiados em seu próprio país, e o Hezbollah se expôs pelo que é: um exército mercenário agindo de acordo com os interesses de seus financiadores iranianos, não de acordo com os interesses do Líbano ou mesmo dos xiitas libaneses.

Portanto, não espere uma comissão de inquérito do Hezbollah.

Quanto ao front do Irã, agora está claro que o presidente Donald Trump e Netanyahu iniciaram uma guerra contra o regime islâmico para derrubá-lo por meio de bombardeios aéreos e não tinham um plano B, caso o plano A falhasse —o que aconteceu.

O Irã, infelizmente, tinha um plano B e um plano C. Uma vez que o regime sobreviveu ao ataque inicial dos EUA e de Israel —embora com a perda de dezenas de altos funcionários e comandantes militares e de muito equipamento militar— o Irã bloqueou o estreito de Hormuz, sufocando cerca de 20% do fornecimento global de petróleo bruto.

Também atacou os aliados árabes dos Estados Unidos no Golfo, enviando, na prática, uma mensagem a Trump: “Se vocês nos matarem, nós os desestabilizaremos e, então, vocês verão de verdade uma crise global de petróleo”.

Os líderes sombrios do Irã não querem saber de nenhuma comissão de inquérito, porque, embora eles tivessem os planos B e C para garantir a sobrevivência de seu regime, eles não tinham um lano D para que o povo iraniano prosperasse.

A primeira pergunta que uma comissão de inquérito iraniana certamente faria seria: “Exatamente o que vocês alcançaram com os bilhões de dólares que gastaram tentando construir uma arma nuclear e estender o imperialismo iraniano sobre o Líbano, o Iraque, o Iêmen, a Síria e os estados do Golfo Árabe?”.

Os líderes do Irã sabem que essa pergunta virá de seu próprio povo, então é melhor para eles manter a guerra em andamento para não precisarem respondê-la. (Não é surpresa para mim que eles tenham abatido um helicóptero dos EUA em Hormuz.)

Quanto a Trump, ele ainda pode salvar alguma coisa dessa guerra se conseguir persuadir Teerã a entregar todo o seu urânio quase próprio para a fabricação de bombas. Eu espero que sim. Isso seria importante. Mas, nesta fase, isso só acontece se Trump der uma sobrevida a esse terrível regime em Teerã.

Isso porque o Irã certamente não concordará em abandonar seus materiais nucleares a menos que Trump, pelo menos tacitamente, aceite o controle de fato do Irã sobre Hormuz (a arma de desestabilização em massa do Irã), a transferência de bilhões de dólares em ativos congelados para o Irã e a suspensão das sanções econômicas.

Um presidente dos EUA que prometeu a “rendição incondicional” do Irã estará garantindo sua sobrevivência ilimitada. Não creio que Trump deseje que qualquer comissão de inquérito do Congresso examine a arte da negociação.

Resumindo: a guerra que começou em 7 de outubro de 2023 foi iniciada e levada adiante por homens muito maus, que consistentemente colocaram seus próprios interesses e fantasias à frente dos sonhos simples de seus povos por uma vida decente.

Se você está procurando um raio de esperança, ele estaria no fato de que toda essa dor obrigue todos os envolvidos a aceitar um cessar-fogo. E, então, que esse cessar-fogo abra espaço para a política —para comissões populares de investigação que digam aos líderes do Irã, de Gaza, do Hezbollah, de Israel e dos Estados Unidos que criaram toda essa situação: “O que vocês tinham na cabeça? Vão embora daqui”.

Fonte: Folha de São Paulo

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