Jonathan Haidt, psicólogo social e autor, está na linha de frente das batalhas universitárias sobre liberdade de expressão há mais de uma década, alertando que o sistema educacional americano tem servido mal uma geração de jovens ao protegê-los excessivamente de ideias que possam considerar perturbadoras.
Agora, ele se vê envolvido em uma controvérsia sobre liberdade de expressão em sua própria universidade.
Líderes do diretório estudantil da New York University estão contestando sua escolha como orador da cerimônia de formatura no Yankee Stadium —classificando-a como “profundamente perturbadora”— e, em uma carta, pediram aos dirigentes da universidade que reconsiderassem a decisão antes da cerimônia.
Não é incomum que alguns estudantes protestem contra um orador de formatura, e a NYU pretende manter o convite a Haidt, segundo um porta-voz, Wiley Norvell, que o descreveu como “um dos acadêmicos mais influentes do século 21”.
Mas, para os apoiadores de Haidt, o simbolismo é inconfundível. A controvérsia poderia até se encaixar em um de seus próprios livros: um pequeno grupo de estudantes tenta cancelar um crítico declarado da cultura do cancelamento, alguém que afirma que a educação americana tem falhado gravemente em expor os jovens a perspectivas diferentes das suas.
Já para os estudantes insatisfeitos, a escolha representa um desprezo pelos seus valores em um momento que deveria ser especial para eles.
Quando a NYU fez o anúncio há duas semanas, alguns estudantes começaram a examinar os textos e discursos de Haidt e depois tornaram públicas suas preocupações. Eles se ofenderam com algumas de suas declarações, bem como com uma aula de 2014.
Em seus livros e aparições públicas, Haidt tem sido altamente crítico da cultura na qual muitos jovens adultos de hoje foram criados.
Em seu livro de maior destaque, The Coddling of the American Mind (a superproteção da mente americana, em tradução livre), ele e seu coautor, Greg Lukianoff, argumentaram que as escolas cultivaram uma mentalidade de fragilidade, tornando a segurança pessoal prioridade máxima e reduzindo a ênfase em habilidades de resolução de problemas.
Eles concluíram que os estudantes foram protegidos de situações desconfortáveis e ideias perturbadoras, deixando-os despreparados para lidar com dificuldades na vida adulta.
Alguns estudantes da NYU que acreditam que Haidt é a escolha errada disseram que seu objetivo não é silenciá-lo.
“Não acho que estudantes dizendo que o orador não representa nossos valores seja a mesma coisa que estudantes incapazes de ouvir pontos de vista opostos”, disse Grayson Stevenson, presidente da turma de segundo ano da NYU que está deixando o cargo. “São duas coisas muito diferentes.”
Ele e os líderes estudantis apontaram as críticas de Haidt aos esforços de diversidade, equidade e inclusão. (Haidt disse em 2022 que renunciaria a uma sociedade profissional porque a organização pediu aos apresentadores de sua conferência anual que explicassem como seus trabalhos promoviam os objetivos de equidade e antirracismo do grupo.)
Na carta, os estudantes expressaram choque pelo fato de a NYU não conseguir encontrar um orador “cujas pesquisas e contribuições globais reflitam de maneira mais precisa os valores e a diversidade de seus formandos”. Eles observaram que, em anos anteriores, os oradores incluíram Taylor Swift, Sonia Sotomayor e o advogado David Boies.
“Muitos estudantes relataram sentimentos de decepção, repulsa, desânimo, derrota e vergonha”, continuava a carta, lamentando que o momento de celebração tenha “se transformado em mais um episódio de incompreensão”.
Os líderes estudantis não responderam aos pedidos de comentário. Haidt não abordou diretamente a controvérsia, mas, por meio de uma porta-voz, afirmou estar “profundamente honrado” com o convite.
Pamela Paresky, psicóloga que ajudou na pesquisa de “Coddling”, disse que Haidt se esforçou bastante para ser justo em suas críticas. Durante a edição do livro, ela contou que eles contrataram leitores de sensibilidade por iniciativa própria, em parte porque esperavam reações negativas. Mas isso nunca realmente aconteceu, segundo ela.
“Ele sempre foi muito bom em apresentar os dois lados e fortalecer o melhor argumento possível da posição oposta”, acrescentou.
Haidt, professor da escola de negócios da NYU, também conta com defensores entre os estudantes. Hannah Swartz, uma formanda de psicologia, disse que ele a ajudou entusiasticamente a criar um grupo voltado para pessoas interessadas em reduzir divisões e promover diálogo.
“Não é que ele esteja culpando nossa geração pela forma como somos”, afirmou. “Ele está tentando nos dar ferramentas para enfrentar o mundo.”
A reação negativa no campus ocorre após dois anos e meio de intensas disputas sobre liberdade de expressão, especialmente em torno de protestos pró-Palestina. A NYU tem sido particularmente firme ao confrontar ativismos que considera violações das normas de conduta estudantil.
Para alguns formandos da NYU, a escolha de Haidt pareceu uma indignidade final. “Um último presente de despedida marcado pelo desrespeito”, escreveu Mehr Kotval, estudante veterana e editora do jornal estudantil.
Ela observou que, neste ano, a universidade exigiu que alguns discursos estudantis de formatura fossem gravados previamente, em resposta às reclamações do ano passado sobre uma estudante que criticou Israel em seu discurso.
As mesmas regras, no entanto, não se aplicam a oradores convidados como Haidt.
Em entrevista, Kotval destacou que ele inspirou uma iniciativa no campus para incentivar os estudantes a deixarem de lado seus dispositivos e interagirem pessoalmente.
“Então parece um pouco hipócrita que depois eles digam que estão retirando os discursos presenciais ao vivo”, afirmou ela, acrescentando: “e que vão mostrá-los em uma tela.”




