“Não tem mais tanto ouro quanto antes”, diz o joalheiro atrás de um balcão que expõe peças, quase todas prateadas, em uma loja de Pucallpa, no Peru. “Já não vem muito do Abujao, parece que empresas estrangeiras estão levando tudo agora”, continua, citando o afluente do rio que banha o município próximo à fronteira com o Brasil.
A mudança relatada pelo comerciante se deve a recentes transformações no comércio de ouro ilegal da região —algumas delas, decorrentes da presença do Comando Vermelho no garimpo do país vizinho, incluindo no rio Abujao, de acordo com autoridades locais.
A influência do grupo criminoso no Peru não é novidade. Desde meados de 2015, quando chegou ao Amazonas para rivalizar com o Primeiro Comando da Capital e facções locais, o Comando Vermelho se infiltrou também na economia ilegal do país vizinho, especialmente no tráfico de drogas e no contrabando de madeira nas áreas de fronteira.
Nos últimos anos, porém, o aumento vertiginoso do preço do ouro, em contraste com a estagnação do valor da cocaína, tornou o metal ainda mais atraente para os grupos criminosos que atuam na região. Segundo a ONG colombiana Fundação para a Conservação e o Desenvolvimento Sustentável, são 17 facções somente no noroeste da floresta tropical, onde fica Pucallpa.
O município é a capital de Ucayali, departamento do Peru que faz fronteira com o Acre. Apesar de seus mais de 300 mil habitantes, carrega ares de cidade pequena com ruas de terra abarrotadas de tuc-tucs, quase nenhum prédio e, com exceção de grandes bancos, apenas comércio local. Dali, é preciso percorrer mais de 100 km de floresta amazônica para chegar até a fronteira com o Brasil. Trata-se de uma área remota e com pouca fiscalização que se tornou terreno fértil para atividades ilegais, incluindo o garimpo.
Procuradas, a Polícia Federal brasileira e a polícia peruana não responderam até a publicação desta reportagem.
“Aqui tem muita mineração. Você cava um buraco e pode encontrar ouro”, afirmou o joalheiro do início do texto, que não quis se identificar à reportagem por questões de segurança. “Raimondi já dizia: ‘O peruano é um burro sentado num banco de ouro.'”
A autoria da frase infame nunca foi comprovada, mas é comumente atribuída ao geógrafo italiano Antonio Raimondi, que teve um papel central na cartografia do Peru no século 19. Foi com a ajuda das informações levantadas pelo naturalista que, em 1865, o peruano Paz Soldán fez um mapa mineral do país que se tornou uma espécie de carta de apresentação a investidores estrangeiros.
Mais de 160 anos depois, os minérios ainda são o grande chamariz do Peru. No ano passado, a mineração representou cerca de 67,5% do valor total exportado pelo país, o que corresponde a cerca de US$ 63 bilhões. O valor das exportações de ouro ilegal, por sua vez, poderiam passar de US$ 12 bilhões, segundo o Instituto Peruano de Economia, superando até mesmo o narcotráfico.
“O tráfico de drogas é muito mais difícil de operar. O ouro tem um mercado formal, e o seu preço subiu muito, ficando mais lucrativo até do que a cocaína”, afirma a cientista política Omayra Peña Jimenez, que estudou a mineração ilegal em Loreto, ao norte de Ucayali. “Essas organizações criminosas identificaram uma oportunidade de investimento que também permite lavagem de dinheiro.”
Nos últimos dez anos, o preço do ouro praticamente quadruplicou, enquanto o da cocaína ficou estável. Esse aumento, aliado ao trabalho que implica o cultivo de uma planta, tornou rentável a exploração até mesmo em locais que não são conhecidos por ter grandes reservas do minério, como Ucayali.
Embora os primeiros registros de garimpo no Abujao datem da década de 1980, a atividade oscilou desde então até ressurgir nos últimos sete anos. Influenciaram esse renascimento a Operação Mercúrio, que em 2019 empurrou criminosos de áreas como Madre de Diós, ao sul de Ucayali, e a pandemia de Covid-19, que diminuiu a presença policial de forma geral.
“Foi somente por volta de 2022 que essas áreas de mineração abandonadas no departamento começaram a ser reativadas”, diz o biólogo Sidney Novoa, diretor de tecnologias para conservação da ONG Conservação Amazônica.
Antes mesmo disso, o procurador de meio ambiente de Pucallpa, José Luis Guzmán, já havia detectado a presença do Comando Vermelho em Abujao, de acordo com informações de inteligência da polícia local e relatos de criminosos presos em Pucallpa.
“Antes de 2020, as pessoas chegavam de Abujao com pepitas”, afirma ele, cercado de pilhas de papéis na mesa do seu escritório, em um prédio sem qualquer segurança no centro de Pucallpa.
De acordo com o procurador, o ouro não chega mais aos joalheiros da cidade porque é enviado a mineradoras que têm concessão para operar, onde o mineral é lavado. “O grosso do dinheiro vai para o Brasil. Eles não investem aqui, exceto para diversão.”
Em meados de 2020, o procurador participou de uma operação para prender garimpeiros em Abujao, mas a única captura feita pela equipe, formada por 15 agentes, foi revertida quando criminosos os repeliram com tiros de armas de fogo. “Recuamos para poder planejar uma ação com mais poder de dissuasão”, diz. A operação nunca aconteceu.
A mineração nessa área coloca em risco a área de conservação Tamaya-Abujao, a reserva indígena Isconahua e o parque nacional Sierra del Divisor. O temor é que ocorra algo parecido com o que aconteceu no departamento de Madre de Diós —97,5% dos quase 140 mil hectares de área desmatada por mineração no Peru estão ali, de acordo com o Maap (Programa de Monitoramento da Amazônia Andina, na sigla em inglês).
“No aspecto ambiental, a mineração degradou a qualidade da água”, afirma Andrés González Torres, nascido na comunidade de Santa Rosa de Tamaya Tipishca, às margens do Abujao. O engenheiro de 31 anos atribui o câncer de sua mãe à contaminação do rio. “Os médicos mencionavam que a qualidade dos peixes que comíamos estava em péssima condição e que isso nos traria consequências.”
Socialmente, continua, o garimpo levou prostituição e tráfico de pessoas à sua comunidade, além de um certo “choque cultural”, como denominou. “Ver uma pessoa estrangeira ali virou sinônimo de que ela traz armas”, afirma. “Como não há ninguém para fiscalizá-los, acham que são donos do lugar. Eles reinam, tomam as decisões por cima das pessoas que vivem lá há anos.”




