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Investigação indica que EUA usaram dados obsoletos em ataque a escola no Irã – 11/03/2026 – Mundo

Uma investigação militar em andamento determinou que os Estados Unidos são responsáveis pelo ataque com um míssil Tomahawk a uma escola primária no sul Irã, de acordo com autoridades americanas e outras pessoas familiarizadas com as conclusões preliminares da apuração.

O ataque, ocorrido no dia 28 de fevereiro ao prédio da escola primária Shajarah Tayyebeh, em Minab, foi resultado de um erro de direcionamento do Exército americano, que estava conduzindo ataques a uma base iraniana adjacente da qual o prédio da escola anteriormente fazia parte, segundo a investigação preliminar.

Oficiais do Comando Central dos EUA criaram as coordenadas do alvo para o ataque usando dados desatualizados fornecidos pela Agência de Inteligência de Defesa, de acordo com pessoas informadas sobre a investigação.

Autoridades enfatizaram que as conclusões são preliminares e que há questões importantes não respondidas sobre por que as informações desatualizadas não foram verificadas novamente.

Atacar uma escola cheia de crianças certamente será registrado como um dos episódios de erro militar mais devastador das últimas décadas. Autoridades iranianas afirmaram que o número de mortos foi de pelo menos 175 pessoas, a maioria delas crianças.

Embora a conclusão geral fosse amplamente esperada —os EUA são o único país envolvido no conflito que usa mísseis Tomahawk—, ela lança uma sombra sobre a operação militar americana no Irã.

As tentativas do presidente Donald Trump de se esquivar da culpa pelo ataque também complicaram a investigação, fazendo com que autoridades que revisaram as conclusões preliminares expressassem desconforto. As pessoas entrevistadas para esta reportagem falaram sob condição de anonimato, citando a natureza sensível da investigação em andamento e a afirmação de Trump em determinado momento de que o Irã, não os Estados Unidos, era responsável pelo ataque.

“Como o The New York Times reconhece em sua própria reportagem, a investigação ainda está em andamento”, disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, em comunicado.

Pessoas informadas sobre a investigação disseram que muitas perguntas ainda precisavam ser respondidas sobre por que informações desatualizadas foram usadas e quem falhou em verificar os dados. Ainda assim, o erro não surpreendeu autoridades atuais e ex-funcionários.

A escola fica no mesmo quarteirão de prédios usados pela Marinha da Guarda Revolucionária do Irã, um alvo prioritário dos ataques militares americanos. O local da escola originalmente fazia parte da base. Autoridades informadas sobre a investigação disseram que o prédio nem sempre foi usado como instituição de ensino, embora não esteja claro precisamente quando a escola foi inaugurada no local.

Uma investigação visual do New York Times mostrou que o prédio que abriga a escola foi cercado e separado da base militar entre 2013 e 2016.

Imagens de satélite analisadas pelo jornal americano mostraram que torres de vigilância que antes ficavam perto do prédio foram removidas, três entradas públicas foram abertas para a escola, o terreno foi limpo e áreas de recreação, incluindo um campo esportivo, foram pintadas no asfalto, e as paredes foram pintadas de azul e rosa.

A “codificação de alvo” fornecida pela Agência de Inteligência de Defesa, a agência de inteligência militar que ajuda a desenvolver alvos, classificou o prédio da escola como alvo militar quando foi repassada ao Comando Central, o quartel-general militar que supervisiona a guerra, de acordo com pessoas informadas sobre as conclusões preliminares da investigação.

Os investigadores ainda não entendem completamente como os dados desatualizados foram enviados ao Comando Central ou se a Agência de Inteligência de Defesa tinha informações atualizadas.

O direcionamento militar é muito complexo e envolve múltiplas agências. Muitos funcionários teriam sido responsáveis por verificar se os dados estão corretos, e oficiais do Comando Central são responsáveis por checar as informações que recebem da Agência de Inteligência de Defesa ou de outra agência de inteligência. Mas em uma situação de rápido desdobramento, como os primeiros dias de uma guerra, as informações às vezes não são verificadas.

Além da Agência de Inteligência de Defesa e do Comando Central, os investigadores estão examinando o trabalho da Agência Nacional de Inteligência Geoespacial, conhecida como NGA, que fornece e examina imagens de satélite de alvos potenciais.

Autoridades americanas e outras pessoas enfatizaram que a investigação está em andamento e há mais a aprender, de acordo com pessoas informadas sobre a investigação. Autoridades do Comando Central se recusaram a comentar. Autoridades da Agência de Inteligência de Defesa encaminharam as perguntas ao Pentágono, que se recusou a comentar, dizendo que o incidente está sob investigação. A Agência Nacional de Inteligência Geoespacial não respondeu a um pedido de comentário.

A Agência de Inteligência de Defesa e a Agência Nacional de Inteligência Geoespacial têm dezenas, até centenas, de analistas em comandos combatentes que trabalham com planejadores operacionais militares e escritórios de inteligência para desenvolver alvos.

Quando os dados de direcionamento da Agência de Inteligência de Defesa são mais antigos, espera-se que os oficiais de inteligência usem imagens ou dados da Agência Nacional de Inteligência Geoespacial para atualizar e verificar o alvo.

Embora Trump tenha tornado o ataque à marinha do Irã uma prioridade máxima da guerra para impedi-la de interferir no comércio global na região, historicamente não tem sido uma prioridade máxima da Agência de Inteligência de Defesa, que se concentrou mais nos mísseis do Irã e em outras prioridades como China e Coreia do Norte.

Imagens de satélite, postagens em redes sociais e vídeos verificados reunidos pela equipe de investigação visual do New York Times indicam que a escola foi severamente danificada por um ataque de precisão que ocorreu aproximadamente no mesmo horário dos ataques à base naval. Uma análise do Times mostrou que a base foi atingida novamente dentro de cerca de duas horas após os primeiros ataques.

Um vídeo publicado no domingo pela agência de notícias semioficial iraniana Mehr e verificado pelo jornal americano também mostra um míssil de cruzeiro Tomahawk atingindo a base naval ao lado da escola em Minab no dia 28 de fevereiro.

O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, e outras autoridades do governo se recusaram a comentar o ataque, além de dizer que ele está sob investigação. Apesar disso, o presidente tentou por vezes colocar a culpa no Irã.

“Na minha opinião, com base no que vi, isso foi feito pelo Irã”, disse Trump a repórteres no Air Force One no sábado (7), enquanto Hegseth estava ao seu lado, acrescentando: “Eles são muito imprecisos, como vocês sabem, com suas munições. Não têm precisão alguma. Foi feito pelo Irã”.

Na segunda-feira, um repórter do jornal americano perguntou a Trump por que ele era a única autoridade em seu governo culpando o Irã. “Porque eu simplesmente não sei o suficiente sobre isso”, respondeu Trump, afirmando incorretamente que o Irã também poderia ter mísseis Tomahawk, mas acrescentando que aceitaria os resultados da investigação sobre o que aconteceu.


Julian E. Barnes
, Eric Schmitt
, Tyler Pager
, Malachy Browne
e Helene Cooper

Fonte: Folha de São Paulo

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