Cresce o debate sobre a saúde mental de Donald Trump. Tema antes abordado por democratas, hoje circula entre republicanos e até gente do Maga.
Quanto à população, ela se exprime nas pesquisas. Numa delas, da Reuters/Ipsos, 61% dos americanos dizem que o presidente ficou mais errático com a idade. Em outra, do YouGov, 49% afirmam que está velho para o cargo. E a imprensa começa a invocar a 25ª Emenda da Constituição, que trata do afastamento do chefe do Executivo por incapacidade grave.
O assunto deixa de ser tabu, e Trump contribui para isso. Ao desqualificar o papa Leão 14, líder de uma igreja com 1,4 bilhão de fiéis, ou quando se exibe travestido de Jesus numa trucagem de IA, atiça o questionamento sobre a própria sanidade. Afinal, alguém com miolos acredita que ele cure doentes com a imposição das mãos?
Na pancadaria contra Leão 14, primeiro papa americano da história, o presidente tem contado com ajudantes: o secretário Pete Hegseth (Defesa), que já provou entender de guerra como entende de salmos, e o vice-presidente J. D. Vance, neocatólico que se permite oferecer conselhos teológicos ao pontífice. Assim a loucura se amplia.
Dispensável rever os ataques de Trump e as reações de Leão 14, hoje em viagem à África. O sumo pontífice diz não temer o que vem da Casa Branca, e o autocrata mantém a diatribe. Campos demarcados. O Vaticano já informou que o papa, embora convidado, não irá aos EUA para celebrar os 250 anos da Independência americana, em 4 de julho. Estará em missão pastoral na ilha italiana de Lampedusa, visitando campos de imigrantes.
Comprar essa briga pode ser um tiro no pé para Trump. Suas ofensivas militares, cujos objetivos e desfechos patinam no mesmo atoleiro, já estão sendo julgadas pela opinião pública. Portanto, ao pedir “basta de guerra”, “basta de idolatria” e “basta de ostentação de poder”, Leão 14 vocaliza o que está na garganta de boa parte da humanidade. Quanto a Trump, ao chamar o pontífice de “fraco”, “terrível” e “apoiador do crime”, ele atinge diretamente 53 milhões de católicos americanos.
Isso terá um preço nas eleições de meio de mandato, em novembro. O voto católico conservador, que já o beneficiou antes, pode refluir agora. Além disso, a escolha do americano Robert Prevost como sucessor do papa Francisco é vista como um “reset” da Igreja Católica nos EUA. Um motor de fé que reiniciou com mais potência, ainda que Leão 14 não faça marketing da sua nacionalidade.
Hoje se sabe que o detonador da postagem de Trump como Jesus foi a entrevista de três cardeais americanos ao programa “60 Minutes”, da rede CBS. Estavam lá os arcebispos Joseph Torbin, de Newark, Blase Cupich, de Chicago, e Robert McElroy, de Washington.
Trataram de guerra e imigração sem travas na língua. E avisaram: seu novo chefe poderá não querer falar sobre tudo, mas falará sobre o essencial. Trump surtou na sequência.
Toda essa confusão não deveria ofuscar a primeira viagem apostólica do pontificado de Leão 14. Ao pisar na Argélia, em Camarões, em Angola e na Guiné Equatorial, países de contrastes culturais marcantes e graves problemas sociais, o papa se curva diante do único continente onde os católicos crescem em número. Fecharia bem a viagem admitindo que a representação africana no Vaticano, além de irrisória, é injusta e inaceitável.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.




