A agência oficial chinesa Xinhua revelou na última quarta-feira (25) que nove militares foram destituídos do Congresso Nacional do Povo, fazendo a delegação das Forças Armadas dentro do órgão reduzir para seu menor nível desde pelo menos 1974. Como tem sido praxe nos últimos meses, a justificativa foi seca e genérica: “Graves violações de disciplina e da lei”.
Se a política chinesa já é uma caixa-preta difícil de decifrar, o funcionamento das Forças é desafio muito maior do que meu conhecimento alcança. Mas quero convidar o amigo leitor a um exercício de especulação acerca das possíveis causas de constantes expurgos.
Uso “constantes” porque não estamos falando de algo isolado. Em janeiro, Pequim abriu uma investigação formal contra Zhang Youxia, até então o general mais graduado do país, e contra Liu Zhenli, chefe do Estado-Maior Conjunto. Ambos integravam a Comissão Militar Central (CMC), o órgão máximo de comando das Forças Armadas chinesas e instância por meio da qual o Partido Comunista exerce controle direto sobre o Exército.
A CMC concentra todas as decisões estratégicas, as promoções e o comando operacional do exército chinês. Dos seis generais nomeados por Xi para a comissão em 2022, apenas um permanece no posto. Seu ministro da Defesa, Li Shangfu, caiu e desapareceu logo no início desse terceiro mandato.
Segundo levantamento do Centro Internacional de Estudos Estratégicos (CSIS), mais de 100 oficiais seniores foram afastados ou desapareceram desde 2022. Cerca de 52% dos postos no topo da hierarquia militar foram impactados, a maior reconfiguração do alto comando desde o período posterior a 1989.
As constantes notícias de militares perdendo seus cargos aconteciam conforme a imprensa estatal revelava uma intrincada rede de corrupção. O setor de aquisições das Forças Armadas, por exemplo, vem sendo sucessivamente abalado por escândalos em licitações. A Força de Foguetes, responsável pelo arsenal nuclear (e de onde saiu Li Shangfu, aliás), perdeu praticamente toda a sua cúpula.
Não é desprezível, então, que Xi esteja promovendo uma limpa da qual se sabia ser necessário há muitos anos, mas só possível com um líder confiante o suficiente na segurança do seu próprio posto para bater de frente com os chefes das suas forças. Indício maior desta possibilidade é que quase todos estes oficiais foram também acusados de ferir o “sistema de responsabilidade do presidente da CMC” (cargo ocupado pelo próprio Xi), sugerindo que além de desvios financeiros, o líder possivelmente tinha dúvidas acerca da lealdade pessoal e disciplina de cada um.
O calendário político torna as coisas ainda mais sensíveis. Em 2027, o Partido Comunista realizará seu Congresso, quando serão renovados o Comitê Central, o Politburo e, por consequência, a própria CMC. É nesse momento que se consolida a arquitetura de poder para os cinco anos seguintes. Ao promover uma varredura antes do Congresso, Xi reduz o risco de que o Exército atue como pólo autônomo de influência na composição da nova cúpula, já que em sistemas opacos como o chinês, Forças Armadas fortes demais podem se tornar árbitros silenciosos da sucessão.
Há também uma dimensão política pública. Reformas militares, metas de modernização, prioridades orçamentárias e mesmo a postura em relação a Taiwan passam pela Comissão. Ao recompor o alto comando com promovidos sob sua tutela direta, Xi aumenta a probabilidade de continuidade de suas políticas sem resistência. Não se trata de eliminar oposição aberta, que raramente se manifesta de forma visível na China, mas de reduzir atritos, questionamentos e eventuais freios internos.
Estão em jogo o equilíbrio entre controle político e capacidade militar às vésperas de uma nova rodada de consolidação de poder. Xi parece disposto a assumir o custo imediato da instabilidade para chegar ao Congresso com as Forças Armadas sob controle inequívoco e com menos incertezas sobre quem decide e quem executa.
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