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General do Paquistão tenta mediar paz entre EUA e Irã – 22/04/2026 – Mundo

Ex-chefe de espionagem em duas ocasiões, o chefe do Estado-Maior do Exército do Paquistão, Asim Munir, adotou uma abordagem notável para intermediar um acordo historicamente difícil entre os Estados Unidos e o Irã.

Logo após presidir a reunião mais importante entre os arqui-inimigos de longa data, Munir passou vários dias em Teerã empunhando um “bastão de comando”, que denota patente militar, e alternando entre fardas e um blazer escuro em reuniões tanto com a liderança política do Irã quanto com suas forças de segurança e a Guarda Revolucionária.

Neste mês, Munir, a figura mais poderosa do Paquistão, manteve contato telefônico com a Casa Branca, afirmam pessoas próximas ao marechal. Ele construiu essa relação com base em um revigorado relacionamento EUA-Paquistão, forjado com acordos envolvendo minerais, criptomoedas e imóveis em Manhattan, além da indicação do presidente americano Donald Trump ao Prêmio Nobel da Paz por parte de Islamabad.

Com pouca experiência em negociações anteriores entre EUA e Irã, o Paquistão surgiu como um mediador surpreendente. Porém, enfrenta seu maior teste após tentativas fracassadas de retomar as conversas esta semana.

Munir se juntou a uma longa fila de intermediários, de nações europeias ao Qatar e Omã, que tentaram, com sucesso limitado, intermediar uma resolução para a antiga inimizade entre EUA e Irã.

A abordagem paquistanesa difere drasticamente das mediações anteriores sobre o programa nuclear iraniano como, por exemplo, as negociações tortuosas de quase dois anos em Genebra e Viena que selaram o acordo nuclear de 2015 assinado por Teerã com o governo Obama.

Autoridades europeias que mediaram aquele acordo também buscavam os interesses de seus próprios Estados, já que seriam parte do acordo. Todas as equipes dependiam de grandes grupos de especialistas reunidos por horas. Trump posteriormente abandonou esse acordo.

Munir, por sua vez, combinou conexões com o establishment de segurança iraniano com laços pessoais com o imprevisível presidente americano que, na semana passada, chamou-o de fantástico. Ele também tem “boas conexões” com a Guarda Revolucionária e “entende a linguagem deles”, disse Ali Vaez, especialista em Irã do think tank International Crisis Group.

Vaez disse que, ao passar dias em Teerã, interagindo tanto com diplomatas quanto com o corpo militar, Munir estava tentando “uma abordagem de mediação envolvendo todo o sistema”. “Isso ajuda a criar consenso, porque não há centro de poder [no Irã] que se sinta excluído”, afirmou.

Os esforços de Munir para trazer as partes em conflito de volta à mesa de negociações chegaram a um impasse na terça (21), quando o Irã resistiu à pressão para retornar a Islamabad para conversas com os EUA.

Esse revés evidenciou a magnitude da tarefa de Munir enquanto ele lida com a profunda desconfiança entre os inimigos. Seus esforços foram prejudicados pela insistência de Trump de que um bloqueio naval americano aos portos iranianos permanecerá até que um acordo seja fechado, bem como pela recusa de Teerã em reabrir totalmente o estreito de Hormuz.

Trump concordou em estender o cessar-fogo, citando um pedido de Munir e do premiê do Paquistão, Shehbaz Sharif. Mas houve pouco progresso nos principais pontos de discórdia: o programa de enriquecimento do Irã e seu estoque de urânio altamente enriquecido.

Autoridades paquistanesas insistem que ainda estão trabalhando para superar as divergências. Mas Munir precisa lidar com o imprevisível e beligerante presidente americano e com um regime altamente desconfiado e linha-dura em Teerã que acredita estar em vantagem.

“É o problema perene de quem vai ceder primeiro”, disse Vaez. “A menos que Trump recue no bloqueio [naval americano], não vejo como os iranianos concordariam em participar.”

