É curioso quando o campo democrático duvida de si mesmo. Em tempos tão alterados, há quem tenha ironizado o encontro do último sábado (18) em Barcelona, patrocinado pelo primeiro-ministro espanhol, o socialista Pedro Sánchez, com a presença do presidente Lula e de líderes de 25 países.
Aqui e ali, comentários situaram esta 4ª Cúpula em Defesa da Democracia como um convescote progressista. Seria até simpático se não fosse inadequado.
Com guerras em curso e sem desfecho, somatória de centenas de milhares de vítimas, um autocrata disposto a invadir países e eliminar civilizações, repressão e encarceramento como políticas migratórias, enfim, com tudo o que acontece, motivos existem para falar de democracia, e não só: democracia em respeito ao direito internacional e aos direitos humanos.
Lula abordou em Barcelona o papel da ONU. Pediu que os membros do Conselho de Segurança busquem a paz “e parem com essa loucura de guerra”. Sánchez previu o esgotamento da internacional ultradireitista, que “só produziu guerra, inflação, desigualdade e fratura social”.
Enquanto discursava, o ultradireitista Matteo Salvini, vice-premiê italiano, animava ato público em Milão, para vitaminar justamente a agenda que Sánchez julga perder força.
Ponto alto do encontro em Barcelona foi o discurso da presidente mexicana, Claudia Sheinbaum. Um exemplo de oratória política. “Venho à Cúpula pela Democracia em nome de um povo trabalhador, criativo, lutador, mas, sobretudo, generoso. Um povo que aprendeu a resistir sem odiar; a defender seus direitos sem deixar de respeitar aos demais; a crer na paz, mesmo quando a história lhe impôs provas difíceis”.
Assim iniciou sua fala, mantendo a voz pausada. Ao repetir o bordão “venho de…”, repassou a história do México e seus heróis: Miguel Hidalgo y Costilla, que abriu o caminho da independência e aboliu a escravidão, passando por mulheres notáveis, como Leona Vicario, Josefa Ortiz Téllez-Giron e Frida Kahlo, o presidente indígena Benito Juárez, o legado de Zapata, Villa, Madero e outros.
Leu 1.344 palavras, por quase dez minutos, no fundo tratando do respeito devido ao seu país —cujos imigrantes, diga-se, Donald Trump chama de “estupradores”. E ainda selou a paz com a Espanha: em 2019, seu antecessor, o ex-presidente mexicano López Obrador, cobrou desculpas do rei Felipe 6º por abusos cometidos no período colonial. Com o silêncio de Madri, as relações diplomáticas dos dois países estiveram “em pausa”. Em março deste ano, o nobre admitiu publicamente erros do passado.
Sheinbaum refletiu também sobre a liberdade, “palavra vazia se não for acompanhada de justiça social, soberania e dignidade dos povos”. É o trecho onde questiona a “liberdade” de quem hoje quer converter nações em colônias modernas. Não chamou Trump pelo nome, nem precisaria.
Em dois outros momentos se aproximou do que pode ser outro desvario militarista do americano: “Venho recordar que o México soube sustentar seus princípios, mesmo sozinho. Que levantou a voz contra o bloqueio a Cuba em 1962, quando outros guardaram silêncio”. É uma verdade histórica.
Este belo discurso merece ser visto, revisto e guardado. Claudia Sheinbaum não falou só pelo México, mas por todas as nações preocupadas em garantir vida digna para as gerações atuais e futuras.
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