Nas últimas duas décadas, o Irã consolidou-se, na percepção israelense, como o maior risco à segurança do Estado judeu. Não apenas por seu programa nuclear e sua retórica oficial agressiva, mas também por sua atuação indireta de confronto por procuração.
Teerã armou, treinou e ofereceu sustentação ideológica, financeira e diplomática a grupos que se tornaram protagonistas do cerco a Israel: o Hamas em Gaza, o Hezbollah no Líbano e os houthis no Iêmen. Esses atores funcionaram como extensões da estratégia iraniana, compondo um “anel de fogo” ao redor do território israelense e permitindo que o regime dos aiatolás pressionasse e fustigasse o seu adversário sem se envolver diretamente.
Para o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e para uma parcela significativa da população de Israel, derrubar o regime iraniano tornou-se o principal objetivo militar a ser empreendido. Após sucessivas operações bem sucedidas contra os chamados “proxies”, consolidou-se a leitura de que, enquanto Teerã mantiver capacidade de reorganizar, financiar e rearmar esses grupos, o ciclo de confrontos será apenas postergado.
Assim, para a estratégia israelense, neutralizar os intermediários não basta. É preciso lidar com as suas fontes de sustentação política e militar.
Os conflitos mais recentes contribuíram para romper uma barreira psicológica histórica. Durante anos, prevaleceu a contenção mútua, baseada no cálculo de que um confronto direto entre os dois países teria consequências imprevisíveis e potencial drástico de escalada. No entanto, paulatinamente consolidou-se a ideia em Israel de que evitar a guerra é mais arriscado do que travá-la agora.
Ambos os países parecem ter se preparado para esse cenário. Israel investiu pesadamente em sistemas de defesa, inteligência e capacidade de projeção de força a longa distância, além de assegurar o apoio dos EUA e de países árabes do Oriente Médio. Já o Irã buscou proteger o seu programa nuclear e aprimorou o arsenal de mísseis balísticos e drones. A expectativa de que a guerra era inevitável orientou as decisões de Estado de parte à parte.
Reconstrução de instalação de mísseis no Irã após ataque de Israel
Instalação de mísseis perto de Amand, no Irã, em 29 de junho de 2025, após ataques aéreos israelenses, em comparação com 11 de novembro de 2025, depois que reparos foram feitos
– via Reuters
O novo estágio do conflito vem sendo marcado por operações mais ousadas e maior tolerância a riscos. Do lado americano e israelense, buscou-se atingir não apenas infraestruturas militares, mas também lideranças políticas e centros de poder, de modo a apoiar uma mudança de regime. Do lado iraniano, amplia-se a disposição de atacar alvos ligados a Israel ou aos Estados Unidos em países árabes no Oriente Médio, expandindo as operações e pressionando aliados de Washington.
Torna-se, assim, cada vez mais difícil para os países da região manterem-se neutros, inclusive porque o seu espaço aéreo é rota dos aviões e projéteis entre Israel e Irã. O cenário configura um teste decisivo para as novas alianças regionais.
A arquitetura emergente que aproxima países árabes sunitas de Estados Unidos e Israel, simbolizada pelos Acordos de Abraão, será colocada à prova. Se resistir, poderá consolidar um novo eixo de poder no Oriente Médio. Caso contrário, abrirá espaço para que o Irã explore suas fissuras.




