A repercussão da morte de Alex Pretti, a segunda em Minneapolis por ação de agentes do ICE (o serviço de imigração dos Estados Unidos), pressionou o governo de Donald Trump a recalibrar seu discurso.
O cenário agravou o impasse em Washington, especialmente em um momento em que o republicano tenta conciliar apoio e necessidade de aprovar o orçamento federal até sexta‑feira (30), a fim de evitar uma nova paralisação do governo, o chamado shutdown.
Isso porque o pacote inclui o orçamento do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), responsável pelo ICE, o serviço de imigração americano. A titular da pasta, Kristi Noem, está sob escrutínio, mas Trump nega que ela deixará o cargo.
Noem teria passado duas horas sendo questionada sobre as táticas adotadas pelo ICE, segundo o jornal The New York Times e, no Congresso, há deputados e senadores pedindo seu impeachment.
Ao longo da segunda-feira (26), o governo deu sinais das consequências internas, e a tensão cresceu com a informação de que Gregory Bovino, conhecido como um defensor da truculência das operações de deportação e por usar roupas semelhantes a trajes nazistas, foi demitido como comandante da operação em Minneapolis. Segundo a revista The Atlantic, ele voltará ao cargo que tinha antes do governo Trump, como oficial do CBP, a agência de proteção de fronteiras, na Califórnia, e deverá se aposentar em breve.
Na noite desta terça, em viagem a Iowa, Trump afirmou, em entrevista a Fox News, que não considera a saída de Bovino um recuo, mas sim uma mudança. O republicano ainda defendeu que “pequenas mudanças são necessárias” e disse que Bovino é um homem bom, mas o definiu como um “cara meio excêntrico” que “talvez não tenha funcionado em Minneapolis”.
No Senado, se aprovado, o projeto de lei orçamentária que é alvo de debates destinaria mais US$ 10 bilhões ao ICE, além dos US$ 76 bilhões que a agência deve receber ao longo de quatro anos, de acordo com o que ficou estabelecido pelo que Trump apelidou de “big beautiful bill” (grande e belo projeto de lei).
A senadora republicana do Maine e presidente do Comitê de Orçamento, Susan Collins, disse em entrevista à rádio Maine Public, nesta terça-feira, que pediu à secretária Noem a suspensão do aumento das ações de fiscalização imigratória tanto no Maine quanto em Minnesota. Segundo ela, as duas operações são amplas demais e indiscriminadas.
Collins tem adotado uma postura mais reticente em relação à agência federal e questionou o treinamento de novos recrutados do ICE. “Acredito que, na pressa de colocá-los em campo, o treinamento deles não foi tão completo e extensivo quanto deveria ser”, disse a senadora, que apesar disso, defende a aprovação do orçamento no Congresso. Ela reitera que mais de 80% da verba do DHS não é destinada ao ICE e que está prevista a implementação de câmeras corporais e treinamento para desescalar as ações.
Democratas, que são minoria no Congresso, têm afirmado que este é o momento de agir para pressionar o governo. O senador Chuck Schumer afirmou que vai votar “não” para a aprovação do pacote fiscal. Segundo ele, seu partido buscou reformas na lei, mas esbarrou na recusa dos republicanos. “O projeto de lei do DHS é lamentavelmente inadequado para controlar os abusos do ICE”, afirmou o líder da minoria.
Também democrata, a senadora Elizabeth Warren anunciou que vai acompanhar Schumer no voto contra o orçamento. “Agentes sem treinamento aterrorizam nossas comunidades. Nós não deveríamos dar um centavo a mais para esta agência desonesta”, afirma.
Na segunda (26), um juiz federal no estado de Minnesota intimou o chefe do ICE, Todd Lyons, a comparecer ao tribunal nesta semana para explicar o que o magistrado descreveu como falhas repetidas no cumprimento de ordens judiciais relacionadas às operações no estado.
Segundo o juiz, o governo Trump não cumpriu as ordens de realizar audiências para imigrantes detidos pelo ICE nas operações feitas no estado. “A paciência do tribunal chegou ao fim”, afirmou o juiz Patrick J. Schiltz, que ameaçou instaurar procedimentos por desacato contra Lyons.
A secretária de Imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, condicionou a saída dos agentes de Minnesota à entrega de todos os supostos criminosos e imigrantes em situação irregular que residem no estado, governado por democratas. Horas depois, o prefeito de Minneapolis, o também democrata Jacob Frey, afirmou que conversou com Trump e que parte dos agentes do ICE começaria a deixar a cidade nesta terça.
Entre republicanos, também há vozes contrárias às táticas violentas do ICE, caso do senador Bill Cassidy, de Louisiana, que classificou a morte de Pretti de “extremamente perturbadora”. “A credibilidade do ICE e do DHS está em risco. Deve haver uma investigação conjunta completa, conduzida por autoridades federais e estaduais, na qual possamos confiar para apresentar a verdade ao povo americano”, afirmou.
O discurso mais prevalente entre os correligionários de Trump, no entanto, é o de que os agentes do ICE foram expostos ao perigo como consequência das manifestações das comunidades locais, como se vê em Minneapolis desde o início do mês, quando outra cidadã americana, Renee Nicole Good, também foi morta a tiros por um agente do ICE.
Logo após a morte de Pretti, prevaleceu o discurso de que ele teria ameaçado agentes federais com uma arma. Vídeos do momento da abordagem letal, no entanto, mostram que ele estava apenas filmando a ação dos agentes.
Os senadores Ted Cruz e Michael McCaul pediram uma investigação para mostrar o que, de fato, aconteceu no caso Pretti. Cruz disse ainda ter ficado chocado com as imagens, e McCaul disse que o inquérito é necessário para “manter a confiança dos americanos no sistema de Justiça”.
Já Chris Madel, republicano que concorreria ao governo de Minnesota, retirou sua candidatura e criticou o ICE. “Não posso apoiar a vingança prometida pelos republicanos contra os cidadãos do nosso estado, nem posso me considerar membro de um partido que faria isso.”
Há ainda senadores que reiteram a necessidade de aprovar o orçamento. A republicana Katie Britt, do Alabama, suplicou aos colegas que reconheçam “o papel vital que o DHS desempenha”.
“Sabemos pela história recente que as paralisações do governo não ajudam ninguém e não são do melhor interesse do povo americano”, afirmou ela, em referência à paralisação do governo no ano passado que durou 43 dias.




