“A violência não surge apenas dos instintos mais primitivos. Ela é também alimentada quando se transforma em espetáculo, quando passa a ser celebrada como forma de afirmação pessoal ou coletiva. A lógica é simples e devastadora: se o outro é visto como obstáculo absoluto, sua eliminação passa a parecer solução.
Esse modo de pensar não está restrito a indivíduos em crise. Tornou-se parte do discurso político, da cultura digital e até do entretenimento. A raiva se converte em identidade, o ódio em forma de pertencimento. A polarização nos acostuma a dividir o mundo entre ‘bons’ e ‘maus’, ‘puros’ e ‘corruptos’. Mas essa simplificação não resolve os problemas — apenas desloca frustrações, transforma o adversário em inimigo e normaliza a violência como resposta.
O efeito é ainda mais cruel entre os jovens. Muitos crescem cercados de expectativas, mas sem referências sólidas, apoio emocional ou espaços de sentido. Inteligentes, criativos e talentosos, acabam mergulhando em fantasias de destruição, seja em fóruns virtuais, nos jogos ou nas ideologias radicais que prometem identidade em troca de submissão. Sem encontrar lugar no mundo real, buscam em narrativas de violência um falso consolo para a solidão e o vazio.
Não se trata apenas de segurança pública, mas de saúde mental, de cultura e de futuro. Se uma geração inteira é empurrada para o isolamento, o ressentimento e a raiva, o resultado não pode ser outro senão o enfraquecimento da sociedade como um todo. Uma nação que transforma o ódio em linguagem política e a violência em espetáculo perde não só a sua coesão, mas também a esperança de que seus jovens escolham criar em vez de destruir.
O caminho contrário é mais difícil, mas possível. Passa por resgatar a ideia de que adversários não são inimigos, mas vozes diferentes a serem ouvidas. Exige que cuidemos de nossos jovens não apenas com palavras de encorajamento, mas com oportunidades reais de pertencimento, educação de qualidade, apoio comunitário e abertura para a escuta.
A violência floresce quando o vazio permanece. A alternativa é oferecer horizontes. Se não cultivarmos a escuta, a empatia e a possibilidade de reconstrução, continuaremos a colher a desesperança que hoje já se anuncia nas sombras.”




