Os Estados Unidos cobram do mundo responsabilidade nuclear e compromisso com valores democráticos. Os mesmos Estados Unidos são uma potência nuclear comandada por um presidente que ordena ataques sem autorização do Congresso, como prevê a Constituição americana.
A falta de coerência entre discurso e prática há tempos tem desgastado a legitimidade internacional americana. A Guerra do Iraque, justificada por armas de destruição em massa iraquianas nunca encontradas, escancarou como as decisões unilaterais de Washington têm motivações econômicas e políticas por vezes distantes da moralidade evocada por diferentes presidentes.
O próprio Donald Trump denunciou as motivações bélicas de seus adversários políticos, como listou recentemente Peter Burke, no jornal americano The New York Times:
“Sr. Trump, 2012: ‘Agora que os índices de aprovação de Obama estão em queda livre, fiquem de olho nele, pois ele pode lançar um ataque na Líbia ou no Irã. Ele está desesperado.’
Sr. Trump, 2013: ‘Lembrem-se de que eu previ há muito tempo que o presidente Obama atacaria o Irã por causa de sua incapacidade de negociar adequadamente —sua falta de habilidade!’
Sr. Trump, 2016: ‘Vamos pôr fim à política imprudente e dispendiosa de mudança de regime.’
Sr. Trump, noite da eleição de 2024: ‘Eu não vou começar guerras. Eu vou acabar com as guerras.’”
Desde que foi reeleito, Trump ordenou ataques militares a sete países. Agora, nessa ofensiva contra o Irã, em cooperação com Israel, não pediu autorização ao Congresso, a quem, repito, a Constituição dos Estados Unidos confere o poder exclusivo de declarar guerra.
A comunidade internacional precisa se preocupar com um regime autoritário que tem intenção de se armar no Oriente Médio, mas pode confiar em um país ocidental fortemente armado de arsenal nuclear, que fere o direito internacional e as próprias instituições democráticas?
Os Estados Unidos exigem, com frequência demais, confiança do mundo. Confiança de que suas intervenções são responsáveis e proporcionais. Confiança de que sua liderança internacional está ancorada em regras e valores democráticos, não apenas em força e interesses próprios.
Essa expectativa de confiança esteve sustentada na ideia de que o poder americano é limitado por freios e contrapesos. Temos notícias que contradizem essa premissa.
Sem defender o regime iraniano, que reprimiu mulheres, pessoas LGBTQIA+, minorias religiosas, executou manifestantes e dissidentes, é preciso reconhecer que os Estados Unidos violam direitos de imigrantes, recuam nos direitos das mulheres, multiplicam a urgência climática e interferem na soberania de países.
Há muitas diferenças entre os regimes, é evidente. Não estou dizendo que as arbitrariedades sejam equivalentes, assim como não é equivalente o orçamento militar e a capacidade bélica dos dois países.
Os Estados Unidos cobram do Irã transparência nuclear. Exigem inspeções, relatórios e compromissos verificáveis. Tudo importante. Por isso mesmo, os Estados Unidos e as demais potências nucleares não deveriam elas mesmas ter padrões igualmente rigorosos de controle interno e de prestação de contas internacional?
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