Quando se estende o tapete vermelho em Cannes, como nesta semana, sente-se a primeira lufada do verão na França. Tempo propício para o desfile de belas atrizes, atores, diretores, filmes jamais vistos e o charme da Côte d’Azur.
Só que, em 2026, o humor dos franceses passa ao largo do glamour: há pelo menos 20 casos-contato com o hantavírus no país, a crise energética ameaça complicar as férias de todo mundo, e o cenário político beira o caos.
Em seu último ano no Eliseu, Emmanuel Macron preside despedidas. Hoje ele garante que o hantavírus é situação controlada, embora o primeiro-ministro Sébastien Lecornu reaja no “modo crise” —além do alarme sanitário, o chefe do governo enfrenta a guerra no Oriente Médio, que vem flambando o preço dos combustíveis. Desde janeiro, a venda de carros elétricos cresceu 48% na França. Há também o pânico com os efeitos anunciados do El Niño nos próximos meses.
E daí vem a paisagem política. Faltando um ano para as eleições, há pelo menos 30 candidatos potenciais à Presidência, segundo a Revista Política e Parlamentar. É certo que muitos desistirão antes de oficializar a candidatura, porém, numa contagem realista, fala-se em 17 competidores. Analistas atribuem essa fragmentação ao declínio do sistema partidário e ao vazio de representação.
Por isso mesmo, vale olhar para o Barômetro Político de maio, uma enquete nacional do Instituto Ipsos para o jornal La Tribune Dimanche, medindo o grau de satisfação dos franceses.
Com relação a Macron, o levantamento apurou 21% de opiniões favoráveis, contra 75% de desfavoráveis. Quando pergunta quem deve suceder o presidente, vantagem para o campo conservador: Jordan Bardella (34%), Marine Le Pen (33%), Eric Ciotti (23%) e Marion Maréchal (23%). Nomes da direita, do centro e da esquerda pontuam bem abaixo. Comparando a rejeição dos extremos, vê-se que a ultradireitista Marine Le Pen tem 40%, e Jean-Luc Mélanchon, da esquerda radical, 55%.
Estes números devem mudar. Contudo, o Barômetro capta o que se passa na cabeça dos franceses. As maiores preocupações são, em ordem decrescente, a redução do poder de compra (49%), seguida da incerteza sobre o sistema social (41%) e o nível do endividamento (30%). São preocupações até maiores do que a rejeição aos imigrantes (26%), a proteção ambiental (24%) e as crises internacionais (23%).
Ainda que guerras de consequências duras para a Europa despertem na população francesa o desejo de proteção, tudo leva a crer que o pessimismo econômico será o principal vetor na escolha do futuro presidente. Investigado por dentro, este pessimismo, afetando 88% da população, mistura no mesmo balaio o peso da inflação, a carga de impostos e a manutenção incerta dos empregos, superando até o debate sobre aposentadorias.
São temas que deveriam gerar fricção entre os candidatos à Presidência, exibindo o que cada um pensa. Hoje, no noticiário francês, só se fala sobre candidaturas e qual será o voto útil de segundo turno que definirá o vencedor.
Mas as pesquisas quantitativas trazem algo diferente: a emergência de um eleitor interessado em quem lhe traga segurança de vida, sem importar de qual legenda venha. Falo do voto “sur les enjeux”, ou seja, o voto em torno de questões determinantes, muito mais programático do que partidário. Vamos ouvir falar dele nos próximos meses.
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