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O que acontecerá a seguir na Venezuela? Entenda cenários – 05/01/2026 – Mundo

Após decapitar o governo da Venezuela, o presidente Donald Trump está apostando que os EUA podem dobrar Caracas à sua vontade, garantir contratos lucrativos de petróleo para empresas americanas, expulsar potências hostis e acabar com o tráfico de drogas.

Mas outros cenários para a nação sul-americana também se apresentam, como conflitos internos e confronto com Washington, após o ataque sem precedentes de sábado (3) por militares americanos para capturar o ditador Nicolás Maduro de uma base militar no meio da noite.

Enfraquecido pela operação surpresa dos EUA — a primeira realizada por militares americanos contra uma nação na América do Sul que se tem notícia—, o regime tem o desafio de se manter unido sob nova liderança.

Trump parece inclinado à ideia de que a ex-vice de Maduro, Delcy Rodríguez, governe o país por um período não especificado, em troca de atender às exigências dos EUA. Se ela não cumpri-las, Washington ameaçou usar sua força naval no Caribe para cortar as exportações de petróleo, a linha vital econômica da Venezuela.

Mas Delcy, que agora é presidente interina, enfrenta um dilema incômodo: se ela cumprir totalmente as exigências de Trump, poderia ser derrubada como traidora pelos linha-duras dentro do partido chavista PSUV.

Se ela optar pelo confronto, Trump já a ameaçou com um destino pior que o de seu antecessor Nicolás Maduro, agora preso em uma cadeia de Nova York com sua esposa. O casal aguarda julgamento por acusações de tráfico de drogas.

“O que quer que se diga sobre Maduro, ele manteve as coisas unidas e administrou bem os diferentes centros de poder do chavismo por 13 anos”, disse Michael Shifter, pesquisador sênior do Diálogo Interamericano em Washington. “Isso não é pouca coisa. Delcy consegue fazer isso? … ela é muito inexperiente nesse papel.”

Algumas exigências, como dar às empresas petrolíferas americanas um papel maior na extração das riquezas naturais da Venezuela, seriam relativamente fáceis para Delcy atender. Como vice-presidente, ela esteve envolvida na negociação de muitos dos contratos atuais.

Mas outras, como cortar laços com aliados de longa data como Rússia, China e Irã, expulsar guerrilheiros marxistas colombianos da Venezuela e acabar com seu papel como país de trânsito para a cocaína, poderiam colocá-la contra poderosas facções militares que lucram com as atividades ilícitas que dominam a economia limitada por sanções.

O ministro da Defesa de longa data, Vladimir Padrino, e o ministro do Interior, Diosdado Cabello, ambos sob sanções dos EUA, controlam a maior parte do poder militar da Venezuela. Cabello comanda os coletivos, uma força nacional muito temida de paramilitares armados que andam em grupos de motocicletas para intimidar opositores e sufocar a dissidência.

Washington “não vai conseguir nada sobre drogas e democracia com [Delcy] no comando”, disse Elliott Abrams, ex-enviado especial dos EUA para a Venezuela no primeiro governo Trump. “Ela não vai reformar nada porque as reformas prejudicariam Padrino e Cabello.”

Com o apoio das forças de segurança, a dupla linha-dura poderia, em teoria, agir contra Delcy e colocar a Venezuela de volta em rota de colisão com os EUA se seus interesses fossem ameaçados. Mas a história do chavismo, o movimento revolucionário batizado em homenagem ao seu fundador Hugo Chávez, sugere que é mais provável que permaneça unido em tempos de crise, particularmente se sua sobrevivência estiver em jogo.

Se os militares fossem até Diosdado e dissessem ‘Não aceitamos Delcy como líder’ e você tivesse um sólido apoio das Forças Armadas e dos serviços de segurança para outra pessoa, então eu poderia ver Delcy sendo removida, disse um ex-alto funcionário dos EUA que teve relações com a Venezuela. Caso contrário, segundo ele, todos tentarão se manter unidos.

Independentemente do que Trump ou Delcy possam querer, a oposição democrática do país pode tomar as rédeas da situação. Muitos venezuelanos estão consternados que a destituição de Maduro tenha levado, pelo menos inicialmente, a um governo que parece idêntico ao anterior que desprezavam, menos o líder. Eles poderiam ir às ruas e convidar os militares e forças de segurança a se juntarem a eles em um levante popular para derrubar o chavismo.

Até agora, no entanto, não houve sinais de protesto. As ruas de Caracas estavam em grande parte desertas durante o fim de semana. Muitos dizem temer represálias do regime, cujas forças de segurança estão implantadas por toda a capital, mas essa situação pode mudar.

María Corina Machado, a laureada com o Nobel da Paz que lidera a oposição venezuelana, pediu que seu aliado Edmundo González seja autorizado a assumir o poder após o ataque dos EUA. Washington e várias outras nações reconheceram González como o verdadeiro vencedor da eleição presidencial de 2024, na qual Maduro fraudulentamente reivindicou a vitória.

Mas María Corina, até agora, evitou convocar seus apoiadores na Venezuela, dizendo-lhes apenas para “estarem prontos” para o que vem a seguir e organizando manifestações na Austrália e Europa. Ela prometeu retornar à Venezuela, um movimento que poderia galvanizar protestos em massa contra o governo, mas não disse quando.

Trump decepcionou os apoiadores da oposição ao focar fortemente sua entrevista coletiva de sábado, após o ataque, na necessidade de desenvolver o petróleo da Venezuela, aparentemente endossando Delcy como uma potencial parceira e descartando a possibilidade de María Corina assumir o poder. Ele não mencionou novas eleições ou a libertação de prisioneiros políticos.

Alguns membros da oposição venezuelana e ex-funcionários dos EUA, no entanto, alertaram que era muito cedo para julgar qual seria o objetivo final de Trump. Eles aconselharam paciência, argumentando que não era realista esperar que seu país saltasse diretamente de Maduro para um governo liderado pela oposição, e apontando para comentários mais matizados de Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, em entrevistas de domingo.

Rubio disse à CBS que tinha “admiração” tanto por María Corina quanto por González, mas que era preciso haver um “pouco de realismo” sobre a Venezuela realizar novas eleições. “Claro que queremos ver a Venezuela fazer uma transição para um lugar completamente diferente do que parece hoje”, disse ele. “Mas obviamente não temos a expectativa de que isso vai acontecer nas próximas 15 horas.”

Com tanta incerteza, poucos estão arriscando apostas sobre o que acontece a seguir na Venezuela.

“O pessoal de Trump parece estar apostando que Delcy e companhia podem manter as coisas unidas e cumprir suas ordens”, disse Shifter. “Acho que esse é o cenário preferido deles.”

“Só não tenho tanta certeza de que isso realmente leve em conta as complexidades e os riscos no terreno e as realidades na Venezuela. Então, as coisas podem facilmente ficar muito complicadas.”

Fonte: Folha de São Paulo

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