“Faltam 133 dias para que os imigrantes ilegais deixem nossa pátria. Se não o fizerem voluntariamente, iremos atrás deles.”
A frase foi dita pelo então candidato à Presidência do Chile José Antonio Kast em um evento em outubro do ano passado. O slogan virou uma contagem regressiva diária aos 336 mil estrangeiros sem documentos no país sobre o tempo que lhes restava para sair antes que ele chegasse ao poder.
Um mês após tomar posse, o ultradireitista tem buscado cumprir a promessa e ordenou uma série de medidas contra estrangeiros em situação irregular. Imigrantes que vivem no país relatam à Folha uma rotina marcada por medo e incerteza.
Muitos mudaram hábitos e passaram a andar sempre com documentos à mão por receio de abordagens policiais. É unânime a sensação de aumento da xenofobia e de que os estrangeiros estão sendo usados como bodes expiatórios pelos problemas do país.
O venezuelano Roberto Delgado Gil, 41, vive no Chile há dez anos e administra uma empresa de consultoria para imigrantes. Segundo ele, há pessoas que decidiram ir embora, além de clientes que estão considerando deixar o país.
“Nos últimos anos, especialmente com o discurso que associa imigração à criminalidade, cresceu muito a estigmatização. Mesmo quem vive aqui há anos, como eu, passou a sentir isso. Você anda na rua tentando ser invisível, com medo de ser julgado pelo sotaque ou pela aparência”, afirma.
Para Gil, a campanha de Kast e suas primeiras decisões no cargo foram decisivas para agravar esse clima. Segundo o serviço de imigração do Chile, 2.180 venezuelanos deixaram o país desde a eleição.
“É um medo constante. Conversei com a esposa de um mecânico sem documento que trabalha consertando viaturas da polícia. Imagina a tensão. Mães venezuelanas com filhos chilenos se perguntam o que vai acontecer, se elas serão separadas de seus filhos.”
A medida mais recente a inquietar os imigrantes foi a realização do primeiro voo de deportação que, segundo o governo, transportou 40 estrangeiros. O avião saiu na quinta-feira (16) da cidade de Iquique, no norte, com destino a Bolívia, Colômbia e Equador. A gestão disse que esse é “o primeiro de muitos” voos do tipo.
Do total de deportados, 15 foram expulsos por ordem judicial por crimes como roubo e tráfico de drogas, enquanto 25 enfrentavam processos administrativas, de acordo com o governo.
Já na posse, em 11 de março, o ultradireitista ordenou a construção de muros e valas ao longo da fronteira norte —a rota usada por imigrantes, especialmente venezuelanos, haitianos e colombianos, que chegam ao Chile via Bolívia e Peru. O plano prevê ainda drones, sensores de vigilância e reforço militar.
A obra imita a iniciativa do presidente Donald Trump em seu primeiro mandato nos EUA, mas a escavação de valas não é exatamente novidade. Em 2017, a então presidente de esquerda Michelle Bachelet mandou construir barreiras do tipo na mesma região de Tarapacá, no norte, sem produzir efeitos concretos nas estatísticas.
O Chile viu sua população imigrante crescer de forma expressiva nas últimas décadas. Em 2010, o país tinha cerca de 305 mil estrangeiros. Em 2018, esse número saltou para 1,3 milhão, e colombianos e haitianos formavam a maior parcela.
A virada veio a partir de 2019, com o aprofundamento da crise humanitária e política na Venezuela. A entrada de venezuelanos cresceu rapidamente e eles se tornaram a principal nacionalidade estrangeira no Chile. Em 2023, dado mais recente do governo, eles representavam 38% dos imigrantes, quase 729 mil, seguidos de peruanos (13,6%), colombianos (10,9%) e haitianos (9,8%).
A professora Clara (nome fictício), 40, entrou no Chile justamente neste período. Ela, que pediu que seu nome fosse alterado pois ainda não está com seu processo regularizado, saiu da Venezuela em maio de 2021 e pagou US$ 900 (cerca de R$ 4.700 na cotação atual) para fazer a viagem com um grupo de desconhecidos.
Atravessou Colômbia, Equador, Peru e Bolívia antes de chegar ao Chile. No caminho, que durou 15 dias, cruzou um rio a pé com correnteza forte, dormiu em galpões abandonados e presenciou o pagamento de propina perto de cada uma das fronteiras pelas quais passou, sempre a pé e de noite.
Quando finalmente chegou a Santiago, pediu refúgio com base em perseguição política. Conseguiu um visto temporário, mas teve o pedido negado. Hoje Clara aguarda uma solicitação de regularização extraordinária enquanto trabalha como cuidadora de idosos. Devido à atual situação, passou a andar com uma pasta com a cópia de todos os documentos do seu pedido.
“Tudo mudou desde que começaram as propagandas políticas. Para eles, os imigrantes, especialmente os venezuelanos, foram apontados como culpados por sequestros, assassinatos, tudo de ruim”, afirma.
A mãe de Clara imigrou depois e está no Chile há três anos, trabalhando em uma área de comércio popular. Ela conta que a presença policial cresceu no local. “Minha mãe, que anda de ônibus, tem que descer justamente onde fazem as fiscalizações. Toda vez que vê um policial, tenta mudar de lugar ou descer [no ponto] mais adiante. Sempre há medo”, diz.
A entrada irregular, segundo a lei migratória chilena, é uma infração administrativa —não um crime. Muitas pessoas fazem a chamada autodenúncia às autoridades e apresentam um pedido de regularização.
“Após solicitarem refúgio, as pessoas recebem um visto temporário de oito meses, que é renovável. Isso facilita o acesso a emprego e serviços, mas poucos conseguem dar entrada nesse processo em comparação com quem ingressa no país de forma irregular”, afirma Gil.
Se, ao fim do trâmite, o pedido de refúgio é negado, a pessoa volta à irregularidade. “Outro mecanismo disponível é solicitar uma regularização extraordinária, mas a taxa de resposta positiva também é extremamente baixa”, completa.
O novo governo quer endurecer mais a legislação. Kast apresentou um projeto que criminaliza a entrada de pessoas sem documentos. Além disso, o ultradireitista suspendeu a regularização de 182 mil imigrantes —um processo iniciado pelo antecessor, Gabriel Boric.
A justificativa dada pelo Serviço Nacional de Migrações é que 6.000 pessoas das 182 mil já cometeram um delito. O órgão não detalhou quais foram os crimes.
José Ragas, professor de história da Pontifícia Universidade Católica do Chile, afirma que o governo Kast apresenta as propostas de maneira improvisada. O próprio plano fronteiriço careceu de estudo técnico ou projeto. Ele diz acreditar que o prazo de 90 dias, citado pelo governo, é também irreal diante da extensão e das condições do território, que inclui áreas desérticas e de difícil acesso.
Ragas compara parte da estratégia atual com a adotada no governo de Sebastián Piñera (2010-2014 e 2018-2022), quando houve tentativas de dificultar a regularização como forma indireta de pressionar migrantes a deixar o país.
Na prática, porém, não há efeito, na sua visão. “A maioria permanece, mas em situação mais precária. Isso gera mais informalidade e menos informação sobre quem são e como vivem essas pessoas”, afirma.