A maioria dos mediadores do conflito entre EUA e Irã não conseguiu entregar resultados duradouros. Depois que Trump abandonou o acordo nuclear de 2015 durante seu primeiro mandato, a União Europeia (UE) e o chamado E3 (Reino Unido, França e Alemanha), posteriormente facilitaram conversas indiretas entre o governo Biden e Teerã, mas não conseguiram reviver o acordo.

Quando Trump voltou ao cargo e decidiu realizar conversas indiretas com Teerã, Omã se tornou o principal facilitador. Mas Trump queria um acordo rápido e exigiu que o Irã desistisse de sua capacidade de enriquecer urânio —uma linha vermelha para Teerã. Duas vezes durante as negociações, Trump ordenou ataques ao Irã.

Depois que Trump lançou a última guerra em fevereiro, os Estados do Golfo se viram sob fogo, e o Paquistão entrou na disputa diplomática.

Islamabad aprofundou seu relacionamento com Teerã, apesar de os dois lados terem trocado ataques transfronteiriços em 2024. Os serviços de inteligência do Paquistão colaboraram estreitamente com a Guarda Revolucionária do Irã para eliminar separatistas balúchis e rotas de contrabando ao longo da fronteira compartilhada de 900 km, disseram autoridades paquistanesas.

Durante seus períodos à frente da agência de Inteligência Inter-Serviços do Paquistão e da ala de inteligência militar, Munir se familiarizou com as várias bases de poder do Irã. Neste mês, ele visitou o quartel-general do comando militar conjunto do Irã em Teerã e se reuniu com seu chefe, o major-general Ali Abdollahi.

A ascensão do marechal de campo à órbita de Trump foi mais improvável, ajudada por uma enxurrada de acordos entre EUA e Paquistão e pela recusa de Islamabad em criticar o presidente durante a guerra contra o Irã, mesmo enquanto condenava o Irã por seus ataques aos Estados do Golfo.

Munir se propôs a atuar como intermediário no verão passado, pouco depois de os EUA se juntarem à guerra de 12 dias de Israel contra o Irã para bombardear instalações nucleares iranianas, segundo pessoas próximas. Naquela época, ele havia recentemente se encontrado com Trump e participado de uma reunião com o falecido aiatolá Ali Khamenei.

O marechal de campo também se encontrou com Zach Witkoff, filho do enviado especial americano Steve Witkoff, pelo menos duas vezes, e autoridades paquistanesas assinaram acordos com o empreendimento de criptomoedas apoiado por Trump, World Liberty Financial, do Witkoff mais jovem.

Esse relacionamento colocou o Paquistão “no radar de Steve”, disse uma autoridade paquistanesa, e ajudou a construir uma relação de trabalho entre Munir e os assessores de Trump.

Mas sustentando a ofensiva de charme do Paquistão, disseram autoridades atuais e ex-autoridades paquistanesas e americanas, também há um medo persistente de que Trump possa se voltar contra Islamabad, apertar as sanções ao seu programa de mísseis balísticos e remover um resgate de US$ 7 bilhões do FMI.

Munir também precisa lidar com a desconfiança do Irã em relação ao papel do Paquistão, ligada à dependência de Islamabad em relação aos EUA e Arábia Saudita, país com o qual Paquistão assinou um acordo de defesa mútua no ano passado.

“O Paquistão não é verdadeiramente uma parte neutra nisso”, diz Farzana Shaikh, pesquisadora associada do Chatham House em Londres. “Ele tem uma relação de patrono-cliente com os EUA e os Estados do Golfo, além do interesse de impedir o caminho do Irã para uma arma nuclear.”

Grande parte de sua população simpatiza com o Irã, particularmente a minoria xiita de 40 milhões de pessoas. Mas “os interesses políticos do establishment militar convergem mais claramente com os dos EUA”, disse Shaikh.

