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Como não derrotar o antissemitismo – 08/05/2026 – Mundo

Como seria uma abordagem de “toda a sociedade” para derrotar o antissemitismo, do tipo previsto por Keir Starmer? É uma pergunta cuja resposta está em outra: qual é a causa do antissemitismo?

Algumas respostas podem e devem ser descartadas. “As ações de Israel no Oriente Médio“, por exemplo.

Não apenas porque o antissemitismo é um ódio que tem confortavelmente mais de mil anos, enquanto o Estado de Israel completa apenas 78 anos neste mês. Mas porque alguém que recorre à violência contra judeus em reação a o que o Estado de Israel faz já está seguindo uma lógica racista.

Eles estão buscando punir um grupo de pessoas pelo crime de outra pessoa. Eu me oponho às tarifas de Donald Trump e às ações no Oriente Médio. Não vou a uma área que sei que estará cheia de turistas americanos com uma faca na mão.

A questão importante, então, é por que o ódio étnico exerce um apelo tão duradouro. Por que as pessoas sentem prazer no racismo? E uso a palavra “racismo” de forma bastante deliberada, porque é isso que o antissemitismo é, mesmo quando se disfarça de roupagem religiosa ou geopolítica.

Como o historiador Ivan Marcus mostra em seu livro “How The West Became Antisemitic”, “o judeu como inimigo interno” é uma invenção medieval. Os cristãos chegaram a dizer que nem mesmo passar pelo batismo cristão poderia fazer dos homens judeus outra coisa que não judeus —uma afirmação completamente em desacordo com a teologia cristã. Na ausência de evidências bíblicas, os cristãos medievais essencialmente tiveram que inventar as suas próprias.

Por que eles queriam fazer isso? WEB Du Bois, ao tentar explicar por que americanos brancos da classe trabalhadora no Sul Profundo votavam em políticas que os empobreceriam para manter a segregação racial, inventou o conceito de “salário psicológico”.

Ao declarar outras pessoas como “negras” e, portanto, fora do escopo da branquitude, mesmo americanos brancos que haviam alcançado muito pouco em suas próprias vidas ganhavam uma medida de autoestima ao reivindicar que a “posse da terra” recaía sobre eles.

O racismo antijudaico permite, de forma semelhante, que as pessoas recebam um salário psicológico: seja declarando-se membros de uma raça ou religião superior, à qual os judeus nunca pertencerão, seja porque desbloqueia um mundo de conspirações e segredos ocultos que permite à pessoa que acredita neles se sentir mais inteligente e mais bem informada do que todos os outros.

Essa história importa porque é somente ao entender o apelo do racismo que podemos entender como combatê-lo. A verdade histórica é que o fluxo e refluxo da sorte dos judeus não tinha nada a ver com as ações dos judeus, com um Estado judeu ainda a ser fundado ou com “ansiedade econômica”.

O crescimento econômico permaneceu essencialmente estagnado durante todo o período medieval, que é o foco do livro de Marcus. Nos dias atuais, embora os conservadores tenham presidido um longo período de crescimento lento no Reino Unido de 2010 a 2024, não presidiram um período de piora nas relações raciais. A gestão econômica do Partido Trabalhista, tanto por razões sob seu controle quanto fora dele, não foi uma melhoria em relação ao último governo, mas tampouco é essa a causa do racismo encorajado no Reino Unido.

O que derrota o racismo é a disposição da sociedade civil e do Estado de fazer proselitismo contra ele. Ele é enfraquecido quando as pessoas sentem vergonha de expressar declarações racistas em público. E o que fortalece o racismo é a erosão do princípio geral de que não se pode ou não se deve punir indivíduos pelos crimes reais ou percebidos de um grupo étnico ou religioso, e a criação de um ambiente em que declarações racistas são proferidas sem constrangimento.

Não foi por acaso que a intolerância religiosa que levou a Europa católica a lançar cruzadas contra o cristianismo ortodoxo e o mundo muçulmano coincidiu com um declínio na condição dos judeus na Europa. Da mesma forma, o encorajamento do racismo de todos os tipos no Reino Unido hoje tem andado de mãos dadas com a ascensão do racismo especificamente antijudaico.

A lição do passado é clara: ver o racismo como reação a eventos no exterior, ou a deslocamentos econômicos, é equivocado. Tais eventos só desencadeiam aumentos no racismo se as sociedades não tiverem feito o suficiente para erradicar e condenar seu apelo latente.

Em segundo lugar, a melhor maneira de derrotar o racismo é defender a igualdade perante a lei, a liberdade de religião, a liberdade de expressão e o princípio antirracista geral de que indivíduos, não grupos, são responsáveis por suas ações, e que disputas são resolvidas nas urnas, não pela violência.

Enquanto a classe política se mobilizar contra o racismo de forma intermitente e irregular e for ambígua nesses pontos, o esforço de toda a sociedade para derrotar o antissemitismo estará fadado ao fracasso.

Fonte: Folha de São Paulo

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