A inédita ação de Israel contra mais um país de sua vizinhança demonstra que o Estado judeu sob Binyamin Netanyahu segue sem impor limites à sua campanha de redesenho do Oriente Médio, colocando em risco o plano de seu fiador Donald Trump para a paz regional.
Para a guerra em Gaza, o bombardeio apenas reforça o desinteresse do premiê em uma solução negociada.
Isso é motivado por considerações domésticas, mas também pelas repetidas negativas do Hamas em aceitar acomodação. O grupo terrorista palestino quer sobreviver como governante, o que é politicamente inviável.
Na segunda-feira (8), Trump havia telegrafado um “último aviso” ao Hamas, e ele disse ter sido avisado do ataque. Tudo sugere que o americano deu o OK para Israel agir contra um país árabe que, se não tem acordo de paz com Tel Aviv, é visto como interlocutor confiável. Isso para não falar no Jumbo dado de presente pelo emirado ao americano.
Naturalmente, tudo pode ser um jogo combinado com Doha, dado o impasse. Mas ficará muito difícil para Trump fazer avançar seu plano de normalizar as relações do Estado judeu com seus vizinhos.
Isso porque, mesmo com a usual hipocrisia das elites dominantes de locais como o Qatar, há o fator rua. Se a tragédia humanitária em Gaza já é impossível de vender para populações, a aceitação de Israel como um policial regional impune pode desestabilizar regimes que são invariavelmente autocráticos.
O projeto de Trump remonta a seu primeiro mandato, quando promoveu os Acordos de Abraão, em referência às três religiões monoteístas que veem no patriarca bíblico sua origem comum.
A partir de 2020, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão aceitaram normalizar relações com Tel Aviv com grandes promessas comerciais. No caso dos Emirados, elas frutificaram quase de forma imediata, e assim é significativo que Abu Dhabi tenha sido uma das primeiras capitais a protestar contra o ataque.
Pode ser tudo jogo de cena, mas a prática regional é complexa. O objetivo de Trump em 2020, repetido por Netanyahu diversas vezes, segue o mesmo: isolar o Irã e seus prepostos.
O massacre do 7 de Outubro abriu o caminho para esse acerto de contas, com a redução do Hamas a uma guerrilha e do Hezbollah a um grupo acuado, com a mudança de governo na Síria e uma guerra inédita com Teerã.
Esse empoderamento de Israel foi útil aos regimes sunitas da região até aqui, mas quando um deles é alvo de ataque o cenário muda, dada a desconfiança mútua que rege as relações do Oriente Médio. A ocupação gradual do sul da Síria pós-Assad já vinha causando incômodo, por exemplo, e a Jordânia teme o impacto da eventual anexação da Cisjordânia proposta por Netanyahu.
Trump agora ventilava a ideia de uma continuação dos acordos, passando pelo Qatar e almejando ao fim a simbólica Arábia Saudita. O preço para tal arranjo acaba de ficar mais caro, caso o presidente acredite que é possível lograr sucesso com uso da força.
Doha fica mal na foto. O emirado rico em gás natural sempre jogou com uma projeção regional baseada em neutralidade. A maior base americana no Oriente Médio, Al-Udeid, fica por lá, assim como uma unidade turca.
Ao mesmo tempo, os qataris abrigavam em grande estilo a liderança exilada do Hamas, que até aqui tinha uma espécie de imunidade respeitada até por Israel. Antes do 7 de Outubro, Netahyahu chamava os terroristas de “ativo”, por dividir a política palestina. Permitiu a entrada de milhões de dólares do Qatar em Gaza, que ao fim ajudaram a fomentar o maior ataque ao Estado judeu na história.
A boa relação com o Irã valeu ao Qatar um bloqueio comandado pelos sauditas de 2017 a 2021. Ainda assim, Teerã violou seu espaço aéreo em junho para alvejar Al-Udeid no fim do conflito com EUA e Israel, uma retaliação combinada ao ataque americano a instalações nucleares que levou ao cessar-fogo ora vigente.
Ao fim, nada aconteceu em termos de rompimento, como talvez não ocorra agora. Mas a posição de Doha ficou francamente enfraquecida e uma paz mais ampla, provavelmente distante.




