Um dia depois do início da guerra contra o Irã, batizada de Fúria Épica, o reverendo John Hagee, pastor de uma megaigreja em San Antonio (Texas), fez, antes do seu sermão dominical, uma oração agradecendo a Deus pelo presidente Trump, que, com sua coragem, teria feito o que nenhum presidente se atrevera a fazer até então: “esmagou os inimigos de Sião”. Antes de encerrar a oração, Hagee mencionou as profecias do livro bíblico de Ezequiel que, segundo sua interpretação, anunciam “a fúria de Deus” contra a Rússia e o Irã, inimigos de Israel.
São exemplos como esse que levaram um semanário do Marrocos, país árabe cuja população é 99% muçulmana, a publicar, há cerca de duas semanas, uma matéria afirmando que a Bíblia vem sendo usada por cristãos evangélicos como manual de doutrina militar para justificar ações bélicas contra o Irã. Segundo a reportagem, há uma ideologia messiânica que une Washington e Tel Aviv e, como resultado, bombas estão caindo sobre Teerã.
Tal afirmação, vinda de fontes que os evangélicos normalmente consideram suspeitas, pode, à primeira vista, parecer exagero ou mesmo propaganda islâmica visando a fomentar o alardeado ódio muçulmano aos cristãos. Esse, porém, não é o caso. Inúmeros acontecimentos nos últimos anos, ou mesmo meses, corroboram boa parte do que a revista marroquina afirma. Como isso é possível?
Entre os cristãos evangélicos, há uma vertente que, ao interpretar certas profecias bíblicas, crê que o retorno de Jesus e o fim da história só ocorrerão quando determinados acontecimentos geopolíticos envolvendo o povo de Israel se concretizarem. Entre esses acontecimentos encontram-se o estabelecimento do Estado de Israel na Palestina dentro das fronteiras mencionadas no Antigo Testamento (que incluiria a totalidade ou parte de vários países árabes do Oriente Médio), a reconstrução do Templo em Jerusalém e uma guerra de diversas nações contra Israel. Entre essas nações estariam a Rússia e o Irã.
Quando se adiciona a esse quadro a questão da separação entre igreja e Estado, o potencial explosivo torna-se ainda mais evidente. Aqueles que creem na necessidade do cumprimento das profecias para o retorno de Jesus muitas vezes defendem a união, ou pelo menos uma grande aproximação, entre Estado e Igreja.
Tais cristãos também entendem que é necessário contribuir de alguma forma para que as profecias se cumpram, e que toda ajuda que sirva para o fortalecimento de Israel contra inimigos como o Irã seria um serviço a Deus.
Os muçulmanos que observam tudo isso não compreendem que não são todos os cristãos, nem sequer todos os evangélicos, que creem e atuam dessa forma, o que torna o cenário mais complexo. Eles interpretam os acontecimentos como se os cristãos estivessem empreendendo uma nova Cruzada, visando à expansão territorial de Israel e à destruição de certas nações islâmicas, incluindo o Irã. E as razões para terem essa percepção não são poucas.
Em 2006, o já mencionado pastor John Hagee —que tem livre acesso a Trump— publicou o livro “Jerusalem Countdown”, no qual descreveu um cenário em que um ataque israelense ao Irã desencadearia um verdadeiro inferno que afetaria todo o Oriente Médio e começaria a levar o mundo na direção do Armagedom, o conflito final associado à segunda vinda de Jesus e ao início do seu reinado milenar.
Nos dois governos de Trump, várias decisões que contaram com o apoio de líderes evangélicos fortaleceram ainda mais o posicionamento de Israel em relação ao Irã e a outros países do Oriente Médio. Em 2017, Trump transferiu a embaixada dos Estados Unidos de Tel Aviv para Jerusalém. Mais tarde, ele próprio admitiu publicamente que tomou essa decisão “pelos evangélicos”.
Em 2019, Trump reconheceu as Colinas de Golã como território israelense, contrariando décadas de posição diplomática norte-americana. Na ocasião, o secretário de Estado Mike Pompeo declarou em uma entrevista que era possível que Deus tivesse levantado Trump “para um tempo como esse”, numa alusão à história bíblica da rainha Ester no reino da Pérsia (atual Irã), cuja coragem contribuiu para que o povo de Israel fosse salvo.
