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Igrejas que mais crescem nos EUA evitam laços com política – 03/01/2026 – Mundo

A cada semana, 45 mil pessoas vêm orar em um estádio de basquete convertido em Houston. Na véspera de Natal, o santuário não convencional da Igreja Lakewood se encheu com uma multidão que parecia uma amostra representativa dos Estados Unidos em trajes vermelhos combinando. Quando o pastor começou a contar a história de um bebê nascido em Belém em uma noite estrelada como esta, as telas enormes atrás dele cintilaram e máquinas de fumaça cobriram o palco com uma névoa aconchegante. Um homem cantou uma versão gospel de “Noite Silenciosa” em espanhol e, quando a batida caiu, cada pessoa nas arquibancadas sentiu a vibração do contrabaixo em seu corpo.

Pesquisadores descobriram que cultos como este, na maior igreja dos EUA, podem deixar as pessoas sentindo-se como se estivessem sob efeito de drogas. Talvez não seja surpresa, então, que enquanto a maioria das igrejas americanas está lutando para encher seus bancos, as megaigrejas —cerca de 1.800 com produção ao estilo de Hollywood e multidões hipnotizantes— estão apenas ficando maiores.

Nos últimos cinco anos, os americanos têm se mudado em massa para os subúrbios em expansão do “cinturão do sol”, onde essas igrejas prosperam. Quando pequenas igrejas fecharam durante a pandemia de coronavírus, as grandes estavam prontas para absorver seus fiéis. Hoje, embora a maioria das igrejas tenha menos de cem membros, 70% das pessoas frequentam as 10% maiores. O produto que elas vendem está mudando o cristianismo no país.

O modelo de negócio das megaigrejas é totalmente voltado para o crescimento. Em qualquer culto, aproximadamente um sexto do público é composto por novos frequentadores, diz Scott Thumma, do Instituto Hartford para Pesquisa Religiosa.

Na North Point Community Church, nos arredores de Atlanta, onde neve artificial caiu durante a abertura em um domingo recente, um batalhão de voluntários no “estande de conexões” oferece presentes aos recém-chegados e os encaminha para “pequenos grupos” que podem integrar.

Para alcançar potenciais congregantes mais perto de casa, as igrejas estão agora criando franquias. Algumas alugam ginásios de escolas e teatros que estão vazios nas manhãs de fim de semana. Outras estão comprando novos edifícios. A Life Church de Oklahoma tem 46 campi, e a Church of the Highlands do Alabama, 27.

A expansão transformou a igreja em muito mais do que um culto dominical: é onde os membros praticam esportes, participam de aconselhamento matrimonial, fazem aulas de controle da raiva e matriculam seus filhos na escola. Muitas megaigrejas agora administram faculdades.

Esse alcance se reflete no dinheiro que estão arrecadando. Pesquisas realizadas pelo Instituto Hartford descobriram que de 2020 a 2025, a receita anual média de uma megaigreja aumentou 25%, de US$ 5,3 milhões para US$ 6,6 milhões. Quase tudo veio de doações dos congregantes.

As megaigrejas relatam gastar metade de seu dinheiro em salários de funcionários, pouco mais de um terço em manutenção de edifícios e programação, e um décimo em caridade. Mas além do que escolhem divulgar, suas finanças são um mistério.

A lei tributária federal isenta as igrejas de apresentar declarações anuais e as protege de auditorias. “As únicas pessoas que fiscalizam essas grandes igrejas são pessoas de dentro”, diz Lloyd Hitoshi Mayer, da Universidade de Notre Dame. Em 2021, um pastor de outra megaigreja em Houston foi condenado por fraudar investidores em quase US$ 3,6 milhões. Um processo mais recente acusou líderes da igreja de usar indevidamente os dízimos.

O glamour convida a mais suspeitas. Alguns pastores vivem em casas grandes, aceitam presentes caros de fiéis como carros e ganham milhões com acordos de livros. Cerca de um quarto prega o evangelho da prosperidade, uma teologia que afirma que Deus recompensa a fé com riqueza material. “Não posso ser uma grande bênção para as pessoas se sou pobre, quebrado e deprimido”, disse Joel Osteen, o mais conhecido entre eles e pastor sênior da Lakewood, no programa da apresentadora Oprah Winfrey.

Por décadas, as megaigrejas têm sido formadoras de tendências no mundo evangélico. Suas músicas de adoração e sermões no estilo TEDxTalks se tornam virais, e elas tornaram aceitável o uso de jeans e tênis Nike como vestimenta para ir à igreja.

Mas cortejar as massas desiludidas de hoje as incentiva a evitar qualquer coisa muito substancial, por medo de alienar as pessoas. A maioria das megaigrejas, assim como uma parcela crescente dos protestantes americanos, agora são não-denominacionais. Em vez de se vincularem a seitas tradicionais com doutrinas rígidas, estão construindo marcas projetadas para serem populares e flexíveis.

O resultado é um cristianismo que se parece mais com um curso intensivo de autoajuda do que uma fé milenar ancorada nas escrituras. A mensagem central no Natal na Lakewood foi “não pare de acreditar”. Os fiéis foram informados que a graça de Deus está chegando e que deveriam continuar lutando contra o demônio da depressão, ou dar mais uma chance à reabilitação.

É pelo mesmo motivo que a maioria dos pastores de megaigrejas não prega política. Raramente eles abordam questões polêmicas como aborto ou homossexualidade do púlpito. Neste verão, o governo do presidente Donald Trump eliminou regras que retiravam isenções fiscais de pastores se eles endossassem publicamente candidatos políticos. Mesmo assim, a maioria das igrejas que responderam à pesquisa de Hartford disse não ter planos de começar a fazê-lo.

“Eles não são profetas gritando no deserto, esses caras administram impérios de milhões de dólares”, diz Ryan Burge, que estuda religião na Universidade de Washington, em St. Louis. “Por que eles colocariam isso em risco?”, questiona.

Albert Mohler, o diretor do Seminário Teológico Batista do Sul, acredita que os jovens desejam um cristianismo mais sério e que as megaigrejas diminuirão se estar associado a elas não proporcionar capital social aos seus membros. Ele chama o evangelho da prosperidade de “ameaça direta ao cristianismo bíblico” e uma “pseudo-religião”.

Dentro da Igreja Lakewood não há cruz em exibição. Em vez disso, no fundo do estádio, uma gigantesca bandeira americana brilha acima das arquibancadas. Aqui, o maior atrativo é algo mais fácil de seguir do que qualquer ensinamento de Jesus: o evangelho do capitalismo americano.

Texto do The Economist, traduzido por Vinícius Barboza, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com

Fonte: Folha de São Paulo

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