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Cientistas voltam à China após construir carreira nos EUA – 21/03/2026 – Mundo

Um professor emérito de Harvard. Um químico mundialmente reconhecido da Universidade de Chicago. Um cientista que pesquisava semicondutores na Intel. Em comum entre eles está o movimento de deixar os Estados Unidos para retornar à China, a terra natal, e continuar suas descobertas.

Mais oportunidades de crescimento, maior financiamento para pesquisa, liberdade para atuar e até razões pessoais estão entre os motivos que os trouxeram de volta em um contexto no qual Pequim e Washington disputam a liderança global na ciência e tecnologia.

Após 36 anos vivendo e fazendo ciência nos EUA, o químico Wenbin Lin, 59, um dos principais nomes no campo das estruturas metalorgânicas (MOFs, na sigla em inglês), deixou a Universidade de Chicago para assumir o posto de professor catedrático na Universidade de Westlake, em Hangzhou, com nomeações nas escolas de medicina e engenharia.

Lin acumula prêmios, bolsas e inúmeras citações. Com base no impacto de seus artigos, figurou entre os dez melhores químicos do mundo de 1999 a 2009, após análise da Reuters. Hoje, estuda como a nanoterapia pode melhorar a eficácia de diversos tratamentos contra o câncer.

A falta de acesso a instalações modernas de pesquisa e de investigação científica foram alguns dos motivos que o fizeram deixar a China. Os avanços, as oportunidades, a qualidade da produção científica e a infraestrutura, que hoje considera equiparável à dos EUA, foram os fatores que o levaram a voltar. O país asiático oferece, para ele, um ambiente “muito mais estimulante, interessante e recompensador”.

“A China se desenvolveu muito rapidamente, e a qualidade da ciência aqui realmente não fica atrás de ninguém. E o entusiasmo e o respeito pela pesquisa científica são algo que já não se vê tanto no Ocidente”, afirma.

O retorno dos pesquisadores dialoga com os objetivos do Partido Comunista Chinês para o futuro. Os dirigentes anunciaram na semana passada que o desenvolvimento tecnológico é o vetor que vai ditar os avanços do país.

Durante as Duas Sessões, nome dado à reunião anual do Congresso chinês, Pequim afirmou que a estratégia é questão de segurança nacional. O primeiro-ministro, Li Qiang, anunciou aumento médio anual de pelo menos 7% nos gastos com pesquisa e desenvolvimento nos próximos cinco anos.

“Também vamos acelerar a formação de profissionais com especialização de importância estratégica para o país, intensificar os esforços para atrair e formar cientistas de primeira linha e jovens talentos, e avançar em iniciativas para treinar engenheiros de excelência”, disse.

O regresso dos cérebros é marcado por décadas de investimento massivo em ciência e tecnologia, com dados de Pequim indicando que as aplicações na área cresceram a uma média anual de 10% só nos últimos cinco anos. O regime criou ainda programas que incentivam a chegada de talentos estrangeiros e a repatriação daqueles que haviam deixado o país.

Embora a China tenha estímulos para tornar sua academia mais atrativa internacionalmente, estudos indicam que a ida de pesquisadores sem relação prévia com o país asiático ainda é baixa se comparada à registrada nos EUA.

Um estudo publicado na Pnas (Proceedings of the National Academy of Sciences) em 2023 já mostrava que cientistas chineses que haviam migrado para os EUA estavam retornando em decorrência dos volumosos investimentos em ciência. Outro fator era o receio de que sua origem étnica representasse um risco, gerando temores em torno da segurança, da subutilização de talentos e da dificuldade de recrutar estudantes de alto nível para projetos.

O artigo cita “A Iniciativa China”, do primeiro mandato do presidente Donald Trump, como um dos motores do fenômeno. Lançado pelo Departamento de Justiça em 2018, o programa visava combater espionagem econômica, mas, na prática, teve como alvo cientistas que já atuavam no país, segundo o estudo.

“Até agora, a Iniciativa China investigou abertamente cerca de 150 cientistas acadêmicos e apresentou acusações criminais contra cerca de duas dezenas deles, enquanto muitos outros foram investigados em sigilo”, diz o documento.

O texto também registra crescente retorno de cérebros de 2010 a 2021, sendo grande parte deles pesquisadores seniores da engenharia e da ciência computacional.

A volta dos cientistas ocorre ainda em um momento em que se acirra a guerra comercial entre os países, agravada pelas tarifas impostas no início de 2025 por Trump. Desde a aplicação das taxas, diversas áreas foram afetadas, com destaque para a de mineração e processamento de terras raras, essenciais para a fabricação de semicondutores usados em indústrias como aviação, veículos e inteligência artificial.

Um pesquisador de chips, Su Fei, está entre os que deixaram empresas americanas para se dedicar à pesquisa na China. O cientista trabalhou por quase duas décadas na Intel, atuando desde o nível do circuito até o da arquitetura de semicondutores, e assumiu em 2025 um posto de docente na Universidade Tsinghua, em Pequim, a melhor do país. Su não respondeu a pedidos de comentários da Folha.

Embora tensões comerciais e disputas tecnológicas guiem o retorno de muitos cientistas, há aqueles que regressaram sobretudo por questões pessoais. É o caso do matemático Liu Jun, professor emérito de Harvard que hoje leciona estatística na Tsinghua.

Optou por Pequim para passar mais tempo com a mãe. Os progressos científicos e tecnológicos chineses tornaram a decisão mais fácil.

“Fui bem-sucedido nos Estados Unidos, dei aula em Harvard por 28 anos e também em Stanford por seis anos. Então, nesta fase da vida, comecei a pensar se deveria voltar para a China ou permanecer lá para sempre”, conta. “Acho que, na China, eu provavelmente posso desempenhar papéis um pouco maiores do que desempenhava nos EUA.”

Fonte: Folha de São Paulo

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