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Norman Finkelstein ecoa velhos estereótipos antissemitas – 10/06/2026 – Mundo

A linguagem empregada por Norman Finkelstein, no sentido de que críticas a Israel seriam instrumentalmente silenciadas por organizações poderosas e por interesses financeiros, ligados ao establishment judaico norte-americano, ecoa velhos estereótipos antissemitas sobre influência oculta, poder financeiro e manipulação política, temas centrais do antissemitismo europeu, dos séculos 19 e 20.

O ódio aos judeus não decorre do sofrimento que a guerra, como as guerras em geral, impõe às populações civis. Críticas a políticas governamentais são legítimas e devem ser feitas —a oposição e a imprensa israelenses são os melhores exemplos disso—, mas o hiperfoco no Oriente Médio, ignorando vítimas de outras regiões em conflito, onde igualmente existe sofrimento das populações que lá se encontram, demonstra claramente a seletividade de Finkelstein, que se alinha com ditadores e autocratas em outras guerras e na repressão à população civil.

A resposta de Israel ao Hamas e ao eixo liderado pelos aiatolás se deu em sequência a uma agressão que incluiu assassinatos, estupros e sequestros de centenas de civis, incluindo mulheres, idosos e crianças, crimes contra a humanidade que estão sendo investigados em tribunais internacionais.

A comparação de Gaza com o Gueto de Varsóvia não se sustenta. Este foi imposto pelos nazistas a civis judeus desarmados. Gaza é um território do qual Israel se retirou há mais de 20 anos, administrado de facto pelo Hamas —um grupo político e militar armado pelo Irã, com arsenais de foguetes, mísseis e túneis subterrâneos, como se viu.

Goebbels estava errado: nem repetida mil vezes, uma mentira vira verdade. Tentar imputar a Israel o papel de agressor no atual conflito pode dar aos antissemitas uma vantagem imediata, mas se é fato que a mentira é bem mais rápida na largada que a verdade, a História é maratona, não uma corrida de cem metros rasos.

As acusações de “genocídio” começaram antes mesmo da resposta ao pogrom de 7 de outubro —ainda não julgadas pela Corte Internacional de Justiça—, onde a prova da intencionalidade (dolus specialis), exigida pela Convenção da ONU de 1948 e ainda não realizada, após dois anos e meio do início do processo, será necessária.

Não foi a guerra que fez crescer o antissemitismo e o ódio aos judeus. Funciona ao contrário. São os antissemitas que buscam, periodicamente, pretextos para destilar seu ódio. A guerra fez explodir o abscesso que, de tempos em tempos, se desenvolve.

Há pouco mais de oito décadas, o continente europeu caiu como uma fruta madura diante das tropas nazistas, que só vieram a enfrentar resistência real quando tentaram conquistar a União Soviética e com a entrada dos Estados Unidos no cenário da guerra. Os fatos atuais revelam que o vírus do antissemitismo esteve apenas hibernando, esperando um ambiente propício para voltar a eclodir.

Defender que a existência de Israel coloca em risco os judeus em escala global não resiste ao confronto com a realidade, que deve ser o critério, em última instância, para a aferição da verdade. A Inquisição, o Holocausto e a perseguição aos judeus em vários países foram anteriores ao estabelecimento do moderno Estado de Israel.

No atual conflito, o antissemitismo na Europa Ocidental, nas Américas e na Oceania, amplificado por líderes políticos irresponsáveis ou abertamente racistas contra os judeus, não indaga qual a posição das vítimas em relação a Israel e a suas políticas. Foi assim em Washington, Sydney, Londres e em várias outras capitais onde judeus foram alvos de esfaqueamentos e assassinatos, e sinagogas e escolas judaicas foram atacadas.

Judeus que moram fora de Israel não são alvos legítimos, por qualquer métrica que se use. Não têm responsabilidade nem agência sobre decisões de governos israelenses. O responsável pelo racismo é sempre o perpetrador, não a vítima. Essa é uma forma bem particular de racismo, e seu nome é antissemitismo.

Em suma, Finkelstein erra o alvo. Na análise dos efeitos do Holocausto e nas causas do antissemitismo. E dois erros não fazem um acerto.

Fonte: Folha de São Paulo

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