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IA desafia materialismo e levanta questões sobre alma – 15/05/2026 – Ross Douthat

As implicações da inteligência artificial para a religião têm recebido, até agora, um pouco menos de atenção do que suas implicações para o mercado de trabalho ou para a corrida armamentista entre Estados Unidos e China.

Mas enquanto aguardamos a palavra definitiva sobre o assunto —ou seja, é claro, a encíclica sobre IA que o papa Leão 14 supostamente lançará em breve— vale a pena fazer previsões sobre o futuro religioso sob as condições da inteligência artificial.

Em uma linha do tempo possível, o advento da IA é amplamente entendido como uma vitória para o ateísmo e um golpe contra as ideias religiosas de alma e espírito, persuadindo mais pessoas de que suas próprias mentes são apenas computadores —sem centelha divina ou alma imortal, apenas o equivalente de carne e osso de um chatbot prestativo ou de um terapeuta de IA.

Em outro futuro potencial, o mistério da consciência acaba parecendo mais profundo à sombra da inteligência de máquina, o místico encontra novo apelo como uma forma de experiência que os computadores não conseguem emular, e a religião se torna um lugar para os excepcionalistas humanos fincarem uma bandeira desafiadora.

Mas entre esses dois cenários há um futuro em que a IA aumenta principalmente a incerteza metafísica, deixando muitas pessoas simplesmente inquietas sobre questões fundamentais, cada vez mais “misterianas” em vez de claramente ateias ou devotas.

É assim que meus encontros com a cultura do Vale do Silício frequentemente me fazem sentir: sob uma carapaça materialista, é um lugar onde pessoas que não têm certeza exatamente do que estão construindo se aventuram na metafísica budista ou consultam padres católicos, adotam atitudes eclesiásticas ou sectárias em relação às suas novas criações ou se rebelam em profecias apocalípticas.

Para um exemplo mais específico dessa inquietação, considere o biólogo e escritor Richard Dawkins, decano dos materialistas científicos, que recentemente se expôs à zombaria da internet com um ensaio para o UnHerd descrevendo suas interações com o Claude da Anthropic.

A zombaria foi direcionada principalmente à primeira metade do ensaio, onde Dawkins, tentando testar se o Claude se apresenta como consciente, deixou-se deslumbrar —atônito! estupefato!— por uma mistura de bajulação transparente e excesso de palavras pseudofilosóficas. Como grande parte disso foi entregue (por sugestão do próprio Dawkins) na voz feminina “Claudia”, o eminente ateu frequentemente parecia estar descrevendo uma sedução em vez de uma avaliação científica.

Mas não devemos rir demais de Dawkins. Primeiro, os elementos mais tolos de sua reação são um testemunho da vulnerabilidade humana geral a pronunciamentos oraculares e apelos personalizados. Imagine o poder sedutor de Claudia expandido e estendido a pessoas que não têm os pressupostos céticos (bem, oficialmente céticos) de Dawkins.

Devemos presumir que muitas delas se relacionarão com a IA forte como alguém poderia se relacionar com um oráculo antigo ou uma esfinge, incertas sobre com o que estão lidando, mas incapazes de escapar de uma sensação de reverência sobrenatural.

Enquanto isso, em suas passagens menos apaixonadas, o ensaio de Dawkins circula em torno de uma questão importante para materialistas como ele. A origem e a natureza da consciência atualmente escapam à nossa compreensão, mas o bom darwiniano está comprometido com a proposição de que ela evoluiu para servir a algum propósito evolutivo crucial.

Mas se uma entidade digital parece exibir as capacidades que associamos a mentes conscientes, e não acreditamos que essa entidade seja realmente consciente, então qual é o verdadeiro propósito da consciência? Se podemos ter inteligência sem autoconsciência, um zumbi que calcula e fala, por que o eu existe afinal?

Não há escapatória óbvia do mistério aqui. Se você der o braço a torcer e simplesmente disser que o Claudia já alcançou a consciência, então isso implica que de alguma forma construímos uma mente consciente sem ter nenhuma ideia de como a consciência funciona ou de onde ela vem. Isso é ciência com características extremamente assustadoras: como Kevin Costner invocando fantasmas do beisebol para o milharal de Iowa, erguemos uma arquitetura material e o misterioso “eu” magicamente apareceu.

Alternativamente, se você disser que a IA não é consciente, mas meramente capaz, então a questão de por que experimentamos a realidade através da consciência —o “eu” interno, o senso de identidade pessoal e vontade— se torna muito mais difícil de responder.

Se a consciência não é necessária para a capacidade, então presumivelmente a evolução deveria optar por zumbis. E de fato Dawkins sugere que talvez seja assim, que nossa experiência mental pode ser um mero “ornamento” e quaisquer civilizações alienígenas que encontrarmos podem carecer do nosso senso de eu.

Mas como ornamento, desculpe, a consciência é insanamente improvável e bizarra. Não é apenas uma experiência personalizada estranha anexada aos mecanismos brutos da sobrevivência física. É uma experiência que por acaso se alinha exatamente com essa experiência, o teatro da mente espelhando a realidade, nosso senso de vontade e razão ligado diretamente às nossas ações e argumentos (incluindo argumentos a favor do materialismo).

Como certos filósofos argumentaram, essa harmonia entre o psicológico e o físico parece muito mais provável de aparecer em um universo onde a consciência é fundamental, onde a matéria não é tudo e a Mente é onde as coisas começam.

Nesse caso, talvez a conquista do Claude, ou Claudia se você preferir, seja nos mostrar como a inteligência poderia parecer no universo do materialista —mesmo enquanto nossa própria consciência indica que este universo é um lugar muito, muito mais estranho.


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Fonte: Folha de São Paulo

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