Obviamente essa rede de influência não se limita a Hagee e Pompeo. Na atualidade, o círculo mais próximo de Trump também inclui outros nomes que compartilham convicções semelhantes e que ocupam posições de poder real.
O pastor batista Mike Huckabee, escolhido por Trump para ser o atual embaixador em Israel, concedeu uma entrevista em fevereiro de 2026 em que sugeriu que Israel tem um direito bíblico à terra que se estende do rio Nilo ao Eufrates, o que provocou a condenação de mais de dez nações árabes e muçulmanas. Nas semanas que antecederam o início dos ataques ao Irã, Huckabee enviou uma mensagem ao presidente Trump dizendo-lhe que “Deus o poupou [de ser assassinado] em Butler, na Pensilvânia, para ser o presidente mais relevante em um século, talvez de todos os tempos”, e o instou a ouvir a voz que viria do céu. Em seguida, afirmou: “Você não buscou este momento; este momento buscou VOCÊ!”
Pete Hegseth, o secretário de Defesa, é outra peça-chave. Hegseth enxerga o conflito de forma explicitamente religiosa e civilizacional. No seu livro “American Crusade“, ele defende uma espécie de “Cruzada 2.0” contra o mundo islâmico, afirmando que o cristianismo tem sido tolerante demais com o avanço do Islã. Além disso, discursa abertamente sobre a possibilidade da reconstrução do Terceiro Templo de Salomão no Monte do Templo, onde atualmente está o famoso Domo da Rocha, lugar sagrado muçulmano. Foi ele quem, durante um briefing militar há poucas semanas, citou o Salmo 144 para invocar uma bênção divina sobre os soldados que participariam do ataque ao Irã, o que levou o patriarca latino de Jerusalém a declarar que “Deus está com aqueles que morrem na guerra, não com aqueles que abusam do seu nome”.
Em diferentes ocasiões, Hegseth descreveu operações militares como parte de uma missão sustentada pela “providência de Deus” e chegou a recorrer à linguagem das Cruzadas — inclusive associando-se ao lema Deus vult (“Deus o quer”), expressão que, não por acaso, ele próprio traz tatuada no corpo. Não se trata apenas de influência religiosa sobre decisões políticas, mas de uma fusão crescente entre retórica espiritual e ação militar, agora articulada a partir de estruturas formais do Estado.
Outros nomes evangélicos de destaque com acesso a Trump incluem a pastora pentecostal Paula White, conselheira espiritual da Casa Branca, que coordena o White House Faith Office. Durante o primeiro governo Trump, ela afirmou que “dizer não ao presidente Trump seria dizer não a Deus”. Já o senador Lindsey Graham se manifestou publicamente declarando que o conflito com o Irã é uma guerra religiosa.
O impacto dessa retórica dentro das próprias Forças Armadas também é revelador. Surgiram relatos de que comandantes norte-americanos estariam dizendo às tropas que “o presidente Trump foi ungido por Jesus para acender o sinal de fogo no Irã, provocar o Armagedom e marcar o seu retorno à Terra”. O que começou como relatos isolados se transformou em um grande escândalo, com mais de duzentas queixas formais, cobertura internacional massiva e pedido de investigação ao Congresso.
Seria simplista simplesmente concluir que a fé cristã evangélica é uma ameaça. Milhões de evangélicos no Brasil e ao redor do mundo vivem suas convicções sem jamais defender que bombardeios cumpram profecias. O problema surge quando crenças escatológicas deixam de ser teologia e passam a orientar decisões sobre onde e quando bombardear. Cabe ao governo essas decisões, caso haja razão legítima para isso. Nossa responsabilidade como cristãos é a de promover a paz, não a guerra. Como igreja, não fomos chamados para determinar a vida ou a morte de populações inteiras. Os fatos descritos acima sugerem que, no caso da relação entre Washington, Tel Aviv e Teerã, não é isso que tem acontecido.




