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Israel: polícia corta bandeira palestina de quipá; entenda – 06/05/2026 – Mundo

Alex Sinclair entrou em um café na região central de Israel. Vestia um quipá, espécie de chapéu usado por homens judeus para expressar sua religiosidade. Não havia nada de incomum. A não ser pelas duas bandeiras estampadas no quipá —a de Israel e a da Palestina.

Um homem passou e, indignado, reclamou da vestimenta. Sinclair não deu ouvidos. “Cinco minutos depois, a polícia entrou e me deteve”, diz ele à Folha. Passou meia hora na delegacia. Devolveram o quipá quando, por fim, o soltaram. Mas tinham cortado a parte com a bandeira da Palestina.

O episódio, ocorrido no último dia 20, repercutiu em Israel. Não pela gravidade do ocorrido em si, mas pelo simbolismo. A imagem do quipá com a bandeira da Palestina mutilada gerou um intenso debate público, com destaque nos principais jornais, como o Haaretz e o Jerusalem Post.

“O que aconteceu comigo mostra o quanto a polícia foi politizada nos últimos anos em Israel”, diz Sinclair.

Apesar de não haver uma lei explícita contra o uso de bandeiras palestinas, as forças de segurança por vezes interpretam o símbolo como uma incitação à violência. Palestinos também sofrem essas restrições ao usarem melancias como símbolo, uma vez que a fruta tem cores parecidas com as da bandeira (preto, branco, vermelho e verde).

Sinclair, 53, nasceu em Londres e se mudou para Israel em 1997. Leciona na Universidade Hebraica, uma das instituições mais prestigiosas do país, e presta consultoria a organizações filantrópicas.

Descreve-se em dois eixos. “Sou uma pessoa religiosa de esquerda e acredito no direito dos judeus à autodeterminação e na sua conexão com esta terra”, diz. “Mas também acredito que os palestinos têm uma conexão com esta terra e que a solução de dois Estados é a única saída.”

A chamada solução de dois Estados é uma ideia que circula há décadas, propondo um Estado para os israelenses e outro para os palestinos, com o objetivo de encerrar o ciclo de violência. Essa possibilidade, no entanto, está cada vez mais remota. Entre outras razões, porque o governo de Israel tem expandido seus assentamentos na Cisjordânia, considerados ilegais pela comunidade internacional. Hoje, os palestinos controlam apenas trechos de um território fragmentado e não contíguo.

Sinclair quis que seu quipá refletisse sua religiosidade, seu comprometimento com Israel e seu apoio aos palestinos. Não existia tal quipá no mercado. “Não é um produto muito cobiçado”, brinca. Há 20 anos, encomendou o acessório sob medida em Jerusalém, com as bandeiras.

Segundo ele, o quipá suscitou reações variadas em duas décadas. Algumas delas incluíam desconhecidos dizendo coisas como “você enlouqueceu?” ou “você está usando a bandeira dos nossos inimigos???”

Seus amigos, inclusive, disseram-lhe, com o tempo, que não gostavam da vestimenta. “Tudo bem, não espero que todo o mundo concorde comigo”, afirma. “Mas, por isso, tivemos conversas complexas e importantes, e eu senti que passaram a me entender um pouco melhor.”

A situação mudou nos últimos anos, sugere. Em especial, desde que Itamar Ben-Gvir entrou para o governo de Binyamin Netanyahu, ocupando, desde 2022, a pasta da Segurança Nacional. “Israel está cada vez mais à direita religiosa e se tornando fascista“, diz Sinclair. “Acho que ainda não chegamos lá, só que estamos caminhando nessa direção.”

Ben-Gvir emergiu de correntes ultranacionalistas de direita. Chegou a fazer parte do movimento kahanista, que defendia, entre outras coisas, que apenas judeus pudessem votar em Israel. Ben-Gvir também foi criticado por manter, durante anos, um retrato de Baruch Goldstein em casa —homem que matou 29 palestinos em um atentado em Hebron, em 1994.

Sinclair diz, dessa maneira, que o conflito não é entre israelenses e palestinos, e sim entre moderados e extremistas de ambos os lados. “A maior parte está interessada na paz e na convivência, e vamos vencer.”

No meio-tempo, Sinclair afirma que pretende aproveitar toda a atenção dada à sua detenção para falar mais sobre a sua ideologia. “Quero trazer o holofote sobre aquilo em que acredito ser o melhor para o futuro deste país”, diz.

Estuda, agora, tomar medidas legais contra a polícia. À imprensa a corporação disse que investiga o ocorrido. “Durante o tratamento da ocorrência, o indivíduo foi levado à delegacia, onde, após esclarecimentos, acabou liberado. Como uma denúncia foi apresentada à Divisão de Investigações Internas da Polícia, vinculada ao Ministério da Justiça, não é possível fornecer mais detalhes neste momento”, disseram as autoridades em resposta à BBC.

O professor afirma ainda que planeja voltar à mesma loja onde, há 20 anos, encomendou seu quipá com as duas bandeiras.

Fonte: Folha de São Paulo

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