Em Teerã, cresceram os temores de que os EUA estejam usando as negociações como um ardil para retomar a guerra, já que Trump manteve o bloqueio naval e se gabou esta semana de que o Irã havia concordado com a maioria de suas exigências.

Teerã ridicularizou os comentários de Trump, e Mohammad Bagher Ghalibaf, o principal negociador do Irã, disse esta semana que não negociaria “sob a sombra de ameaças”.

“Em Teerã, eles teriam dado a ele [Munir] um momento difícil e questionado por que ele estava pressionando tanto pela mediação —se era genuíno ou se ele fazia parte de um ardil para fazê-los baixar a guarda”, disse Vali Nasr, ex-autoridade americana e professor da Universidade Johns Hopkins.

Nasr disse que os paquistaneses eram interlocutores sérios, “mas o que eles não podem entregar são garantias sobre o comportamento de Trump”. “Eles não podem dizer que prometemos que os EUA não farão A, B, C”, disse Nasr. “E não há nada que Munir possa fazer sobre isso.”

Munir conhece a Guarda Revolucionária e poderia falar “a linguagem de militar para militar”, acrescentou Nasr, mas ele “não tem um relacionamento profundo com eles”.

Depois que Munir retornou a Islamabad na semana passada vindo de Teerã, mediadores paquistaneses disseram à Casa Branca e a aliados regionais que estavam confiantes de que o Irã participaria das conversas, disseram duas pessoas familiarizadas com o assunto.

Em antecipação, as autoridades bloquearam grandes áreas da cidade e mobilizaram milhares de militares. Esperando um acordo provisório, eles se prepararam para cobrir Islamabad com placas celebrando um “Acordo de Paz de Islamabad”, disse uma autoridade.

Quando esses esforços fracassaram, autoridades paquistanesas não fizeram comentários públicos sobre o bloqueio naval de Trump —o principal ponto de discórdia do Irã— e em vez disso pareceram culpar Teerã. “O Paquistão fez esforços sinceros para convencer a liderança iraniana a participar”, escreveu o porta-voz do governo na rede social X.

Islamabad adotou uma abordagem semelhante quando a ofensiva contínua de Israel contra o Hezbollah no Líbano ameaçou descarrilar o cessar-fogo entre EUA e Irã. Sharif havia declarado publicamente —em linha com a interpretação do Irã— que o Líbano estava incluído na trégua. Mas Islamabad não contestou abertamente a afirmação dos EUA e de Israel de que não estava, enquanto Israel lançava uma enorme campanha de bombardeio no Líbano.

Em vez disso, Munir, Sharif e o ministro das Relações Exteriores Ishaq Dar pediram em particular aos EUA e governos europeus que pressionassem Israel a interromper seu ataque, segundo fontes.

O silêncio público do Paquistão levantou questões sobre a neutralidade de Islamabad dentro do Irã e de países que apoiam os esforços de mediação, disseram dois diplomatas regionais.

Os discursos de Trump no Truth Social denegrindo o Irã, suas ameaças de aniquilar “toda a civilização” iraniana e afirmações de que o Irã havia implorado por um acordo também tornaram o processo muito mais difícil, disseram eles.

“Eles [o governo Trump] são imprudentes”, disse um diplomata envolvido no canal paralelo liderado pelo Paquistão.

Vaez disse que o papel do Paquistão também foi prejudicado por sua deferência a Trump e seu desejo por resultados rápidos. A viagem de 21 horas do vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, ao Paquistão, no início deste mês, é insignificante em comparação com os 19 dias que o ex-secretário de Estado americano John Kerry passou em Viena negociando o acordo nuclear de 160 páginas de 2015.

“Até agora, os paquistaneses estão principalmente tentando convencer os iranianos a aceitar a posição americana e não necessariamente tentando apresentar ideias criativas sobre como superar as divergências”, disse ele.

“Eles não são tão experientes quanto os qatarianos ou omanis, e tendem a pressionar um lado ou outro a mostrar flexibilidade —em vez de apresentar soluções próprias.”

Fonte: Folha de São Paulo

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